Biocombustível apresenta qualidade superior, mas atende melhor projetos regionais e comunitários, aponta especialista da USP
Embrapa - Foto: Marcelo Cavallari

As quebradeiras de coco babaçu das regiões Norte e Nordeste do Brasil desenvolvem uma alternativa energética que combina sustentabilidade ambiental com desenvolvimento social. O biodiesel produzido a partir do coco babaçu demonstra qualidade técnica superior, mas encontra seu melhor desempenho em iniciativas comunitárias e regionais.

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Luís Alberto Folegatti Romero, professor do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP, classifica o babaçu como matéria-prima promissora para a produção de biodiesel. O óleo extraído das amêndoas do coco possui alto teor lipídico e composição favorável, o que garante ao biodiesel elevado número de cetano e combustão eficiente.

Políticas públicas incentivam agricultura familiar

O governo brasileiro introduziu o biodiesel na matriz energética nacional em 2005. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) passou a regular a qualidade do biocombustível. Produtores que adquirem matérias-primas da agricultura familiar recebem incentivos fiscais, medida que favorece o extrativismo do babaçu.

O selo combustível social, criado no mesmo período, busca estimular a compra de produtos de comunidades tradicionais, como as quebradeiras de coco. Em 2017, o governo estabeleceu metas de descarbonização e reconheceu o biodiesel de babaçu como componente estratégico da matriz energética do país.

Desafios limitam expansão do biodiesel de babaçu

O professor Romero identifica obstáculos significativos que impedem a competição do biodiesel de babaçu com outros biocombustíveis em larga escala.

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Processo manual eleva custos: a coleta e quebra do coco exigem grande esforço físico, apresentam baixa mecanização e geram pouco rendimento. Esses fatores elevam o custo da matéria-prima e dificultam o abastecimento regular das usinas.

Logística complexa em áreas remotas: os babaçuais se estendem por áreas extensas e dispersas, geralmente em zonas rurais de difícil acesso. O transporte do fruto, da amêndoa ou do óleo enfrenta limitações de infraestrutura.

Indústrias disputam matéria-prima: empresas de cosméticos e alimentos competem pelo coco babaçu. Fabricantes de carvão vegetal frequentemente pagam valores mais altos pelo óleo e derivados, o que reduz a disponibilidade para uso energético.

Escala industrial inviabiliza competição: o biodiesel de babaçu não consegue competir economicamente com matérias-primas produzidas em grande escala, como soja ou sebo bovino. O custo elevado e a dificuldade de produção em volumes industriais representam entraves significativos.

Vulnerabilidades sociais e ambientais: as quebradeiras de coco, principais responsáveis pelo extrativismo, enfrentam baixos retornos financeiros e falta de equipamentos adequados. Conflitos fundiários dificultam o acesso aos palmeirais em muitos casos, o que compromete toda a cadeia produtiva.

A expansão agrícola pressiona os babaçuais, espécie de regeneração natural. A ausência de manejo adequado pode reduzir a disponibilidade futura da matéria-prima.

Vocação regional e desenvolvimento sustentável

Apesar dos desafios, o babaçu apresenta propriedades superiores quando comparado a outras oleaginosas. O professor ressalta que o biocombustível funciona melhor em contextos específicos.

“O babaçu se destaca em projetos regionais, comunitários e de desenvolvimento sustentável, onde o objetivo não é competir com grandes usinas, mas promover inclusão social, renda local e valorização de recursos naturais”, afirma Romero.

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A estratégia prioriza o fortalecimento de comunidades tradicionais e a preservação de práticas extrativistas sustentáveis, em vez da competição no mercado nacional de biocombustíveis.

Fonte: Jornal da USP/ Por