Área de Proteção Ambiental mais distante do Brasil se recupera naturalmente três décadas após extermínio de espécies exóticas que devastaram ecossistema único
Foto: Reprodução Pesquisadores

A Ilha da Trindade, localizada a 1.160 quilômetros da costa do Espírito Santo, vive um processo extraordinário de regeneração ambiental. Após quase três séculos de devastação causada por cabras introduzidas na região, o ecossistema insular demonstra notável resiliência, com expansão de 1.468% da cobertura florestal em apenas três décadas.

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Foto: Marinha do Brasil

Estudos conduzidos pelo Museu Nacional da UFRJ revelam que a vegetação nativa está se recuperando sem intervenção humana desde 2005, quando os últimos animais invasores foram eliminados. A pesquisadora Márcia Gonçalves, do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana, integrou a equipe de monitoramento em 2023 e acompanha de perto a transformação da paisagem.

O monitoramento sistemático iniciado em 2014 documentou a evolução de áreas que haviam se tornado verdadeiros desertos de pedras. Utilizando sensoriamento remoto e comparação de imagens históricas, os cientistas mapearam o ressurgimento gradual da flora endêmica.

A cobertura florestal passou de menos de 5% para aproximadamente 15% da área original, representando 65 hectares recuperados. A vegetação rasteira apresentou crescimento ainda mais expressivo, expandindo-se em 325 hectares, um aumento de 319%.

Espécies endêmicas escapam da extinção

O impacto das cabras foi devastador para a biodiversidade única da ilha. Algumas espécies vegetais que existem apenas em Trindade foram reduzidas a menos de dez indivíduos. Atualmente, essas mesmas espécies já contam com populações de aproximadamente cem exemplares, segundo os pesquisadores.

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As áreas verdes sobreviventes se concentravam apenas nos pontos mais elevados e inacessíveis da ilha, como a floresta de samambaias gigantes, onde os animais invasores tinham dificuldade de chegar.

Publicação científica documenta transformação

Os resultados dessa pesquisa foram publicados em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science. O estudo, que conta com participação de Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves e Nílber Gonçalves da Silva, além de Márcia Gonçalves, recebeu o título que traduz o fenômeno observado: da perturbação à recuperação ambiental.

A equipe pretende continuar o monitoramento e fazer projeções para a cobertura vegetal até 2125, permitindo compreender melhor a dinâmica de regeneração em ambientes insulares isolados.

Legado histórico de devastação ambiental

A introdução das cabras em Trindade remonta ao ano de 1700, quando o astrônomo Edmond Halley, conhecido pela descoberta do cometa que leva seu nome, deixou os animais na ilha durante viagem à Ilha de Santa Helena. O objetivo era garantir fonte de alimento para possíveis náufragos, conforme explica Paulo Câmara, professor do Departamento de Botânica da UnB.

A estratégia, comum na época das grandes navegações, revelou-se desastrosa para o frágil ecossistema insular. As cabras consomem praticamente todas as partes das plantas, incluindo raízes, sementes e frutos, além de causar danos pelo pisoteio constante.

Erradicação levou décadas para ser concluída

Especialistas estimam que a população de cabras chegou a 800 indivíduos, além de centenas de ovelhas, burros e outros animais domésticos. Ruy Valka Alves, professor do Museu Nacional, participou das primeiras iniciativas de erradicação e alertou as autoridades sobre o risco de esgotamento dos recursos hídricos da ilha.

As tentativas de remoção começaram em 1957, mas o relevo acidentado dificultava o acesso a diversas áreas. Em 2002, as equipes eliminaram apenas 200 dos 800 animais estimados. Somente em 2005, mais de três décadas após o início do projeto, elas removeram definitivamente os últimos caprinos.

Transformação visível da paisagem

A recuperação ambiental trouxe mudanças marcantes para Trindade. Uma cachoeira mencionada em registros históricos de 1600 voltou a aparecer após séculos desaparecida, evidenciando a restauração do ciclo hidrológico local.

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Mesmo com as transformações já observadas, a ilha ainda possui longo caminho pela frente. Antes da chegada de Halley, pesquisadores estimam que a floresta cobria 85% da área total. Atualmente, mesmo após o crescimento expressivo, a vegetação cobre cerca de 15% do território.

O caso de Trindade ilustra os riscos das espécies exóticas para ecossistemas isolados. A capacidade de regeneração natural demonstrada pela ilha surpreende especialistas, considerando que ambientes insulares são particularmente sensíveis a perturbações.

A pesquisadora Márcia Gonçalves enfatiza que o caso evidencia a necessidade de atenção redobrada com a introdução de espécies não nativas, reconhecidas como grandes causadoras de desequilíbrio ecológico.

Acesso restrito e preservação

A Ilha da Trindade é uma Área de Proteção Ambiental com acesso controlado pela Marinha do Brasil. O local abriga até 46 pessoas, entre militares e pesquisadores, que permanecem em turnos de até quatro meses. A viagem desde o continente leva quatro dias em embarcação da Marinha.

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Foto: Marinha do Brasil

O arquipélago formado por Trindade e Martin Vaz representa o ponto mais distante do litoral brasileiro, integrando a cadeia de montes submarinos vulcânicos Vitória-Trindade. A região abriga biodiversidade única, com diversas espécies endêmicas encontradas exclusivamente naquele ecossistema.