De 15 para quase 23 litros por vaca ao dia: como boas práticas de manejo transformaram a rotina de uma pequena fazenda leiteira mineira
vaca leiteira

Todos os dias, antes do sol nascer sobre as pastagens da Fazenda Córrego do Monjolo, em Açucena, na região Leste de Minas Gerais, Melquisedeque Alves de Oliveira e a esposa, Rosemary Gonçalves, preparam o gado para a primeira ordenha do dia. O casal repete o processo à tarde e mantém, hoje, uma das produções leiteiras mais eficientes da região: nove vacas em lactação geram cerca de 250 litros diários, uma média de 27,7 litros por animal. Um patamar que costuma ser considerado excelente até em fazendas de grande porte.

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Foto: Arquivo Pessoal

O resultado não veio por acaso. Melqui cresceu na mesma propriedade onde vive atualmente e viu o pai conduzir o trabalho de forma tradicional, sem o uso de técnicas de manejo. Ao assumir sua parte da fazenda, em 1998, decidiu seguir outro caminho. “Tinha em mente que precisava de planejamento e de metas para produzir mais e melhor”, afirma.

O desafio era grande: apenas 11 hectares produtivos, em um terreno montanhoso, deixavam pouca margem para erros. Ao lado de Rosemary, que também cresceu no campo, o produtor toca a atividade e cuida de um rebanho de 33 cabeças há nove anos. “Ela gosta mais da produção de leite do que eu”, brinca Melqui. “Digo que sigo ainda mais firme na atividade porque vejo o quanto ela ama isso.”

Genética, manejo e gestão elevam a produtividade

Melqui investiu em cursos e capacitações para melhorar continuamente a atividade e apostou primeiro no melhoramento genético do rebanho. Em 2020, a Cooperativa dos Produtores Rurais de Virginópolis (Cooprovi) selecionou o produtor para participar do Sebraetec FIV, programa do Sebrae Minas que amplia o acesso de pequenos produtores à tecnologia de fertilização in vitro. “Ver os primeiros animais resultantes do programa crescerem e produzirem foi uma satisfação muito grande”, relata.

Faltava, porém, um método consistente de trabalho. Em 2021, o analista do Sebrae Minas Claudinei Gomes indicou a Melqui o Educampo Leite, programa que oferece assistência técnica e gerencial com foco em indicadores de produção. A partir daí, o casal retirou o gado do pasto e adotou o regime semiconfinado, com fornecimento de silagem de milho 24 horas por dia. “Em poucos dias, observamos o resultado”, conta.

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Média

A mudança fez a média de produção por vaca saltar de 15 para 20 litros diários logo nas primeiras semanas. Em 2025, o indicador se consolidou em 22,96 litros por vaca ao dia. Ou seja, acima da média de 18,49 litros registrada pelo grupo acompanhado pelo Educampo. A fazenda também bateu recorde de produção: 403 litros de leite por dia e 147.363 litros ao longo do ano, o equivalente a 13.362 litros por hectare. O número supera em mais do dobro a média do grupo, de 4.682 litros por hectare ao ano, e fica quase três vezes acima da referência de mercado, de 5 mil litros por hectare ao ano.

Em picos de lactação, alguns animais chegam a produzir 52 quilos de leite, o equivalente a cerca de 50 litros por dia. O desempenho rendeu ao casal o primeiro lugar em três categorias no último torneio do grupo Educampo: produção por área, taxa de lotação (1,59 vaca por hectare, contra média de 0,63 do grupo) e teor de gordura no leite (3,98%). Os resultados chamam ainda mais atenção porque a fazenda enfrenta condições de terreno que encarecem a produção de silagem. O composto para alimentação do gado consome 26,5% da renda bruta da propriedade.

Trabalho em família e atenção individual ao rebanho

Na Fazenda Córrego do Monjolo, cada vaca recebe acompanhamento individual. A equipe monitora nutrição, saúde, conforto e ciclo reprodutivo dos animais 24 horas por dia. Melqui e Rosemary dividem o manejo diário com a irmã dela e o cunhado, donos da propriedade vizinha, além da mãe de Rosemary e do sobrinho do casal, que sonha em cursar Medicina Veterinária.

Para Melqui, o maior aprendizado do processo não veio de planilhas ou indicadores, mas de uma constatação prática que o Educampo reforça no dia a dia: o animal bem cuidado produz mais, adoece menos e vive mais. “Tudo o que fazemos em termos de manejo e cuidado volta em forma de resultado. O animal responde”, diz.

O programa também deu ao produtor ferramentas para planejar os próximos investimentos do negócio. Em 2025, Melqui reinvestiu cerca de 22% da renda bruta na propriedade, distribuídos entre mecanização (45,7%), benfeitorias (35,3%) e genética e rebanho (19%). A fazenda já conta com sete animais provenientes do Sebraetec FIV, cinco Girolando meio-sangue e dois Holandês Puro de Origem. E o produtor planeja ampliar gradualmente o rebanho para 60 cabeças da raça Holandesa, mais adaptável ao clima e ao relevo da região.

Próximos passos miram produção de mil litros por dia

Os planos futuros incluem a construção de um galpão com capacidade para até 30 animais em lactação, com sistema Compost Barn, autossuficiência na produção do composto de alimentação e fosso de ordenha equipado com resfriador. “A meta é chegar a mil litros de leite por dia. Como 2023 e 2024 foram muito bons, iniciamos a terraplanagem do galpão. Mas este ano resolvemos rentabilizar para retomar o projeto com recursos da própria fazenda, evitando a tomada de crédito”, explica Melqui.

Nessa trajetória, a Cooprovi teve papel central. Há seis anos, quando laticínios encerravam operações na região, a cooperativa iniciou suas atividades e cresceu junto com os produtores locais, ampliando a captação de 400 para cerca de 4 mil litros de leite por dia. “Se não fosse a Cooprovi, hoje não existiríamos mais aqui”, resume o produtor. Para o novo ciclo de melhorias, ele aposta no lançamento do programa Qualidade do Leite, do Sebrae Minas.

Dados da fazenda podem beneficiar toda a cadeia produtiva

Os resultados obtidos pelo Educampo Leite na Fazenda Córrego do Monjolo devem contribuir para o aprimoramento das boas práticas na produção leiteira em todo o estado. Um acordo de cooperação firmado recentemente entre o Sebrae Minas e a Embrapa Gado de Leite prevê a análise estruturada dos dados coletados pelo programa. “O Educampo tem um acompanhamento muito próximo, que ajuda a desenvolver a nossa competitividade e atrair mercado. Hoje temos metas, acompanhamento e direção”, afirma Melqui.

O acordo tem foco no fortalecimento da cadeia produtiva do leite em Minas Gerais e vai usar os registros do Educampo como referência para o desenvolvimento de painéis e ferramentas digitais. Essas ferramentas devem identificar tendências de mercado, oportunidades de melhoria e indicadores estratégicos para a gestão de fazendas leiteiras. Na prática, os resultados conquistados pelo casal poderão embasar diagnósticos mais precisos sobre a pecuária leiteira mineira, gerando conhecimento útil para produtores, técnicos e agentes do setor em todo o estado.