Resumo da notícia
- A alta nos preços do cacau, principal insumo do chocolate, elevou o custo do produto em 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026, muito acima da inflação geral de 4,44%, impactando o bolso do consumidor.
- A crise de 2024 no mercado de cacau, causada por quebras de safra na África Ocidental e eventos climáticos, triplicou o preço internacional, refletindo em aumentos estruturais no custo do chocolate no Brasil.
- Apesar de ser exportador, o Brasil ainda depende de importações significativas de derivados de cacau para abastecer a indústria interna, o que torna a logística crucial para evitar faltas e novos aumentos na Páscoa.
A aproximação da Páscoa aquece não só as vendas de ovos de chocolate, mas também o comércio exterior do principal insumo da data: o cacau. E, neste ano, o consumidor brasileiro sente esse movimento no bolso com mais intensidade. O chocolate em barra e bombom acumula alta de 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026. Mais de cinco vezes acima da inflação geral de 4,44%, segundo o IPCA.

Para Ahmed El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, o aumento não é pontual nem exclusivamente sazonal. “Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo forte no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica.
O choque do cacau em 2024 ainda ressoa
O principal gatilho foi a crise histórica no mercado de cacau em 2024, quando a cotação internacional ultrapassou US$ 10 mil por tonelada, mais que o triplo da média histórica. Quebras sucessivas de safra na África Ocidental, sobretudo na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, derrubaram a oferta global.
- Salmão vira alternativa e impulsiona vendas na Páscoa
- Protagonismo feminino impulsiona nova edição de prêmio do agro
“Doenças nas lavouras, eventos climáticos extremos associados ao El Niño e o envelhecimento dos cacaueiros reduziram drasticamente a oferta. Como o cacau representa entre 30% e 40% do custo industrial do chocolate, o repasse foi inevitável”, afirma Ahmed.
Mesmo com a correção dos preços internacionais para a faixa de US$ 5 mil por tonelada, o consumidor ainda não sente alívio. “A indústria trabalha com contratos futuros e estoques. Muitas empresas travaram preços quando o cacau estava muito caro. O reflexo na gôndola ocorre com defasagem”, explica. Outro fator que amplifica o custo doméstico: o cacau tem cotação em dólar, e qualquer desvalorização do real encarece ainda mais a matéria-prima para a indústria nacional.
Brasil exporta cacau, mas ainda depende de importações
Esse cenário global se conecta diretamente à posição contraditória do Brasil no comércio exterior do setor. Embora o país figure como produtor e exportador relevante de cacau e derivados,com exportações que cresceram mais de 86% entre 2021 e 2025, aproximando-se de US$ 1 bilhão, ele ainda recorre ao mercado externo para abastecer a própria indústria.
Em 2024, o Brasil importou cerca de 41 mil toneladas de derivados de cacau, entre manteiga, pó e pasta, com investimento superior a US$ 160 milhões. Costa do Marfim, Gana e Malásia lideraram o fornecimento. No segmento de chocolates prontos, o país importou mais de 20 mil toneladas, vindas principalmente de países europeus e da Argentina.
Para a CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional, Cristiane Fais, a Páscoa escancarou a complexidade dessa cadeia. “O Brasil exporta derivados, mas ainda depende da importação para equilibrar a produção interna. Em datas como esta, a logística precisa ser ainda mais eficiente para evitar rupturas no abastecimento e aumento de custos.”

Ela destaca que câmbio, frete e instabilidades climáticas nos países produtores pressionam diretamente o preço final ao consumidor. “Qualquer oscilação na produção internacional ou no transporte pode refletir rapidamente nas prateleiras. Empresas que atuam com importação e exportação precisam estar preparadas para cenários voláteis.”
Alta apareceu nas prateleiras
Levantamentos em grandes varejistas confirmam o impacto. Um ovo de 277g que custava em média R$ 45 passou para R$ 56,99, alta superior a 26%. Outros produtos registraram aumentos entre 16% e 25%.
O consumidor pode perceber essa pressão de três formas, segundo Ahmed: aumento nominal do preço, redução da gramatura com valor semelhante, ou promoções mais seletivas. O professor lembra ainda que o ovo de Páscoa concentra custos além do chocolate. “O consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto” (embalagem especial, marketing e logística refrigerada).
A antecipação das vendas, cada vez mais comum desde janeiro, também segue uma lógica clara. “A Páscoa representa de 25% a 30% do faturamento anual do setor de chocolates. Antecipar as vendas dilui risco, melhora o giro de estoque e ajuda no fluxo de caixa”, explica Ahmed.
Quando os preços podem cair?
Há expectativa de superávit global de cacau até o fim de 2026. Se o cenário se confirmar, parte do alívio pode chegar ao consumidor ao longo de 2027. Mas sem retorno aos patamares anteriores ao choque.

Ahmed ilustra a dimensão desse possível alívio: em um ovo de R$ 70, cerca de 30% do preço final tem ligação direta com o cacau. “Se o preço internacional cair 30% e o movimento for totalmente repassado, o impacto máximo seria cerca de R$ 6 de redução. Na prática, como o repasse costuma ser parcial, a queda poderia ser de aproximadamente R$ 3, levando o produto de R$ 70 para cerca de R$ 67. “Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados”, conclui.
Como economizar nesta Páscoa
Apesar do cenário adverso, o consumidor pode adotar estratégias simples. A principal dica do professor é comparar o preço por grama, não o valor total do ovo. “Comparar alternativas como barras e caixas de bombom pode gerar economia relevante.”
- Açaí ganha crédito e venda garantida no Pará
- Mulheres da Amazônia transformam cacau orgânico em chocolate artesanal
Outra saída é montar kits alternativos. “Combinar uma barra de chocolate com uma caixa menor e um mimo adicional costuma sair mais barato do que um ovo grande, que concentra custo de embalagem e sazonalidade.” Pesquisar em supermercados, atacarejos e e-commerce também ajuda, já que a dispersão de preços tende a crescer em anos de alta.
Ahmed encerra com um alerta direto: “A última semana antes da Páscoa costuma ser emocionalmente mais cara. Em um cenário de preços elevados, planejamento deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma necessidade financeira.”