Produtores avaliam reduzir o pacote tecnológico e adiar a compra de insumos para preservar o caixa
Foto: Tony Oliveira/Sistema CNA/Senar

A possibilidade de ser registrado o maior custo da série histórica na safra de soja 2026/27 em Goiás é apontada por uma análise preliminar da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg). Em algumas regiões, um aumento de até cinco sacas por hectare poderá ser registrado.

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Essa projeção foi apresentada após a frustração da segunda safra de milho, que teve as margens dos agricultores reduzidas. Por isso, um planejamento mais cauteloso deverá ser adotado para o plantio da soja, especialmente diante da menor disponibilidade de caixa.

Apesar disso, uma redução da área cultivada não é esperada pela Faeg. No entanto, uma diminuição do pacote tecnológico poderá ser adotada para que as despesas sejam contidas.

Custo supera produtividade

Em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, uma elevação do custo de produção da soja Intacta deverá ser registrada. O valor deverá passar de 70,8 para 75,5 sacas por hectare.

No município, cerca de 480 mil hectares são cultivados com soja no verão. Além disso, aproximadamente 90% dessas áreas são ocupados posteriormente por milho, sorgo ou girassol.

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Segundo Lucas Lopes, assessor técnico da Faeg, a produtividade média das duas últimas safras poderá ser superada pelo custo projetado. Nos ciclos anteriores, foram registradas médias de 69 e 65 sacas por hectare.

No cálculo, são considerados os custos operacionais, a remuneração do capital investido e o custo de oportunidade da terra. Separadamente, o custo operacional da safra 2026/27 já está próximo de 55 sacas por hectare.

“Os custos de produção do agricultor vêm aumentando ano a ano. Na próxima safra, para a soja, é algo que preocupa bastante. Dentro da série histórica, pode ser o mais alto que o produtor já teve”, relata Lopes.

Insumos pressionam despesas

A alta dos fertilizantes e do óleo diesel deverá ser refletida nos custos da safra. Além disso, despesas com as operações nas propriedades e com o transporte de insumos e grãos também deverão ser elevadas.

Nesse cenário, um ritmo mais lento de compras vem sendo observado. Em meados de agosto, cerca de 75% dos fertilizantes e 55% dos defensivos haviam sido adquiridos.

“O produtor tem deixado para comprar na boca da safra, a não ser quem faz pool de compra e consegue antecipar, pois tem poder de barganha maior”, resume Lopes.

Assim, negociações antecipadas poderão ser realizadas por produtores que participam de compras coletivas. Dessa forma, parte da pressão sobre o caixa poderá ser reduzida.

Arrendamento reduz margem

Os gastos com arrendamento não foram incluídos no cálculo da Faeg. Ainda assim, uma alta também foi registrada nesse item, que chega a aproximadamente 20 sacas por hectare em algumas regiões.

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Diante desse cenário, a devolução de áreas arrendadas poderá ser realizada por parte dos produtores, conforme a expectativa da entidade.

“Não tem margem para erro”, diz Dourivan Cruvinel, presidente-executivo da Cooperativa Agroindustrial do Sudoeste Goiano (Comigo).

Segundo Cruvinel, pequenos agricultores vêm sendo afastados pela alta dos arrendamentos. Por isso, áreas mais baratas estão sendo procuradas em estados como Tocantins e Piauí.

Expansão deverá desacelerar

Apesar da pressão financeira, uma redução da área de soja em Goiás não é esperada. Entretanto, a expansão prevista para o Vale do Araguaia deverá ser desacelerada pelos custos e pelas condições climáticas.

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A região está localizada próxima à divisa com Mato Grosso. De acordo com Lucas Lopes, até quatro milhões de hectares de pastagens degradadas poderão ser convertidos em lavouras.

Na safra 2025/26, 5,1 milhões de hectares de soja foram plantados em Goiás.

Plantio será feito com cautela

Por enquanto, a orientação da Faeg é para que a semeadura não seja iniciada logo nas primeiras chuvas. Assim, maior estabilidade das condições climáticas deverá ser aguardada pelos agricultores.

Caso a janela ideal da soja seja perdida, o risco de uma segunda safra com margens menores deverá ser evitado, segundo a entidade. Nesse caso, culturas como sorgo e girassol poderão ser consideradas alternativas com maior margem.

Enquanto isso, uma redução das despesas deverá ser buscada por meio do aproveitamento da reserva de nutrientes acumulada nas áreas ao longo dos anos, conforme a avaliação de Everaldo Pereira, presidente do Sindicato Rural de Rio Verde.

“A tendência de produtividade menor na próxima safra é evidente. O cenário é preocupante, pois pode haver quebra por conta do clima mais seco”, admite Pereira.

Novas dívidas devem ser evitadas

Nesse contexto, o controle dos custos deverá ser priorizado pelos agricultores, segundo Charles Peeters, vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja, Milho e Outros Grãos Agrícolas de Goiás (Aprosoja-GO).

Além das despesas da produção, os gastos financeiros e os custos que não estão diretamente ligados à atividade também deverão ser incluídos no planejamento.

“A recomendação é não se alavancar, não tomar novos investimentos e fazer mais com menos”, relatou Peeters.

Por sua vez, a área agrícola de Rio Verde é considerada consolidada pelo engenheiro agrônomo e consultor de mercado Enio Fernandes. Para ele, mesmo com margens menores, a decisão de plantar deverá ser mantida.

“Área consolidada não diminui. O produtor planta com o cheiro de adubo e vê o que vai colher”, disse Fernandes.