Inadimplência recorde no campo deve tornar bancos mais rigorosos na liberação de crédito
Foto de área rural
Foto: Wenderson Araujo/CNA

A safra 2026/2027 começa sob forte preocupação dos produtores rurais quanto à disponibilidade e às condições do crédito agrícola. Entidades do setor avaliam o novo Plano Safra com desconfiança, já que o volume e as condições de financiamento da maior parte dos recursos não atendem às dificuldades enfrentadas atualmente no campo.

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O governo prevê R$ 610,3 bilhões para o programa, dos quais R$ 525,1 bilhões destinam-se à agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões à agricultura familiar. Embora o Executivo apresente o montante como recorde, o valor não acompanha sequer a inflação do período quando comparado à safra anterior, que somou R$ 594,4 bilhões.

O anúncio também incluiu R$ 38,5 bilhões provenientes de fontes que os planos anteriores não contabilizavam, o que ampliou artificialmente o valor total divulgado pelo governo.

A vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), senadora Tereza Cristina (PP-MS), classificou o anúncio com dureza. “Tivemos um Plano Safra que não tem nada de recorde. É um plano que vem sem resolver o endividamento rural, questão fundamental para que os produtores tenham acesso ao crédito disponibilizado para a próxima safra”, destacou.

Corte no custeio preocupa produtores

Mesmo com números nominais maiores, os recursos destinados ao custeio representam uma das principais preocupações do setor. O montante caiu 7,18% nesta temporada e somou R$ 384,9 bilhões. As operações de custeio financiam despesas ligadas diretamente ao plantio, como sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos — e a redução desses recursos pode limitar a capacidade de investimento dos produtores e afetar o ritmo de plantio do próximo ciclo.

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O aumento da inadimplência no campo agrava ainda mais o cenário. Dados do Banco Central e da Serasa Experian apontam que o indicador atingiu níveis recordes. Especialistas avaliam que o avanço do endividamento deve levar as instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos, diante do maior risco das operações.

“O aumento dos custos financeiros, a restrição do crédito e o crescimento do endividamento comprimem as margens e podem comprometer o desempenho da próxima safra”, afirmou o pesquisador e professor do Insper Agro Global, Leandro Gilio, em análise sobre o anúncio do Plano Safra.

“Na prática, a efetiva liberação dos recursos depende da disposição das instituições financeiras em assumir riscos e da capacidade dos produtores de atender aos critérios de concessão”, completou o especialista.

Juros recuam, mas continuam distantes da realidade do produtor

As taxas de juros também representam um ponto de atenção do novo plano. As reduções variaram, de forma geral, entre 0,5 e 1,5 ponto percentual. Ainda assim, diante da queda nos preços das commodities e da compressão das margens de rentabilidade, os juros permanecem elevados e chegam a 12,5% ao ano em algumas linhas de financiamento.

“Eu lamento dizer, mas o Plano Safra que está no mercado, com bilhões de reais, é inacessível para a grande maioria dos produtores”, afirmou o coordenador institucional da FPA, deputado Alceu Moreira (MDB-RS).

Segundo Gilio, o maior custo do Plano Safra está justamente na equalização das taxas de juros, cujo orçamento cresceu mais de 35%. Apesar disso, a redução oferecida aos produtores foi modesta, e algumas linhas de financiamento sequer tiveram alteração nas taxas.

“A elevada taxa básica de juros da economia, com a Selic em 14,25% ao ano, restringe o espaço para reduções mais expressivas. Ao mesmo tempo, os problemas fiscais do governo limitam a capacidade de ampliar os subsídios”, explicou Gilio. “Como resultado, o custo do crédito rural permanece elevado justamente em um momento de compressão das margens de rentabilidade dos produtores”, concluiu.