Estudo aponta que juros elevados, crédito mais caro e margens menores pressionam a capacidade de pagamento dos produtores rurais
Foto: AGCO

A inadimplência rural chegou a 9,7% em agosto de 2026, segundo dados atribuídos a um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). O levantamento analisa a evolução do endividamento no campo e aponta que o custo dos financiamentos ajuda a explicar o avanço dos atrasos.

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Assinado por Geraldo S. A. de C. Barros e Lucilio R. A. Alves, o estudo examina o endividamento rural entre 2013 e 2026. Os pesquisadores destacam que, além do volume das dívidas, os juros, as condições de financiamento e a rentabilidade das atividades influenciam a situação financeira dos produtores.

Segundo o levantamento, a inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas passou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, considerando o saldo das operações.

Juros altos encarecem o crédito rural

O custo dos financiamentos aumentou nos últimos anos. De acordo com os números atribuídos ao Cepea, a taxa média do crédito rural para pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano, em 2021, para 12,2% em 2025.

No mesmo intervalo, a estimativa anual de gastos com juros passou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões. Em relação à renda do setor agropecuário, essa despesa aumentou de 3,9% para 11,4%.

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Com isso, os produtores precisam destinar uma parcela maior da receita ao pagamento dos encargos financeiros. Quando os preços agrícolas caem ou os custos de produção sobem, o orçamento fica ainda mais pressionado.

Crédito com juros livres concentra atrasos

As mudanças nas fontes de financiamento agropecuário também ajudam a explicar o cenário. O estudo aponta que as operações com taxas livres, incluindo modalidades como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), ganharam participação no mercado.

Essas fontes representavam 5% do crédito rural contratado em 2013. Em 2023, já respondiam por quase metade das contratações analisadas.

Além disso, o levantamento atribui às operações com juros livres 77% do saldo em atraso. Nesse grupo, a inadimplência chegou a 17,6%, contra 3,8% nas operações com juros controlados.

A diferença mostra que as condições de financiamento variam significativamente entre as modalidades. Ainda assim, os índices não representam todos os produtores, pois o risco depende também da atividade econômica e das condições de cada propriedade.

Preços e fertilizantes pressionam produtores de grãos

A rentabilidade é outro fator importante para o agronegócio brasileiro. Segundo o estudo, o preço real dos grãos estava 28% abaixo do nível de 2021, enquanto a relação de troca com fertilizantes atingiu o pior patamar da série analisada.

Essa combinação reduz o poder de compra da receita obtida com a colheita. Consequentemente, os produtores podem enfrentar mais dificuldades para pagar financiamentos e custear a próxima safra.

A pecuária, por sua vez, apresentou um cenário diferente na análise dos pesquisadores. A distinção reforça que o impacto do endividamento varia conforme a atividade e suas condições de mercado.

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Renegociações ampliam o alerta financeiro

Os índices de inadimplência não mostram toda a dimensão das dificuldades no campo, já que parte das dívidas rurais passa por renegociações ou prorrogações.

Segundo o levantamento, em agosto de 2026, a carteira problemática do crédito rural somava R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% do total considerado na análise. Aproximadamente três quartos desse saldo estavam renegociados ou prorrogados.

O estudo também aponta diferenças regionais. O Rio Grande do Sul concentrava 13% da carteira nacional de crédito rural, 21% da carteira problemática e 27% do saldo renegociado e prorrogado. Mesmo assim, o índice de inadimplência no estado era de 3,2%.

Em Goiás, o indicador chegava a 8,8%, enquanto no Maranhão e no Tocantins superava 15%, conforme os números atribuídos aos pesquisadores.

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Crédito fora das linhas tradicionais dificulta o diagnóstico

Os produtores também recorrem a recursos que não aparecem integralmente nas estatísticas tradicionais de crédito agrícola, como capital próprio, Cédulas de Produto Rural (CPRs), crédito de fornecedores e leasing.

O levantamento indica que o investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019 e que 64% desse investimento foi financiado fora do crédito rural. Entretanto, os dados disponíveis não permitem determinar quanto desse montante corresponde efetivamente a dívidas.

Por isso, os pesquisadores defendem ampliar as informações sobre compromissos financeiros, renegociações e operações realizadas fora do sistema tradicional de crédito. Essas informações ajudariam a dimensionar melhor o endividamento do agronegócio.

Renegociação precisa considerar cada realidade

O estudo informa que, até 5 de outubro de 2026, a Medida Provisória nº 1.376/2026 havia viabilizado a renegociação de R$ 5,98 bilhões. Segundo os autores, o valor correspondia a cerca de 5% do montante estimado, enquanto as dívidas de investimento representavam 1,3% do total renegociado.

Os pesquisadores também relacionam parte das dificuldades aos financiamentos de investimento contratados entre 2020 e 2022, cujos vencimentos ocorreram em um cenário de margens menores e juros mais altos.

Diante desse quadro, o estudo destaca a importância de diferenciar dificuldades temporárias de liquidez de problemas mais profundos de capacidade de pagamento. A avaliação precisa considerar as receitas, os custos e os compromissos financeiros de cada propriedade.

O levantamento conclui que a inadimplência rural não depende apenas do tamanho das dívidas. O custo do crédito, as condições de financiamento e a rentabilidade das atividades também ajudam a explicar a pressão financeira sobre os produtores.