Resumo da notícia
- A cultivar BRS Áurea, criada pela Embrapa, alia alta produtividade de 25 a 30 toneladas por hectare, resistência a doenças como entomosporiose e menor suscetibilidade à mosca-das-frutas.
- Desenvolvida a partir do cruzamento entre pera asiática Hosui e europeia Abate Fetel, a BRS Áurea tem colheita precoce em janeiro, ampliando a janela de comercialização no Sul do Brasil.
- Os frutos apresentam casca amarelo-dourada, polpa branca crocante e sabor equilibrado, sendo recomendada para regiões com 400 a 600 horas de frio abaixo de 7,2°C no inverno.
O setor produtivo brasileiro ganha uma nova opção genética para o cultivo de peras. A Embrapa Uva e Vinho, unidade sediada no Rio Grande do Sul, desenvolveu a cultivar BRS Áurea, que reúne adaptação ao clima do Sul do país, alta produtividade e boa qualidade de frutos. Trata-se da primeira pera criada pelo programa de melhoramento genético da instituição gaúcha.

Pesquisadores obtiveram a BRS Áurea a partir do cruzamento entre a pera asiática Hosui e a europeia Abate Fetel, realizado em 2006, em Vacaria (RS). Ao longo de cerca de 20 anos, a equipe conduziu etapas de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) registrou oficialmente a cultivar no Registro Nacional de Cultivares (RNC) em maio de 2025.
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A Embrapa apresentará a nova cultivar durante a 49ª Expointer, que ocorre entre 29 de agosto e 6 de setembro, no Parque Assis Brasil, em Esteio (RS).
Alta produtividade e resistência a doenças
Nos testes conduzidos no Sul do Brasil, a BRS Áurea atingiu produtividade entre 25 e 30 toneladas por hectare, com colheita precoce concentrada em janeiro. A cultivar também demonstrou resistência à entomosporiose, uma das doenças mais destrutivas da cultura, e menor suscetibilidade à mosca-das-frutas quando comparada à pera Rocha, variedade portuguesa amplamente comercializada no país.
Para o consumidor, a cultivar oferece frutos médios a grandes e uniformes, com massa entre 145 e 190 gramas. Durante a maturação, a casca ganha tons de amarelo-alaranjado a dourado, característica que deu origem ao nome Áurea. Por dentro, a polpa se destaca pela cor branca, textura crocante e suculenta, além do sabor equilibrado.

O pesquisador João Caetano Fioravanço, da Embrapa Uva e Vinho, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cultivar, resume o trabalho de longo prazo por trás do lançamento. “A BRS Áurea reúne boa adaptação às condições do Sul do Brasil, potencial produtivo e frutos de excelente qualidade. Esses atributos são importantes para estimular a produção brasileira de peras”, avalia.
Equipes testaram e validaram a cultivar nos municípios gaúchos de Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul. A Embrapa recomenda a BRS Áurea para regiões que registram entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2°C durante o inverno.
Pera nacional aposta na colheita antecipada
A precocidade de maturação marca uma das principais vantagens da cultivar. Nas condições avaliadas, a colheita concentra-se entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo de aproximadamente 106 dias entre a plena floração e a maturação. Essa antecipação amplia a janela de comercialização das peras produzidas no Brasil.
Em sistemas de alta densidade, com plantas enxertadas sobre o marmeleiro Adams e espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas, a cultivar chega a produzir entre 25 e 30 toneladas por hectare.
Essa combinação de época de colheita, produtividade e qualidade amplia as possibilidades de uso comercial da BRS Áurea. Para uma cadeia produtiva que ainda depende de importações para suprir parcela significativa do consumo nacional, a disponibilidade de materiais genéticos adaptados ao Brasil representa um fator estratégico.
Boa conservação após a colheita
Além do desempenho no pomar, a BRS Áurea também apresentou resultados favoráveis nos testes de pós-colheita. Em condições experimentais, os frutos mantiveram boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado a 0,5°C, seguidos de 7 dias a 20°C, período em que a polpa perdeu firmeza e a casca ganhou tom mais alaranjado, sem comprometer a qualidade.

