Resumo da notícia
- A importação de matérias-primas para fertilizantes caiu 8,6% no 1º semestre de 2026, com quedas expressivas em ureia, MAP, nitrato de amônio e enxofre, refletindo cautela de produtores e importadores.
- O Brasil depende de mais de 85% dos fertilizantes importados, impactando diretamente os custos de produção, que chegam a quase 47% do custeio da soja em Mato Grosso na safra 2026/27.
- O Ministério da Agricultura aposta em fortalecer a produção nacional, com meta de atender 50% da demanda até 2050, enquanto fertilizantes líquidos e foliares ganham espaço e movimentaram R$ 26,9 bi em 2024.
A importação de matérias-primas para fertilizantes recuou 8,6% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Isso segundo levantamento da StoneX. O movimento interrompe o ritmo elevado de compras externas registrado em 2025, quando o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A retração atingiu insumos estratégicos para a nutrição das lavouras. As compras de ureia caíram 32%, enquanto o MAP (fosfato monoamônico) recuou 24%. O nitrato de amônio e o enxofre registraram quedas ainda mais intensas, de 42% cada. Em sentido oposto, o cloreto de potássio e o TSP avançaram, impulsionados pela migração da demanda diante da oferta restrita de MAP e DAP no mercado internacional.
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A StoneX atribui o recuo à postura mais cautelosa de produtores e importadores. Incertezas no cenário global e relações de troca entre as mais desfavoráveis dos últimos anos levaram ao adiamento de negociações. Ao mesmo tempo, a janela logística se estreita. Tradicionalmente, as compras de fosfatados se concentram entre abril e agosto, para garantir abastecimento na safra de verão, enquanto os nitrogenados ganham força entre junho e dezembro, com foco na segunda safra.
Fragilidade estrutural
O cenário reforça uma fragilidade estrutural do agronegócio brasileiro. O país importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), e lidera o ranking global de importações do insumo. Esse nível de dependência pesa diretamente nos custos de produção. Os fertilizantes representaram, em média, 23% do custo total das culturas de soja, milho e algodão, segundo a Conab. Em Mato Grosso, principal produtor de soja, o insumo responde por 46,7% do custeio da oleaginosa na safra 2026/27, conforme o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
Apesar dos desafios, o momento abre uma janela estratégica para o fortalecimento da indústria nacional. O Ministério da Agricultura projeta que a produção doméstica poderá atender cerca de 50% da demanda interna até 2050, com iniciativas como a reativação de fábricas de nitrogenados. No curto prazo, fertilizantes líquidos, foliares e soluções para fertirrigação já ganham espaço. O segmento movimentou R$ 26,9 bilhões em 2024, alta de 18,9%, segundo a Abisolo, com destaque para o avanço de 23,2% nos foliares e de 36,1% nos produtos voltados à fertirrigação e hidroponia.
Momento decisivo
Para Leonardo Sodré, CEO da GIROAgro, o setor vive um momento decisivo. “O agronegócio brasileiro enfrenta um ano de elevada complexidade, com adversidades climáticas, custos em alta e mercado volátil. Mas também com oportunidades estratégicas capazes de reposicionar o produtor no centro da economia global”, afirma. Segundo ele, planejamento e gestão eficiente serão essenciais para transformar riscos em vantagem competitiva.
No campo da produção nacional, Minas Gerais concentra cerca de 70% das reservas brasileiras de potássio. O estado abriga a principal mina em operação, em São Gotardo. A capacidade atual gira em torno de 3 milhões de toneladas por ano. Mas projetos de expansão preveem alcançar 23 milhões e, posteriormente, 50 milhões de toneladas anuais, volume próximo ao consumo total do país, estimado em cerca de 60 milhões de toneladas.
O especialista em fertilizantes Fellipe Parreira, também da GIROAgro, defende uma estratégia integrada para reduzir a vulnerabilidade externa. “O Brasil precisa ampliar o aproveitamento de jazidas nacionais e investir em validação científica para mitigar riscos geopolíticos sem comprometer a produtividade”, diz. Segundo ele, o crescimento consistente da indústria de nutrição vegetal no país já oferece alternativas com menor exposição cambial e maior previsibilidade logística.









