Mesmo sendo o maior exportador mundial de suco de laranja, o Brasil perdeu espaço no mercado internacional para o Egito
Foto: Reprodução/The Harvard Gazette

O Brasil é líder mundial na produção e exportação de suco de laranja. Ainda assim, praticamente deixou de vender laranja de mesa para o exterior e, atualmente, chega a importar a fruta, principalmente do Egito.

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À primeira vista, a situação parece contraditória. No entanto, ela é resultado de decisões tomadas pelo setor citrícola ao longo de décadas e das mudanças no comportamento dos consumidores ao redor do mundo.

O Brasil apostou no suco de laranja

Durante muitos anos, a citricultura brasileira direcionou seus investimentos para abastecer a indústria de suco, segmento em que o país se tornou referência mundial.

Hoje, aproximadamente 70% da produção nacional de laranja é destinada ao processamento industrial, enquanto apenas 30% abastece o mercado de fruta fresca.

Essa estratégia trouxe resultados econômicos importantes, mas deixou o Brasil em segundo plano em um mercado que cresceu nos últimos anos: o da laranja de mesa.

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Segundo o presidente da CitrusBR, Ibiapaba Netto, o comércio internacional de frutas frescas movimenta cerca de 300 milhões de caixas por ano e continua em expansão.

O problema não é falta de demanda. O mercado mudou, mas o Brasil permaneceu focado na indústria do suco”, resume.

O mercado passou a preferir frutas frescas

Enquanto o Brasil consolidava sua liderança no suco, consumidores de diversos países começaram a buscar frutas prontas para consumo.

Ganharam espaço variedades que apresentam características como:

  • sabor mais doce;
  • ausência de sementes;
  • facilidade para descascar;
  • aparência mais uniforme;
  • maior valor agregado.

Além das laranjas premium, mandarinas e tangerinas sem sementes passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas prateleiras internacionais.

Segundo a Associação Brasileira de Citros de Mesa (ABCM), diversos países investiram em novas variedades protegidas por royalties e desenvolvidas especificamente para esse mercado.

O Brasil, por outro lado, continuou concentrado em cultivares voltadas para a indústria e para o consumo interno.

Como o Egito virou um dos maiores exportadores de laranja

O principal concorrente brasileiro nesse segmento é o Egito.

Há cerca de duas décadas, o país tinha participação limitada nas exportações de laranja fresca. Hoje figura entre os maiores exportadores mundiais graças à combinação de fatores como:

  • clima favorável;
  • menor custo de produção;
  • incentivos governamentais;
  • abertura de novos mercados;
  • acordos fitossanitários.

Enquanto isso, o Brasil enfrenta desafios relacionados aos custos de produção, logística, infraestrutura portuária e crédito, fatores que reduzem sua competitividade na exportação da fruta in natura.

Brasil passou de exportador a importador

Os números mostram claramente essa mudança.

Segundo a ABCM:

  • em 2010, o Brasil exportou cerca de 835 mil caixas de laranja de mesa;
  • para 2026, a previsão é de apenas 140 mil caixas exportadas;
  • no mesmo período, as importações devem atingir aproximadamente 1,3 milhão de caixas, principalmente vindas do Egito.

Os dados mostram que o país perdeu espaço justamente em um mercado que continua crescendo no comércio internacional.

Greening cria oportunidades, mas ainda não resolve o problema

Outro fator que influencia a citricultura é o avanço do greening, considerada a principal doença dos citros no mundo.

Por causa dela, regiões como Petrolina, no Vale do São Francisco, passaram a atrair novos investimentos por estarem fora da área mais afetada pela doença.

Mesmo assim, especialistas afirmam que isso não garante competitividade internacional.

Em áreas mais quentes, por exemplo, a casca da laranja tende a permanecer mais verde, enquanto compradores europeus preferem frutos com coloração alaranjada intensa.

O desafio da citricultura brasileira

O Brasil continua sendo uma potência mundial no mercado de suco de laranja. No entanto, recuperar espaço na exportação de fruta fresca exigirá investimentos em novas variedades, acordos comerciais, melhorias logísticas e estratégias voltadas às preferências do consumidor internacional.

Sem essas mudanças, países como o Egito devem continuar ampliando sua participação em um mercado que cresce ano após ano.