Tecnologia aproveita parte do amido residual e pode reduzir o uso de enzimas comerciais
espiga de milho na plantação
Foto: Arquivo Agro em Campo

Pesquisadores da Unicamp desenvolveram uma levedura geneticamente modificada que pode aumentar o rendimento do etanol de milho. Além disso, a nova linhagem aproveita parte do amido que normalmente não é convertido durante a fermentação e pode reduzir o uso de enzimas comerciais.

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Nos testes de bancada, a levedura produziu a própria glucoamilase e, com isso, dispensou a aplicação externa da enzima. Agora, a tecnologia avança para testes em escala maior para verificar se os resultados se mantêm em condições industriais.

Tecnologia aproveita amido residual

O aproveitamento do amido é um dos desafios da produção de etanol de milho. No processo convencional, as usinas utilizam as enzimas alfa-amilase e glucoamilase para quebrar o amido e liberar os açúcares que a levedura transforma em etanol. Entretanto, cada enzima atua melhor em uma faixa de temperatura. A alfa-amilase tradicional precisa de temperaturas superiores a 90°C, enquanto a fermentação ocorre em torno de 30°C. Por isso, o processo precisa separar essas etapas e parte do amido pode permanecer sem conversão.

Segundo os pesquisadores, cerca de 10% do amido pode não ser completamente aproveitado no processo tradicional. Para enfrentar esse problema, a equipe da Unicamp utilizou bioinformática para procurar uma alfa-amilase capaz de funcionar em temperaturas próximas às da fermentação.

“Foi um esforço grande de procurar, nos milhões de dados públicos de proteínas que existem, de todos os organismos sequenciados, uma alfa-amilase que atua em baixa temperatura. 99,9% das alfa-amilases só funcionam a 80 graus”, afirma Marcelo Falsarella Carazzolle, pesquisador responsável pelo trabalho.

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Depois de identificar enzimas promissoras, os cientistas inseriram os genes correspondentes em uma levedura industrial. Assim, criaram uma linhagem capaz de produzir alfa-amilase e glucoamilase durante o processo.

Testes mostram potencial da nova levedura

Nos testes de bancada, a nova linhagem produziu a própria glucoamilase durante a fermentação e, dessa forma, dispensou completamente a adição externa da enzima. Além disso, a levedura produziu uma alfa-amilase capaz de atuar em temperaturas próximas às da fermentação. Com isso, conseguiu quebrar parte do amido que permanecia sem aproveitamento após as etapas tradicionais.

Na prática, a tecnologia busca transformar uma parcela maior do amido do milho em açúcares fermentáveis e, posteriormente, em etanol. Assim, se os resultados forem confirmados em escala industrial, as usinas poderão obter mais biocombustível com a mesma quantidade de milho. Ao mesmo tempo, a menor necessidade de enzimas comerciais pode ajudar a reduzir os custos do processo. No entanto, os pesquisadores ainda precisam medir esse ganho em condições industriais.

Tecnologia avança para testes maiores

A Unicamp licenciou a tecnologia para a Bionfood, empresa-filha da universidade. Agora, a empresa trabalha na validação em escalas maiores e utiliza amostras de amido hidrolisado provenientes de processos industriais. Segundo Gleidson Teixeira, cofundador e diretor científico e comercial da Bionfood, a próxima etapa precisa transformar o resultado científico em uma solução comercial, seguindo os critérios de validação exigidos pela indústria.

Por isso, os novos testes serão fundamentais para mostrar se a levedura mantém o desempenho observado em laboratório quando enfrenta condições mais próximas das encontradas nas usinas.

Etanol de milho ganha espaço no Brasil

A pesquisa chega em um momento de expansão do etanol de milho no Brasil. Segundo dados citados pela Unicamp e pelo setor, o combustível já representa cerca de 30% da produção nacional de etanol. Além disso, projeções da Conab apontam crescimento de 17% na produção de etanol de milho na safra 2026/27, com estimativa de 11,91 bilhões de litros.

O milho também oferece uma vantagem logística: enquanto a cana precisa seguir rapidamente para a indústria após a colheita, o grão pode permanecer armazenado em silos por meses. Além do etanol, as usinas conseguem aproveitar outros produtos do milho, como óleo e ingredientes destinados à alimentação animal.

Portanto, se os próximos testes confirmarem os resultados de laboratório, a nova levedura poderá melhorar o aproveitamento do milho, aumentar o rendimento do etanol e reduzir a necessidade de enzimas comerciais.

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