Resumo da notícia
- O Brasil está prestes a superar os EUA na produção mundial de sorgo, com projeção de 8 milhões de toneladas contra 7,3 milhões dos americanos, impulsionado pela expansão da área cultivada.
- A produção brasileira de sorgo cresceu 20,4% na safra 2025/26, com aumento de 32,9% na área plantada, refletindo maior espaço ocupado no campo, não apenas ganhos de produtividade.
- O sorgo ganha destaque por sua resistência à seca e calor, facilitando o cultivo na segunda safra e ampliando usos em alimentação animal, etanol e exportação para a China.
O Brasil está perto de tomar dos Estados Unidos a liderança mundial na produção de um grão que ganha espaço justamente por suportar melhor seca, calor e períodos mais curtos para o plantio.
O protagonista dessa mudança é o sorgo.
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Projeções para a próxima temporada apontam que a produção brasileira pode alcançar 8 milhões de toneladas, enquanto os Estados Unidos ficariam próximos de 7,3 milhões de toneladas. Caso os volumes se confirmem, o Brasil poderá assumir pela primeira vez a liderança mundial da cultura.
A diferença seria de aproximadamente 700 mil toneladas.
Cálculo do Agro em Campo, realizado a partir dessas projeções, mostra que o Brasil produziria aproximadamente 9,6% mais sorgo que os Estados Unidos.
A possível virada não acontece de forma isolada. O sorgo já registra forte expansão no campo brasileiro e começa a encontrar novos destinos para a produção.
Além da alimentação animal, o cereal ganha espaço na fabricação de etanol e abriu uma nova frente de exportação com a entrada no mercado chinês.
Brasil acrescentou 1,25 milhão de toneladas em uma safra

Os números oficiais ajudam a dimensionar a velocidade dessa transformação.
A produção brasileira de sorgo alcançou 7,35 milhões de toneladas na safra 2025/26, crescimento de 20,4% em relação ao ciclo anterior, segundo o 12º Levantamento da Safra de Grãos da Conab.
A expansão ocorreu principalmente pela incorporação de novas áreas. O país cultivou aproximadamente 2,17 milhões de hectares, avanço de 32,9%, equivalente a cerca de 537 mil novos hectares em apenas uma temporada.
Cálculo do Agro em Campo, com base nos dados da Conab, mostra que o Brasil produziu aproximadamente 6,10 milhões de toneladas na temporada anterior.
Isso significa que, em apenas uma safra, o campo brasileiro acrescentou aproximadamente 1,25 milhão de toneladas de sorgo à produção nacional.
Outro cálculo ajuda a entender o movimento. Ao relacionar produção e área informadas pela Conab, a produtividade média implícita da safra ficou próxima de 3,39 toneladas por hectare.
Os números mostram ainda que a área cresceu mais que a produção. Enquanto o território destinado à cultura avançou 32,9%, a produção aumentou 20,4%.
Portanto, a expansão recente não ocorreu apenas por ganhos de rendimento. O sorgo está efetivamente ocupando mais espaço no campo brasileiro.
Por que o sorgo ganha espaço no campo

Parte da explicação está nas características da própria cultura.
O sorgo apresenta boa adaptação a condições de deficiência hídrica e pode enfrentar situações nas quais outras culturas encontram maior risco produtivo.
Essa característica aumenta sua importância principalmente na segunda safra.
Quando o plantio da soja atrasa, por exemplo, o produtor também perde parte da janela considerada ideal para semear o milho safrinha.
Nesse cenário, o sorgo pode surgir como alternativa. A cultura apresenta ciclo adaptável às condições da segunda safra e maior tolerância ao estresse hídrico.
Essa característica ganha importância em regiões nas quais o produtor precisa administrar simultaneamente calendário, disponibilidade de chuva e risco econômico.
O avanço da área cultivada mostra que essa decisão já começa a aparecer de maneira concreta nas lavouras.
Goiás concentra parte da expansão

O crescimento também apresenta forte concentração regional.
Goiás se consolidou como principal estado produtor de sorgo do país e tem papel decisivo na expansão recente da cultura.
A proximidade com grandes regiões produtoras de grãos e com cadeias consumidoras de ração favorece o cereal. Ao mesmo tempo, novas usinas de etanol de cereais ampliam as possibilidades de comercialização.
Assim, o sorgo passa a disputar espaço dentro de um sistema agrícola que durante anos concentrou grande parte da segunda safra no milho.
Isso não significa uma substituição generalizada.
Porém, em determinadas regiões e condições de plantio, o produtor passa a ter uma alternativa adicional para decidir como ocupar a área depois da soja.
China pode mudar o tamanho do mercado
Outro fator pode acelerar essa expansão: a China.
O Brasil abriu o mercado chinês para o sorgo e realizou os primeiros embarques do cereal para o país asiático, criando uma nova possibilidade para os produtores nacionais.
A importância desse movimento está no tamanho da demanda.
A China é o principal comprador internacional de sorgo e utiliza grande parte do cereal importado na alimentação animal. O país também representa um mercado estratégico para diversas commodities agrícolas brasileiras.
A entrada nesse mercado muda a perspectiva para o sorgo nacional.
Até então, o crescimento da cultura brasileira estava fortemente associado ao consumo doméstico. Com a exportação, surge uma nova fonte de demanda capaz de aumentar a competição pelo grão.
Ao mesmo tempo, o Brasil passa a disputar um mercado historicamente importante para os produtores norte-americanos.
Etanol cria nova demanda pelo sorgo
O crescimento não depende apenas das exportações.
As usinas brasileiras de etanol de cereais também começam a ampliar o mercado potencial para o sorgo.
O cereal pode entrar como matéria-prima na produção do biocombustível, principalmente em regiões onde existe oferta próxima às unidades industriais.
Esse movimento acrescenta outro destino relevante à produção.
Assim, o sorgo passa a encontrar demanda em pelo menos três grandes frentes: alimentação animal, produção de etanol e exportação.
Essa diversificação ajuda a explicar por que uma cultura historicamente menos relevante que soja e milho começa a atrair mais atenção do produtor.
Brasil ainda precisa confirmar a ultrapassagem dos EUA
Apesar do avanço, a liderança mundial ainda deve ser tratada como projeção, e não como resultado consolidado.
Área efetivamente plantada, produtividade, clima e revisões das estimativas podem alterar os volumes de Brasil e Estados Unidos ao longo da temporada.
Também existem diferenças de calendário e metodologia entre instituições brasileiras e internacionais.
Por isso, os 8 milhões de toneladas não devem ser tratados como produção já alcançada.
Ainda assim, a trajetória brasileira ajuda a dimensionar a transformação.
O país acaba de produzir 7,35 milhões de toneladas e adicionou, segundo cálculo do Agro em Campo a partir dos dados da Conab, aproximadamente 1,25 milhão de toneladas em apenas uma safra.
Agora, a barreira dos 8 milhões colocaria o Brasil em condições de ultrapassar os Estados Unidos.
Se isso ocorrer, o país acrescentará mais uma cultura à lista de mercados agrícolas nos quais ocupa posição de liderança global, desta vez com um cereal cuja resistência à falta de água pode ganhar ainda mais importância diante da irregularidade climática.
Metodologia
Os cálculos do Agro em Campo usam dados da Conab e projeções para Brasil e Estados Unidos. A apuração considera produção, área cultivada e variação entre as safras para calcular crescimento, produtividade média e a possível vantagem brasileira sobre os norte-americanos.