Especialistas da Fiesp e do Senai apresentam na Expobor 2026 estratégias para superar o Custo Brasil
seringueira com latex no corte pra extrair borracha
Foto: Wenderson Araujo/CNA

A indústria brasileira de artefatos de borracha chegou à Expobor 2026 com o diagnóstico concluído. O próximo passo, e o mais urgente, é transformar análise em ação. O recado veio de Albino Fernando Calantuono, especialista em Competitividade e Tecnologia da Fiesp, durante palestra na Arena do Conhecimento do evento, realizado de 23 a 25 de junho no Expo Center Norte, em São Paulo. A feira é a principal vitrine da indústria de artefatos de borracha na América Latina e aconteceu em paralelo à Pneushow 2026, maior evento dedicado ao mercado de reforma de pneus no continente.

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O cenário que Calantuono apresentou não é simples: 43% de penetração de produtos importados no mercado nacional, Custo Brasil elevado, ausência de política industrial de longo prazo e concorrência crescente de materiais substitutos, especialmente os plásticos. Mas o especialista foi além do diagnóstico e apontou saídas.

China no quintal, Brasil na 30ª posição

Os dados do estudo da Fiesp revelam a magnitude do desafio competitivo. A China lidera praticamente todas as categorias de produtos de borracha que o Brasil comercializa e detém 18,4% das exportações globais do setor. O Brasil, por sua vez, ocupa a 30ª posição no ranking mundial, com apenas 0,7% de participação nas exportações.

“A China está praticamente no quintal do Brasil quando observamos o mercado latino-americano. Ela lidera em escala, competitividade e capacidade produtiva. Mas isso não significa que o Brasil não tenha espaço. Temos condições de ampliar nossa presença internacional e transformar a América Latina em um grande mercado para os produtos brasileiros”, afirmou Calantuono.

Albino Fernando Calantuono (Fiesp) avalia que indústria brasileira de artefatos de borracha já conhece seus principais desafios e oportunidades.
Foto: WTF/Divulgação

O setor automotivo absorve 18,4% dos produtos de borracha fabricados no país, e a cadeia produtiva conta majoritariamente com pequenas e médias empresas. Isso que torna ainda mais sensível a pressão dos importados chineses, que competem não só pelo preço, mas também por qualidade, disponibilidade e prazo de entrega.

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Heveicultura aquece o campo enquanto indústria busca reposicionamento

O debate sobre a competitividade da indústria não acontece no vácuo. O agronegócio da borracha natural, a heveicultura, atravessa um momento de dupla tensão: expansão produtiva e crise de preços, com sinais recentes de recuperação.

Segundo dados do IBGE, a produção brasileira de borracha natural somou 463 mil toneladas em 2023, distribuídas entre São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Tocantins e Pará. O estado de São Paulo responde por cerca de 65% desse volume, com polo central na região de São José do Rio Preto.

A área cultivada com seringueiras no país ultrapassa 193 mil hectares, aproximadamente 90 mil deles somente em São Paulo. Mesmo assim, o Brasil importa metade da borracha natural que consome. A dependência externa é um fator que fragiliza toda a cadeia, da plantation à fábrica.

Os dois últimos anos foram de perdas. Com preços médios de R$ 3,10 por quilo em 2023 e R$ 3,05 em 2024, produtores paulistas operaram no vermelho: o custo operacional chegava a R$ 5,00 por quilo. O resultado foi queda de 11,2% na área de produção em São Paulo e abandono da atividade por parcela significativa dos seringueiros, ofício que exige precisão técnica, já que o corte da casca da árvore precisa respeitar milímetros para não danificar a planta.

O cenário começou a mudar em 2025. Os preços saltaram para R$ 6,65 por quilo em fevereiro, segundo levantamento do Instituto de Economia Agrícola (IEA), valorização de 118% sobre o ano anterior. “Pela primeira vez em anos, há perspectiva de lucro”, disse à imprensa o produtor Fábio Magrini, ligado a uma família com longa tradição na heveicultura paulista.

A safra 2024/2025 do estado deve alcançar 266 mil toneladas, estimativa 8,8% superior à temporada anterior, conforme projeção do IEA. Embora produtores alertem para riscos climáticos e escassez de mão de obra.

