Resumo da notícia
- Pequenos produtores do semiárido baiano criaram a Apaeb para superar a falta de acesso a financiamentos e fortalecer a cadeia produtiva do sisal, principal atividade econômica da região.
- A Apaeb implantou em 1983 uma batedeira comunitária e, sem bancos, criou a Poupança Apaeb, uma poupança coletiva que financiou a compra e exportação do sisal pelos próprios agricultores.
- Com cerca de US$ 150 mil acumulados, a associação passou a exportar sisal diretamente, transformando a economia local e dando mais autonomia e valorização aos produtores familiares.
Em uma época em que pequenos produtores rurais do semiárido baiano sequer conseguiam entrar em um banco para pedir financiamento, um grupo de agricultores decidiu criar o próprio caminho para sobreviver da terra. A solução encontrada no sertão da Bahia nasceu da união comunitária, da confiança entre vizinhos e de pequenas economias guardadas de forma coletiva. Mais de quatro décadas depois, aquela iniciativa se transformou em uma das maiores referências brasileiras em cooperativismo, agricultura familiar e industrialização do sisal.
A história da Apaeb (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), em Valente, no interior da Bahia, atravessa gerações e ajuda a explicar como o cooperativismo alterou a dinâmica econômica de dezenas de cidades do semiárido.
Tudo começou em julho de 1980, quando agricultores e lideranças locais passaram a discutir alternativas para fortalecer a cadeia do sisal, principal atividade econômica da região sisaleira baiana, formada por quase 40 municípios. Naquele período, o produtor rural plantava, colhia e desfibrava o sisal, mas o lucro maior ficava nas mãos de atravessadores e exportadores.

“A ideia era comprar o sisal, beneficiar e exportar agregando valor, melhorando a receita de quem produz”, relembrou Ismael Ferreira de Oliveira, assessor e um dos fundadores da Apaeb.
Primeira batedeira comunitária
O projeto parecia ousado demais para a realidade local. Ainda assim, em 1983, a associação implantou uma batedeira comunitária para beneficiar a fibra. O problema seguinte era ainda maior: faltava dinheiro para comprar o sisal dos agricultores e colocar o produto no mercado.
“Naquela época a gente não conseguia nem entrar em um banco, imagina falar com gerente ou conseguir financiamento”, afirmou Ismael.
Sem acesso ao sistema financeiro tradicional, a saída encontrada foi criar um modelo comunitário de captação de recursos. No fim dos anos 1980, nasceu a chamada Poupança Apaeb, iniciativa que estimulava moradores da região a depositarem qualquer quantia disponível, mesmo em um período marcado pela hiperinflação no Brasil.
“O que sobrava de dinheiro, de um real a cem reais, era depositado na Apaeb”, disse.
Dinheiro guardado pela comunidade financiou exportações
Enquanto os bancos ignoravam pequenos agricultores e trabalhadores rurais, a população da região começou a financiar o próprio desenvolvimento. Alguns desconfiaram da proposta. Outros acreditaram.
Anos depois, a associação havia acumulado cerca de US$ 150 mil com o sistema de poupança comunitária. Foi esse recurso que permitiu à Apaeb iniciar a exportação do sisal diretamente para o mercado internacional.
O movimento transformou não apenas a economia local, mas também a relação dos produtores com o próprio trabalho. Pela primeira vez, agricultores familiares passaram a participar de uma estrutura organizada de comercialização.
“Os produtores tinham o sisal no campo e não tinham para onde comercializar”, explicou o diretor-presidente da Apaeb, Jario Ferreira de Santana. “Com a batedeira comunitária eles colocavam o sisal, mas quem exportava era outra pessoa.”

