Resumo da notícia
- Pesquisadores da Unicamp e TMG desenvolvem tecnologia de RNA para combater o percevejo-marrom, praga da soja, silenciando genes do inseto sem alterar geneticamente a planta.
- Em abril de 2024, a tecnologia teve pedido de patente depositado no INPI, mas ainda precisa superar desafios antes de ser usada comercialmente no campo.
- O RNAi permite ação específica contra o percevejo, minimizando impactos em inimigos naturais, mas cada aplicação deve passar por testes rigorosos de eficácia e segurança.
Uma tecnologia de RNA para percevejo-marrom está sendo estudada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para combater o Euschistus heros, uma das principais pragas da soja no Brasil. Em parceria com a TMG Tropical Melhoramento e Genética, os pesquisadores buscam silenciar genes essenciais do inseto sem modificar geneticamente a planta.
A pesquisa já avançou para a proteção da propriedade intelectual. Em 2 de abril de 2024, Unicamp e TMG depositaram no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o pedido de patente BR 10 2024 006442-9. No entanto, a tecnologia ainda precisa superar desafios antes de chegar ao campo em escala comercial.
A relevância da pesquisa acompanha o tamanho da produção brasileira de soja. Na safra 2025/26, a Conab estima 180,5 milhões de toneladas, 5,2% acima da temporada anterior. Nesse cenário, novas ferramentas podem ampliar as alternativas de manejo de pragas.
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Como o RNA age sobre o percevejo
O RNA de interferência (RNAi) reduz a expressão de determinados genes. Para isso, os pesquisadores utilizam moléculas de RNA de fita dupla, chamadas dsRNA.
Quando uma sequência compatível chega às células do inseto, mecanismos celulares podem degradar o RNA mensageiro correspondente. Assim, o gene permanece no organismo, mas produz menos da proteína associada a ele.
Se essa proteína estiver ligada a uma função essencial, a redução pode comprometer o desenvolvimento ou a sobrevivência do percevejo. No projeto da Unicamp com a TMG, os pesquisadores testaram moléculas de RNAi para identificar sequências capazes de provocar mortalidade em E. heros.
Patente não significa produto disponível
O pedido de patente protege a tecnologia de RNA para percevejo-marrom desenvolvida pela Unicamp e pela TMG, mas não significa que já exista um produto comercial para o agricultor.
Documentos da universidade indicam a continuidade do desenvolvimento e da validação da tecnologia. Em agosto de 2026, a Unicamp também citou a solução entre as tecnologias transferidas ao setor produtivo para reduzir perdas provocadas por percevejos.
Portanto, ainda não é possível tratar a tecnologia como uma alternativa comercial aos produtos usados atualmente no controle da praga.
Especificidade é uma possibilidade
Uma característica do RNAi é a possibilidade de direcionar as moléculas para sequências genéticas específicas do organismo-alvo. Isso pode favorecer estratégias mais seletivas, mas cada solução precisa passar por avaliações próprias de eficácia e segurança.
Um estudo publicado em 2022 na revista Science of the Total Environment avaliou dsRNA direcionado ao percevejo-marrom e seus possíveis efeitos sobre Telenomus podisi, uma vespa parasitoide usada no controle biológico.
Nas condições testadas, os pesquisadores não identificaram efeitos letais ou subletais do dsRNA específico do percevejo sobre o parasitoide. O resultado, porém, não permite afirmar que qualquer tecnologia de RNA seja automaticamente segura para organismos não alvo.
RNA ainda enfrenta barreiras no inseto
Para funcionar no campo, o RNAi precisa permanecer estável e alcançar as células do inseto em quantidade suficiente.
Um estudo publicado em 2025 no Journal of Insect Physiology identificou elevada atividade de enzimas chamadas RNases na saliva do percevejo. Essas enzimas podem degradar o dsRNA e reduzir a eficiência do silenciamento gênico.
Os pesquisadores aumentaram a estabilidade do RNA ao interferir em uma dessas enzimas. Entretanto, a alteração não aumentou significativamente a sensibilidade do percevejo a outro dsRNA testado.
Assim, a degradação do RNA representa uma das barreiras que a tecnologia de RNA para percevejo-marrom ainda precisa superar. Formulação, aplicação, eficácia em campo, segurança e custo também precisam ser avaliados.
Monitoramento continua essencial
Enquanto a pesquisa avança, o controle do percevejo-marrom permanece baseado no Manejo Integrado de Pragas (MIP).
Segundo a Embrapa, entre os estádios R3 e R6, o nível de ação é de dois percevejos com pelo menos 0,5 centímetro por metro de fileira em lavouras destinadas à produção de grãos. Para produção de sementes, a recomendação é de um percevejo por metro.
Por isso, a decisão de controle deve considerar o monitoramento da população da praga e o risco econômico da infestação.
Caso o RNAi para percevejo-marrom avance até uma solução comercial, a tecnologia poderá integrar o conjunto de ferramentas de manejo. Por enquanto, os resultados documentados mostram uma tecnologia em desenvolvimento, com pedido de patente e desafios técnicos ainda pela frente.