Seringueira como ativo ambiental e social

Além do látex, a seringueira carrega atributos que ganham valor no contexto da agenda ESG. Estudos da Embrapa e da Epamig indicam que um hectare de seringal sequestra aproximadamente 85 toneladas de carbono por ano. Um dado relevante para empresas que precisam cumprir escopos de emissões.

Na Amazônia, a cadeia extrativista de borracha nativa também avança. O projeto “Juntos pela Amazônia — Revitalização da Cadeia Extrativista da Borracha” apoia seringueiros no Amazonas, Rondônia e Acre. Só na safra 2024/2025, a iniciativa beneficiou cerca de 600 famílias em municípios amazonenses, gerando R$ 2,2 milhões com quase 157 toneladas produzidas.

O mercado de borracha natural movimenta aproximadamente R$ 28 bilhões por ano no Brasil, segundo dados de 2022. No plano global, a expectativa é que o setor atinja US$ 22,82 bilhões até 2029, com crescimento anual composto de 4,7%.

Economia circular como diferencial competitivo

Para Calantuono, o Brasil dispõe de uma oportunidade concreta de reposicionamento: explorar a borracha natural como matéria-prima de menor pegada de carbono, aliada a soluções de maior valor agregado e economia circular. “O reaproveitamento de resíduos, a inovação em materiais e a oferta de soluções customizadas podem se tornar diferenciais competitivos importantes”, disse.

Ele defendeu ainda a criação de instrumentos regulatórios e políticas públicas para fortalecer a competitividade nacional. “A indústria da borracha precisa de uma política tecnológica e industrial consistente para se modernizar e competir em igualdade de condições com o mercado internacional. Programas de conformidade, certificação, rastreabilidade e uma regulamentação adequada podem contribuir para valorizar a produção nacional e combater práticas desleais de concorrência”, afirmou.

Senai investe R$ 13 milhões em laboratórios e capacitação

Os investimentos em formação profissional e infraestrutura tecnológica reforçam o recado. O Senai-SP estrutura um laboratório de elastômeros no Distrito Tecnológico de São Bernardo do Campo com 14 equipamentos de ponta, previsão de operação em 2027 e investimento de R$ 10 milhões. A meta é atender demandas de P&D em pneus, setor automotivo, construção civil, aeroespacial, saúde e calçados.

Outros R$ 3 milhões entram em circuito pelo programa de capacitação de profissionais em borracha da Escola Senai Almirante Tamandaré, com 14 cursos entre 12 e 100 horas, em formatos presencial, in-company e, em breve, EAD.

No Rio Grande do Sul, o Instituto Senai de Inovação em Engenharia de Polímeros trabalha para ampliar a participação da borracha em seu portfólio. Hoje apenas 15% dos 29 projetos em andamento envolvem o elastômero.

Novos sistemas de cura e negro de carbono sustentável

A Arena do Conhecimento também abrigou apresentações de inovações técnicas. Jason Silva, gerente da Retilox, apresentou sistemas de cura com peróxidos atóxicos que produzem artefatos e rebarbas 100% recicláveis após a cura, com baixo índice de Compostos Orgânicos Voláteis (VOC) e redução geral dos custos de produção.

Guilhermo Spangenberg, da Cabot Corporation, apresentou o CGX 1000, solução que incorpora até 30% de carbono recuperado no padrão N300, novo grau de negro de fumo que ajuda empresas a cumprirem os escopos 1, 2 e 3 do Protocolo GHG. O produto já está disponível ao mercado global sob demanda.

Empresas que ignoram o mercado perdem clientes sem perceber

O encerramento da programação ficou por conta de Sérgio Luís Patzlaff, CEO da STG Consultoria Empresarial, que trouxe uma provocação direta ao modelo de gestão de parte das empresas do setor: a tendência de olhar para dentro quando a pressão financeira aumenta e deixar de enxergar o cliente.

“A empresa não está perdendo cliente: está desistindo de vê-los. Por isso, a reconexão começa dentro da empresa, não com o cliente”, alertou. “O cliente importante é o que está em risco, pois o que já perdeu, já perdeu”, completou.

A Expobor e a Pneushow 2026 reuniram, portanto, os dois lados de uma mesma equação: um agronegócio da seringueira em recuperação, com capacidade de oferecer matéria-prima mais sustentável, e uma indústria de transformação que tem o diagnóstico na mesa e precisa, agora, colocar em prática.