O avanço da experiência comunitária, porém, também trouxe problemas. Em 1993, bancos denunciaram a Apaeb por captação considerada irregular. A crise acabou provocando uma virada decisiva na história da entidade.
Após conhecer experiências cooperativistas no Sul do País, Ismael voltou ao sertão baiano decidido a estruturar uma cooperativa de crédito. Em março daquele ano nasceu a Coopere (Cooperativa Valentense de Crédito Rural LTDA), responsável por legalizar a captação financeira e ampliar o acesso ao crédito para os produtores.
“Todo recurso passou a ser captado pela Coopere de forma legal. A cooperativa passou a emprestar dinheiro para a Apaeb”, destacou.
A experiência evoluiu ao longo dos anos e deu origem ao Sicoob Coopere, hoje consolidado na região como uma das principais ferramentas de financiamento para pequenos produtores rurais.
Da fibra bruta aos tapetes exportados para o mundo
O cooperativismo permitiu mais do que acesso ao crédito. Ele abriu espaço para a industrialização da produção sisaleira dentro do próprio semiárido.
Em 1996, a Apaeb inaugurou a fábrica de carpetes e tapetes de sisal. A mudança alterou completamente o posicionamento da associação no mercado.
“Foi quando surgiu a ideia de construir a fábrica para manipular os produtos e ter capacidade de exportação”, afirmou Jario.

Atualmente, a entidade exporta para cerca de 25 países, especialmente Estados Unidos e China. Parte da produção também abastece o mercado brasileiro, com produtos industrializados como fios, cordas, tapetes e telas.
Entre 65% e 70% da produção segue para o exterior. Já no Brasil, a comercialização se concentra em produtos beneficiados e de maior valor agregado.
A estrutura construída ao longo de décadas também movimenta milhares de empregos no sertão baiano. Hoje, a Apaeb mantém quase 400 funcionários diretos. Quando considerada toda a cadeia produtiva, o impacto chega a mais de 2 mil famílias.

“Cada emprego que a gente gera na fábrica exige até oito pessoas trabalhando no campo”, explicou o presidente da associação.
A Apaeb compra semanalmente entre 700 e 800 toneladas de sisal. Em 2025, a média de faturamento ficou em torno de R$ 70 milhões.
“O cooperativismo veio para perto do pequeno produtor”
Na cidade de Retirolândia, também na região sisaleira, o produtor rural Gabriel Cassiano Reis, mais conhecido como Cassiano, representa a continuidade dessa história iniciada décadas atrás.
Filho de agricultores, ele cresceu trabalhando na roça, produzindo sisal e convivendo diretamente com as dificuldades do semiárido.
“Eu nasci na fazenda, em uma pequena propriedade rural, ao lado de meu pai e aprendi com a lida”, contou.
Além da produção de sisal, Gabriel cria caprinos e ovinos. Também atua na logística da cadeia produtiva, reunindo a fibra produzida por parentes e vizinhos para transportar até a indústria.

“O sisal foi o pontapé inicial de tudo. Cerca de 70% do que gira aqui é através do sisal, principalmente dos pequenos produtores”, afirmou.
Segundo ele, a chegada da cooperativa alterou completamente a relação dos agricultores com o crédito rural.
“Antes era preciso ir até Feira de Santana para conseguir crédito. Com a cooperativa fundada pelos pequenos produtores, foi surgindo acesso, incentivo e facilidade”, destacou.
Cassiano afirma que o modelo cooperativista fortaleceu a permanência das famílias no campo e aproximou os serviços financeiros da realidade rural.
“A visita do técnico, do gerente e a participação nas decisões fizeram diferença para a gente”, disse.
Resistência do sisal ajuda a enfrentar seca e calor
Em meio às mudanças climáticas e ao aumento das temperaturas no semiárido, produtores também passaram a adaptar o cultivo do agave, conhecido como “ouro verde do Nordeste”.
O produtor conta que decidiu manter mais árvores dentro da propriedade para reduzir os impactos da estiagem.
“Hoje tenho cerca de 10% de árvores dentro do campo de sisal. Mesmo diminuindo um pouco a produção, os pés próximos das árvores resistem mais ao calor”, explicou.
Originária do México, a planta chegou ao Brasil por volta da década de 1940 e encontrou no semiárido baiano condições ideais para desenvolvimento. Além da resistência à seca, o sisal também ajuda na preservação do solo.
“O agave auxilia a evitar erosão por causa da quantidade de raízes. Onde tem vários pés juntos, eles não morrem”, afirmou.
Maior produtor mundial de sisal, o Brasil mantém na região sisaleira da Bahia uma das bases econômicas mais importantes da agricultura familiar nordestina. “O cooperativismo é parceiro, amigo e incentivador. Ele gera emprego, renda e desenvolvimento nas pequenas cidades, onde as grandes instituições não chegam”, concluiu Cassiano.