Maior área úmida contínua do planeta, o bioma pantaneiro é parada estratégica para pássaros que percorrem milhares de quilômetros entre o Hemisfério Norte e a Patagônia. E recebe maior conferência da ONU sobre vida selvagem
Foto: Saul Shramm / ASCOM

O Pantanal mato-grossense, maior área úmida contínua do planeta e um dos biomas mais preservados do Brasil, é ponto de parada obrigatório para 190 espécies de aves migratórias. Vindas do Canadá e dos Estados Unidos ou em sentido contrário, partindo da Patagônia, essas aves encontram no bioma alimento, descanso e segurança durante suas longas jornadas continentais.

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É justamente essa relevância ecológica que levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a escolher Campo Grande para sediar a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15). O evento será realizado entre os dias 23 e 29 de março. O evento deve reunir entre 2 mil e 3 mil especialistas de aproximadamente 100 países. A chamada Zona Azul (Blue Zone) funcionará no Expo Bosque, no Shopping Bosque dos Ipês, com atividades paralelas em outros pontos da cidade.

Rota pantaneira: uma parada no coração da América do Sul

Pesquisadores da Embrapa Pantanal identificaram 27 espécies, a maioria maçaricos (família Scolopacidae). Elas cruzam Mato Grosso do Sul durante suas migrações entre o Hemisfério Norte e o extremo sul do continente. Essas aves chegam da Argentina, Chile, Uruguai e do Rio Grande do Sul. E fazem uma escala no Pantanal, que pode durar dias ou semanas e seguem rumo à Colômbia e à Venezuela.

Segundo os pesquisadores Alessandro Pacheco Nunes e Walfrido Moraes Tomas, espécies ligadas a ambientes aquáticos representam 18% da comunidade de aves de Mato Grosso do Sul. E estão concentradas principalmente no bioma pantaneiro e na planície de inundação do alto rio Paraná. O Pantanal abriga, segundo os especialistas, as maiores populações de aves aquáticas continentais do Brasil.

Além das aves, o bioma também é caminho para peixes migratórios como o pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e o dourado (Salminus brasiliensis), que realizam a piracema, a migração sazonal para reprodução. E ainda é lar de uma das maiores populações de onça-pintada (Panthera onca) do mundo. A espécie depende da conectividade de habitats entre países para garantir sua sobrevivência genética.

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COP15: cooperação internacional para proteger espécies em risco

A Conferência das Partes debate medidas de proteção para espécies migratórias ameaçadas de extinção, unindo esforços de todos os países por onde elas transitam. Atualmente, 133 nações são signatárias do Tratado de Proteção às Espécies Migratórias. Um número ainda inferior às 198 partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas, conforme destacou Rita Mesquita, secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O secretário estadual Jaime Verruck, da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), ressalta que preservar habitats conectados é condição essencial para a sobrevivência das espécies em trânsito. “Ao proteger áreas úmidas do Pantanal, assim como remanescentes do Cerrado e da Mata Atlântica, Mato Grosso do Sul contribui diretamente para a segurança das rotas migratórias de aves, mamíferos e peixes que atravessam fronteiras em suas rotas de sobrevivência”, afirmou.

Lei do Pantanal protege salinas, landizais e corredores ecológicos

Com cerca de 150 mil quilômetros quadrados, a planície pantaneira é regulada pela Lei Estadual nº 6.160, de dezembro de 2023, a Lei do Pantanal. A legislação classifica as salinas como Área de Proteção Permanente (APP), incluindo o corpo d’água e uma faixa de 100 metros ao redor. Proprietários rurais são obrigados a manter ao menos 40% da vegetação nativa intacta. Enquanto os landizais, áreas inundáveis com densa cobertura vegetal, têm proteção total, tanto do curso d’água quanto de suas margens.

A lei também prioriza a criação de corredores ecológicos, conectando reservas ambientais e áreas de proteção para favorecer o deslocamento da fauna. Entre as espécies beneficiadas está a onça-pintada, que a convenção da Organização das Nações Unidas passou a reconhecer formalmente como espécie migratória ameaçada de extinção durante a COP14 da Convenção sobre Espécies Migratórias, realizada em 2024.

A bióloga Bruna Oliveira, da Semadesc, explica que, apesar de não realizar migrações sazonais de longa distância como aves ou baleias, a onça-pintada tem populações cujas áreas de vida atravessam fronteiras nacionais de forma regular. “Ela depende da conectividade internacional de habitats para garantir o fluxo gênico da espécie”, detalhou.