Pesquisa com a TMG busca silenciar genes do percevejo-marrom; tecnologia tem pedido de patente, mas ainda precisa superar desafios antes de chegar ao campo
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Percevejo-marrom-da-soja ou Euschistus heros é um inseto que ataca plantas. É conhecido por ser uma das mais agressivas pragas da cultura da soja. Causa prejuízos com sucção de seiva dos ramos, hastes ou vagens - Foto: MELO, Claudio Bezerra/Embrapa.

Uma tecnologia de RNA para percevejo-marrom está sendo estudada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para combater o Euschistus heros, uma das principais pragas da soja no Brasil. Em parceria com a TMG Tropical Melhoramento e Genética, os pesquisadores buscam silenciar genes essenciais do inseto sem modificar geneticamente a planta.

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A pesquisa já avançou para a proteção da propriedade intelectual. Em 2 de abril de 2024, Unicamp e TMG depositaram no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o pedido de patente BR 10 2024 006442-9. No entanto, a tecnologia ainda precisa superar desafios antes de chegar ao campo em escala comercial.

A relevância da pesquisa acompanha o tamanho da produção brasileira de soja. Na safra 2025/26, a Conab estima 180,5 milhões de toneladas, 5,2% acima da temporada anterior. Nesse cenário, novas ferramentas podem ampliar as alternativas de manejo de pragas.

Como o RNA age sobre o percevejo

O RNA de interferência (RNAi) reduz a expressão de determinados genes. Para isso, os pesquisadores utilizam moléculas de RNA de fita dupla, chamadas dsRNA.

Quando uma sequência compatível chega às células do inseto, mecanismos celulares podem degradar o RNA mensageiro correspondente. Assim, o gene permanece no organismo, mas produz menos da proteína associada a ele.

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Se essa proteína estiver ligada a uma função essencial, a redução pode comprometer o desenvolvimento ou a sobrevivência do percevejo. No projeto da Unicamp com a TMG, os pesquisadores testaram moléculas de RNAi para identificar sequências capazes de provocar mortalidade em E. heros.

Patente não significa produto disponível

O pedido de patente protege a tecnologia de RNA para percevejo-marrom desenvolvida pela Unicamp e pela TMG, mas não significa que já exista um produto comercial para o agricultor.

Documentos da universidade indicam a continuidade do desenvolvimento e da validação da tecnologia. Em agosto de 2026, a Unicamp também citou a solução entre as tecnologias transferidas ao setor produtivo para reduzir perdas provocadas por percevejos.

Portanto, ainda não é possível tratar a tecnologia como uma alternativa comercial aos produtos usados atualmente no controle da praga.

Especificidade é uma possibilidade

Uma característica do RNAi é a possibilidade de direcionar as moléculas para sequências genéticas específicas do organismo-alvo. Isso pode favorecer estratégias mais seletivas, mas cada solução precisa passar por avaliações próprias de eficácia e segurança.

Um estudo publicado em 2022 na revista Science of the Total Environment avaliou dsRNA direcionado ao percevejo-marrom e seus possíveis efeitos sobre Telenomus podisi, uma vespa parasitoide usada no controle biológico.

Nas condições testadas, os pesquisadores não identificaram efeitos letais ou subletais do dsRNA específico do percevejo sobre o parasitoide. O resultado, porém, não permite afirmar que qualquer tecnologia de RNA seja automaticamente segura para organismos não alvo.

RNA ainda enfrenta barreiras no inseto

Para funcionar no campo, o RNAi precisa permanecer estável e alcançar as células do inseto em quantidade suficiente.

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Um estudo publicado em 2025 no Journal of Insect Physiology identificou elevada atividade de enzimas chamadas RNases na saliva do percevejo. Essas enzimas podem degradar o dsRNA e reduzir a eficiência do silenciamento gênico.

Os pesquisadores aumentaram a estabilidade do RNA ao interferir em uma dessas enzimas. Entretanto, a alteração não aumentou significativamente a sensibilidade do percevejo a outro dsRNA testado.

Assim, a degradação do RNA representa uma das barreiras que a tecnologia de RNA para percevejo-marrom ainda precisa superar. Formulação, aplicação, eficácia em campo, segurança e custo também precisam ser avaliados.

Monitoramento continua essencial

Enquanto a pesquisa avança, o controle do percevejo-marrom permanece baseado no Manejo Integrado de Pragas (MIP).

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Segundo a Embrapa, entre os estádios R3 e R6, o nível de ação é de dois percevejos com pelo menos 0,5 centímetro por metro de fileira em lavouras destinadas à produção de grãos. Para produção de sementes, a recomendação é de um percevejo por metro.

Por isso, a decisão de controle deve considerar o monitoramento da população da praga e o risco econômico da infestação.

Caso o RNAi para percevejo-marrom avance até uma solução comercial, a tecnologia poderá integrar o conjunto de ferramentas de manejo. Por enquanto, os resultados documentados mostram uma tecnologia em desenvolvimento, com pedido de patente e desafios técnicos ainda pela frente.