Entenda por que suplementos não substituem alimentos de verdade

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária baixou o martelo nesta sexta-feira (28/11) contra mais um produto que prometia maravilhas sem entregar nada além de risco à saúde. O Suplemento Alimentar em Líquido Power Honey, fabricado pela Alemed Nutracêutica Indústria e Comércio Ltda, teve sua comercialização, distribuição, fabricação e até divulgação suspensas imediatamente.

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A decisão não veio do nada. Durante análises de rotina, técnicos da Anvisa identificaram que o produto continha níveis de benzoato de sódio e sorbato de potássio bem acima dos limites considerados seguros para consumo humano. Esses conservantes, quando consumidos em excesso, podem causar desde alergias até problemas mais sérios de saúde.

Mas o problema não para por aí. O rótulo do Power Honey vinha estampado com alegações terapêuticas que nunca foram comprovadas ou autorizadas pela agência reguladora. Termos como “estimulante natural” aparecem na embalagem sem nenhum respaldo científico, criando expectativas falsas nos consumidores que buscam soluções rápidas para cansaço e falta de energia.

A própria marca e o nome do produto foram desenhados pra sugerir benefícios que ele simplesmente não pode garantir. É aquela velha história: marketing bonito, produto questionável.

Por que suplementos “milagrosos” não funcionam (e nunca vão funcionar)

O caso do Power Honey levanta uma questão que especialistas em nutrição repetem há anos, mas que muita gente ainda ignora: não existe atalho quando o assunto é nutrição. Aquela cápsula colorida ou aquele líquido “energético” nunca vão fazer pelo seu corpo o que um prato equilibrado faz.

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Vamos aos fatos. Quando você consome uma laranja, por exemplo, seu organismo não absorve apenas vitamina C isolada. Junto vem uma complexa rede de fibras, flavonoides, carotenoides e dezenas de outros compostos bioativos que trabalham em sinergia. Essa combinação natural potencializa a absorção dos nutrientes e gera benefícios que a ciência ainda está descobrindo.

Foto: divulgação – Agência Brasil / Rafa NedderMeyer

Agora compare isso com um suplemento. Ele te entrega uma versão isolada e sintética de um ou dois nutrientes, geralmente acompanhados de conservantes, corantes e estabilizantes. Seu corpo não reconhece aquilo da mesma forma. A biodisponibilidade, que é a capacidade do organismo de absorver e usar determinado nutriente, costuma ser muito menor quando o nutriente vem de fonte sintética.

Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition mostrou que pessoas que consomem frutas e vegetais regularmente têm taxas de doenças cardiovasculares significativamente menores do que aquelas que tentam compensar com suplementos vitamínicos. Os pesquisadores concluiram que os benefícios vêm do “pacote completo” que os alimentos oferecem, não de substâncias isoladas.

O problema das promessas terapêuticas não comprovadas

Produtos como o Power Honey exploram uma zona cinzenta perigosa. Eles se posicionam como suplementos alimentares, mas fazem alegações que só medicamentos devidamente testados e aprovados poderiam fazer. Quando um rótulo diz que algo é “estimulante natural” ou “melhora o desempenho”, ele está prometendo efeitos terapêuticos específicos.

Foto: Rodarte/Agência Agro em Campo

Isso é ilegal por uma razão simples: sem estudos clínicos robustos, não há como garantir que o produto realmente funciona ou que é seguro. E mesmo que alguns ingredientes tenham propriedades benéficas quando consumidos em alimentos, concentrá-los em forma de suplemento pode criar riscos inesperados.

Os conservantes encontrados em excesso no Power Honey ilustram bem esse ponto. Benzoato de sódio e sorbato de potássio são seguros em pequenas quantidades, mas em doses elevadas podem causar desde irritação gastrointestinal até reações alérgicas graves em pessoas sensíveis. E a empresa certamente sabia dos limites estabelecidos pela legislação.

Comida de verdade: sem truques, sem atalhos

Nutricionistas são unânimes: a melhor fonte de nutrientes sempre será comida de verdade. Aquela couve no vapor, aquela beterraba assada, aquele punhado de castanhas. Parece simples demais pra ser verdade? Pois é exatamente por isso que funciona.

Alimentos integrais trazem benefícios que vão muito além da soma dos seus nutrientes individuais. As fibras das frutas, por exemplo, regulam a velocidade com que o açúcar entra na corrente sanguínea. Os antioxidantes dos vegetais verdes escuros protegem suas células de danos oxidativos de maneiras que suplementos isolados não conseguem replicar.

Foto: Rodarte/Agro em Campo

Tem mais: comer alimentos variados garante que você está consumindo nutrientes que talvez nem saiba que precisa. A ciência da nutrição ainda está descobrindo compostos bioativos novos em alimentos que consumimos há séculos. Quando você aposta tudo em suplementos, você perde essa diversidade protetora.

Um exemplo prático: estudos mostram que o licopeno do tomate cozido é melhor absorvido quando consumido junto com azeite de oliva. Essa sinergia natural não existe quando você toma uma cápsula de licopeno isolado. Seu corpo foi desenhado pra processar alimentos, não pílulas.

E quando suplementos realmente são necessários?

Claro, existem situações específicas onde suplementação faz sentido. Gestantes precisam de ácido fólico. Pessoas com deficiências diagnosticadas podem precisar de ferro ou vitamina B12. Quem vive em regiões com pouca exposição solar pode precisar de vitamina D.

Mas esses casos devem ser avaliados por profissionais de saúde através de exames e acompanhamento. Não é algo que você decide sozinho no corredor do supermercado porque viu um rótulo bonito prometendo “energia natural” ou “vitalidade renovada”.

A diferença fundamental é que nesses casos a suplementação é terapêutica e monitorada, não uma aposta de marketing disfarçada de solução mágica.

O que fazer agora com o Power Honey?

Se você comprou o produto, a recomendação da Anvisa é clara: pare de consumir imediatamente. A empresa Alemed Nutracêutica foi notificada e deve recolher todas as unidades do mercado, mas consumidores também precisam fazer sua parte.

Quem teve reações adversas após consumir o Power Honey deve procurar atendimento médico e notificar a Anvisa através do sistema de notificações da agência. Isso ajuda a mapear os impactos reais do produto e proteger outras pessoas.

E fica o aprendizado: antes de colocar qualquer suplemento na boca, pesquise. Procure saber se a empresa é confiável, se o produto tem registro na Anvisa, se as alegações fazem sentido científico. E, sempre que possível, prefira investir num mercadinho cheio de frutas e verduras do que em promessas engarrafadas.

Seu corpo vai agradecer. Sua carteira também.