Seleção de bovinos resistentes pode reduzir a infestação, os custos com tratamentos e os prejuízos na pecuária
carrapato bovino
Foto: Brito, Cristina/Embrapa

A resistência genética ao carrapato bovino pode ajudar os pecuaristas a reduzir perdas produtivas e gastos com tratamentos químicos. A estratégia também contribui para melhorar a adaptação dos rebanhos às condições ambientais e fortalecer a rentabilidade da atividade. O tema foi apresentado nesta terça-feira (13) pelo médico-veterinário e pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso, durante a 93ª Farm Show de Dom Pedrito, no Parque de Exposições Juventino Corrêa de Moura, no Rio Grande do Sul.

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Na palestra “Genética, a solução duradoura contra o carrapato – gado resistente, menos custo e mais resultado”, Cardoso destacou os impactos sanitários e produtivos provocados pelo parasita. Além disso, apresentou pesquisas que demonstram diferenças significativas de resistência entre os bovinos, inclusive entre animais da mesma raça.

“O carrapato causa anemia, transmite os agentes da tristeza parasitária e ainda favorece infecções secundárias. Com isso, temos redução de ganho de peso, queda na produção de leite, estresse, baixa imunidade, problemas no couro e até mortes”, explicou.

Resistência aos produtos químicos aumenta o desafio

O controle do carrapato enfrenta um obstáculo crescente: a resistência do parasita aos princípios ativos utilizados nos tratamentos. Quando os produtos perdem eficácia, o pecuarista pode encontrar mais dificuldades para controlar as infestações e, consequentemente, acumular prejuízos na propriedade.

Segundo os dados apresentados pelo pesquisador, um levantamento realizado no Rio Grande do Sul em 2024 identificou resistência a quatro ou mais princípios ativos em 98% das populações avaliadas. Além disso, 6% das propriedades pesquisadas já não apresentavam resposta aos produtos químicos disponíveis na época.

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Diante desse cenário, a seleção genética de bovinos resistentes surge como uma alternativa de longo prazo. Ao incorporar essa característica ao melhoramento do rebanho, o produtor pode contribuir para reduzir a suscetibilidade dos animais ao parasita nas gerações seguintes. Ainda assim, a estratégia deve fazer parte de um programa de manejo sanitário, e não substituir automaticamente os tratamentos necessários.

Seleção genética favorece animais mais resistentes

Experimentos conduzidos pela Embrapa demonstraram que bovinos zebuínos apresentam resistência ao carrapato muito superior à dos taurinos. No entanto, os pesquisadores também identificaram diferenças genéticas importantes dentro das próprias raças.

Essa variabilidade permite selecionar animais mais resistentes sem abrir mão de características produtivas valorizadas pela pecuária, como ganho de peso, fertilidade e qualidade da carne.

“A boa notícia é que existe variabilidade genética dentro das raças quanto à resistência ao carrapato. Isso nos permite fazer a seleção de animais mais resistentes”, afirmou Cardoso.

Além disso, o avanço da seleção genômica ampliou as possibilidades de identificar reprodutores com maior potencial de transmitir essa característica aos descendentes. Para isso, os pesquisadores combinam informações sobre a contagem de carrapatos com dados do perfil genético dos animais.

Dessa forma, os criadores conseguem estimar o potencial genético dos reprodutores sem precisar submeter todos os animais ao desafio do parasita. A ferramenta também facilita a incorporação da resistência ao carrapato aos programas de melhoramento genético.

Filhos de touros resistentes apresentaram menor infestação

Um dos trabalhos apresentados por Cardoso mostrou que os filhos de touros classificados geneticamente como mais resistentes apresentaram uma carga parasitária cerca de um terço menor em comparação com os descendentes de reprodutores menos resistentes.

O resultado reforça o potencial da genética bovina no controle do carrapato, uma vez que a escolha dos reprodutores pode influenciar a resistência das próximas gerações. Entretanto, o desempenho também depende das condições ambientais, das características do rebanho e do manejo adotado na propriedade.

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Por isso, o pesquisador recomenda combinar a resistência ao parasita com outras características de interesse econômico. Assim, o pecuarista pode buscar animais que apresentem bom desempenho produtivo e maior adaptação ao ambiente em que serão criados.

“Não é uma ferramenta única, mas é uma ferramenta duradoura, efetiva e que realmente pode trazer maior lucratividade”, ressaltou.

Como o produtor pode escolher animais resistentes

Durante a palestra, Cardoso também apresentou ferramentas disponíveis nos sumários genéticos de diferentes raças para ajudar produtores e criadores a identificar reprodutores com maior resistência ao carrapato.

Na prática, a recomendação é avaliar essa característica em conjunto com indicadores de ganho de peso, qualidade de carcaça, fertilidade e precocidade. Dessa maneira, a seleção genética pode contribuir tanto para a adaptação dos bovinos quanto para a eficiência econômica da produção.

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“O desafio é produzir o taurino que tenha precocidade, fertilidade e carne de excelente qualidade, mas também maior adaptação ao ambiente tropical”, destacou.

A adoção dessa estratégia exige planejamento e acompanhamento dos resultados. Ainda assim, ao priorizar animais geneticamente mais resistentes, o pecuarista pode fortalecer o controle integrado do parasita e diminuir a dependência de produtos químicos ao longo do tempo.

Tecnologia e inovação marcam a abertura da Farm Show

A palestra sobre resistência genética integrou a programação de abertura da 93ª Farm Show de Dom Pedrito. Após a apresentação, o público participou de uma rodada de perguntas, com a presença de José Fernando Piva Lobato, coordenador da Comissão de Pecuária de Corte da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

Durante a cerimônia, o presidente do Sindicato Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Zamberlan Coradini, destacou a capacidade de recuperação do setor agropecuário e defendeu investimentos em tecnologia, inovação e qualificação.

“Tradição, por si só, não garante futuro. Precisamos continuar investindo em tecnologia, inovação, qualificação e sustentabilidade”, afirmou.

A programação também incluiu a apresentação do projeto eólico Torquato Severo, da Casa dos Ventos. Segundo Vicente Ferrer, gerente executivo de Desenvolvimento de Negócios da empresa, o empreendimento tem previsão de avançar para a fase de obras a partir da metade de 2027.

A proposta, conforme a apresentação, é agregar renda às propriedades rurais por meio de arrendamentos, mantendo a convivência com a produção agropecuária.

“Hoje temos projetos no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Entendemos que o agronegócio cada vez mais se moderniza, cada vez mais precisa de energia elétrica. Então a Casa dos Ventos está aqui e é conhecida por trabalhar nesse processo de conhecimento de energia, uma energia limpa e barata para grandes consumidores”, destacou.

A cerimônia também marcou a abertura da 1ª Semana Acadêmica da Agronomia da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no campus de Dom Pedrito. A 93ª Farm Show prossegue até domingo (18), no Parque de Exposições Juventino Corrêa de Moura