A pesquisadora Lucimara Antoniolli, da área de pós-colheita da Embrapa Uva e Vinho, destaca o papel dessa característica para o mercado. “A BRS Áurea apresenta propriedades muito interessantes para o mercado de frutas frescas pelo bom potencial de conservação pós-colheita, aspecto importante para ampliar o período de comercialização e facilitar a distribuição da fruta”, enfatiza.
Testes em atmosfera controlada indicaram potencial para armazenamento ainda mais longo: frutos guardados por até 165 dias a 0,5°C mantiveram maior firmeza após a retirada da câmara fria. Por outro lado, a fragilidade dos frutos exige cuidados redobrados durante colheita e transporte, já que impactos podem causar danos. Por esse motivo, a Embrapa recomenda atenção especial ao manuseio, à classificação, à embalagem e ao transporte.
Cultivar reduz infestação de mosca-das-frutas
A BRS Áurea também se destacou em testes fitossanitários. Nas condições avaliadas, a cultivar mostrou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, doença fúngica que ataca folhas e frutos. Além de menor suscetibilidade à mosca-das-frutas na comparação com a cultivar Rocha.
Em experimentos com infestação natural, a pera Rocha registrou 70% de frutos infestados, contra apenas 10% na BRS Áurea. Em outro teste, no qual pesquisadores expuseram os frutos diretamente aos insetos, sem alternativa de escolha, a BRS Áurea também levou vantagem: 40% de infestação, ante 100% na Rocha.
O pesquisador Marcos Botton, também da Embrapa Uva e Vinho, avalia que essa característica interessa diretamente ao sistema produtivo. “A menor infestação observada na BRS Áurea é uma característica bastante interessante, principalmente considerando a importância da mosca-das-frutas para a fruticultura do Sul do Brasil. Isso não significa que o produtor possa deixar de monitorar e manejar a praga, mas indica uma característica favorável da cultivar que pode contribuir para o sistema de produção”, pontua.
Nova cultivar mira ampliação da produção nacional
A produção brasileira de peras ainda não atende à demanda interna, e a falta de cultivares adaptadas às diferentes regiões produtoras segue como um dos principais desafios do setor. A irregularidade da produção e a variação na qualidade dos frutos também limitam a competitividade da fruticultura nacional.

Nesse cenário, a BRS Áurea surge como alternativa genética validada nas condições brasileiras. A expectativa da Embrapa é que a cultivar ajude a diversificar os pomares e expanda as possibilidades de produção de pera no Sul do país.
O produtor Fernando Soldatelli, que participou da validação da cultivar, resume sua experiência com entusiasmo. “De todas as diferentes cultivares de pera que já plantei, acredito que a BRS Áurea é a que apresenta maior potencial para a produção competitiva”, avalia. Para ele, a nova pera reúne os atributos que o mercado exige: “Além de produzir bem, é bonita, suculenta e gostosa. Tudo o que precisamos”, salienta.
Como reservar mudas da BRS Áurea
Produtores interessados podem reservar mudas da BRS Áurea no Viveiro São Francisco, único licenciado pela Embrapa até o momento. Viveiristas que desejam obter licenciamento para comercializar a cultivar devem solicitar material propagativo à Embrapa Uva e Vinho pelo e-mail [email protected].
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As reservas ficam abertas ao longo do ano. Mas a entrega das mudas ocorre apenas na segunda quinzena de julho do ano seguinte, conforme a disponibilidade de material.
Quase 20 anos até o registro oficial
O projeto da BRS Áurea começou em 2006, com o cruzamento entre as peras Hosui e Abate Fetel, em Vacaria (RS). A partir de 2015, o material selecionado passou por novas etapas de avaliação. E no ano seguinte, a equipe implantou o material em áreas experimentais da Embrapa em Bento Gonçalves e Vacaria para analisar fenologia, produção, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita.
Em 2021, pesquisadores estabeleceram duas unidades de validação em parceria com produtores, em Vacaria e Caxias do Sul, conduzindo as plantas sobre o marmeleiro Adams, com espaçamento de 4 metros entre filas e 1 metro entre plantas.
O Registro Nacional de Cultivares (RNC) formalizou o cadastro da BRS Áurea em 26 de maio de 2025, sob o número 59.655. Em seguida, a Embrapa solicitou a proteção da cultivar junto ao Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC).
A equipe responsável pelo desenvolvimento da cultivar reúne os pesquisadores e analistas João Caetano Fioravanço, Lucimara Rogéria Antoniolli, Silvio André Meirelles Alves, Marcos Botton, Luis Fernando Revers e Daniel Santos Grohs, além do pesquisador aposentado Paulo Ricardo Dias de Oliveira, todos da Embrapa Uva e Vinho.