Resumo da notícia
- Uma araucária centenária chamada Pinheirão, com 44 metros e até 500 anos, caiu em Caçador (SC) e apresenta brotos vivos, possibilitando esforços de clonagem para preservar sua genética.
- Pesquisadores da Embrapa estão produzindo cerca de 50 mudas por enxertia, unindo ramos do Pinheirão a mudas jovens, mantendo o material genético original da árvore.
- Análise dos anéis de crescimento no tronco ajudará a determinar a idade e as condições climáticas enfrentadas, além de entender fatores que contribuíram para o tombamento da árvore.
Uma araucária que pode ter vivido entre 400 e 500 anos mobilizou pesquisadores da Embrapa Florestas após cair em Caçador, Santa Catarina. Conhecida como Pinheirão, a árvore ainda apresentava brotos vivos quando os cientistas chegaram ao local, o que permitiu o início de uma série de tentativas de clonagem para preservar suas características genéticas.
Com 44 metros de altura, o Pinheirão ficava na Estação Experimental da Embrapa, em uma área onde também funciona a unidade da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Era considerado a quarta maior araucária do país, segundo o levantamento do professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
A suspeita é que a árvore tenha tombado em fevereiro de 2026. No entanto, a descoberta ocorreu apenas no fim de abril, cerca de dois meses depois, durante a manutenção de uma estrada que atravessa a floresta.
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Brotos vivos permitiram tentativa de clonagem
O engenheiro florestal Ivar Wendling, especialista em clonagem da Embrapa, surpreendeu-se ao encontrar ramos emitindo brotos cerca de quatro meses após a provável queda. A equipe procurou material vivo no tronco e nos galhos para tentar conservar a genética do exemplar.
O trabalho de campo incluiu também a escalada de uma araucária vizinha de grande porte, de onde Wendling recolheu brotos na copa, a mais de 40 metros do chão.
As amostras seguiram para a sede da Embrapa Florestas, na Região Metropolitana de Curitiba. Em estufa, os pesquisadores produziram cerca de 50 mudas por enxertia.

brotações do Pinheirão (Foto: Divulgação)
O procedimento consiste em unir um ramo do Pinheirão a uma muda jovem cultivada a partir de uma semente.
A confirmação de que o enxerto se estabeleceu leva aproximadamente 100 dias. A parte originada do ramo conserva o material genético da árvore matriz, enquanto a muda que a sustenta funciona como porta-enxerto.
Tronco guarda registros da idade e do clima
Os pesquisadores também retiraram um disco de madeira do tronco e o enviaram a um laboratório no Paraná. A peça passará por uma secagem lenta, para evitar rachaduras, e depois será lixada até que os anéis de crescimento fiquem visíveis.
A análise dessas marcas anuais, chamada dendrocronologia, ajuda a investigar a idade da árvore e as condições climáticas que ela enfrentou.
Além disso, a largura dessas marcas oferece pistas sobre o ambiente: anéis mais largos podem indicar anos mais quentes e chuvosos, favoráveis ao crescimento, enquanto os estreitos podem registrar períodos de seca.
O excesso de chuva também representa um risco para árvores desse porte. Quando o solo fica encharcado, perde resistência e compromete a sustentação das raízes, favorecendo o tombamento.
Levantamento registra poucas dezenas de araucárias gigantes
Scipioni, professor do curso de Engenharia Florestal da UFSC, trabalha na catalogação das maiores araucárias remanescentes no Brasil.
O levantamento abaixo considera gigantes os exemplares com tronco a partir de 1,50 metro de diâmetro.
| Estado | Araucárias gigantes registradas |
|---|---|
| Santa Catarina | 24 |
| Rio Grande do Sul | 15 |
| Paraná | 8 |
| Minas Gerais | 2 |
A maior araucária registrada no país fica na zona rural de São Joaquim (SC). É a única do levantamento com mais de três metros de diâmetro e tem idade estimada em mais de 600 anos.
A exploração madeireira ajuda a explicar a raridade desses exemplares. Entre 1900 e 1970, a araucária foi a árvore mais derrubada do Brasil, segundo a reportagem.
A estimativa apresentada é de que restem apenas 3% da cobertura original da floresta com araucárias, que ocupava cerca de 200 mil quilômetros quadrados no Sul, área equivalente a aproximadamente duas vezes o território catarinense.