Grupo Zanatta, de Novo Horizonte do Norte, soma R$ 62,3 milhões em dívidas sujeitas ao processo, além de R$ 53,8 milhões em passivo extraconcursal
Colheitadeira colhendo soja em lavoura, no Mato Grosso
Foto: Divulgação/AGCO

A Justiça de Mato Grosso deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo Zanatta, núcleo familiar de produtores rurais com atuação em Mato Grosso e no Paraná. A decisão reconheceu a existência de um grupo econômico entre os integrantes da família. E autorizou a apresentação de um plano único de reestruturação para todos os envolvidos.

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Tiveram o pedido deferido, em regime de consolidação processual e substancial, os produtores rurais Fernando Zanatta, Priscila Zanatta e Egon Mayer, além da empresa F. Zanatta Armazéns Ltda., responsável pela estrutura de armazenagem que dá suporte à produção agrícola do grupo.

O processo tramita sob o número 1006896-09.2026.8.11.0015, na 4ª Vara Cível da Comarca de Sinop (MT). A Credibilita Administração Judicial e Serviços Ltda. foi nomeada administradora judicial. As informações são do site Empresa em Crise.

Dívida soma R$ 116 milhões entre passivo concursal e extraconcursal

O passivo sujeito à recuperação judicial totaliza R$ 62.345.084,19. De acordo com a lista de credores anexada ao processo, os principais são:

  • Banco do Brasil S.A. — cerca de R$ 51,1 milhões, em garantia real
  • Banco CNH Industrial Capital S.A. — aproximadamente R$ 2,2 milhões, quirografário
  • Agro Amazônia Produtos Agropecuários S.A. — R$ 1,8 milhão, referente a insumos
  • Sicoob Credip — R$ 1,8 milhão, em garantia real
  • Bertuol Indústria de Fertilizantes Ltda. — R$ 1,5 milhão
  • Agrogalaxy Participações S/A — R$ 1,2 milhão
  • Longping — aproximadamente R$ 851,6 mil

Além desse valor, o grupo tem dívida extraconcursal de R$ 53.806.420,56, formada por créditos com cláusula de barter ligados a Cédulas de Produto Rural (CPR), de titularidade da Fiagril Ltda. e da Agrosyn Comércio e Representação de Insumos Agrícolas Ltda., e por créditos de alienação fiduciária junto ao Itaú Unibanco, vinculados a operações de CPR financeira.

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O que levou o grupo à crise

Segundo a petição inicial, a crise resulta da combinação de fatores que comprometeram a capacidade de pagamento do grupo. A partir de 2022, no pós-pandemia, os custos de insumos, fertilizantes e combustíveis subiram, enquanto o preço de venda da produção caiu — a saca de soja, que chegou a R$ 180, passou a ser negociada por cerca de R$ 90.

Uma estiagem na região reduziu a produção de grãos, e a empresa Safras não pagou pela produção comercializada pelo grupo, segundo a petição. A implementação da Moratória da Soja também levou tradings a restringir financiamento e compra, forçando parte dos produtores a negociar com empresas de maior risco e por valores mais baixos.

Da agricultura familiar no Paraná à expansão para Mato Grosso

O grupo nasceu da agricultura familiar no Paraná e cresceu com a união de dois núcleos da mesma família dedicados à produção rural. Na década de 2010, expandiu para Mato Grosso em busca de melhores condições para o cultivo de grãos e fez ali sua primeira aquisição conjunta de propriedade rural. Depois, constituiu uma empresa de armazenagem, secagem, limpeza e classificação de grãos para dar suporte logístico à produção.

Hoje o grupo cultiva soja e milho em cerca de 4.309 hectares em Novo Horizonte do Norte e Juara (MT). Além de manter 820 hectares em Guarapuava (PR).

Desafio será conciliar credor concentrado e fornecedores menores

O agronegócio de grãos em Mato Grosso enfrenta custos elevados de insumos, dependência de crédito rural e forte volatilidade nos preços de commodities como a soja. Medidas como a Moratória da Soja, voltadas a objetivos ambientais, também têm efeito direto sobre a liquidez de produtores ao restringir canais de comercialização e financiamento. Portanto, o que aumenta a exposição a calotes pontuais, como o atribuído à empresa Safras neste caso.

Para o Grupo Zanatta, o desafio será equacionar, em um único plano de recuperação, os interesses de um credor financeiro concentrado, responsável pela maior parte da dívida sujeita ao processo, e de fornecedores de insumos e prestadores de serviço menores, preservando a atividade construída ao longo de décadas. A reestruturação depende ainda da manutenção da posse de maquinário e imóveis dados em garantia, e da negociação de créditos extraconcursais que somam quase metade do endividamento total do grupo.