Resumo da notícia
- O Brasil projeta safra recorde de soja em 2026, com 177,1 milhões de toneladas, mas o crescimento da produção pode superar a demanda global, gerando excesso de oferta e pressão sobre os preços.
- A pressão dos EUA para que a China compre mais soja americana ameaça reduzir as exportações brasileiras, especialmente com o acordo de Pequim para adquirir 25 milhões de toneladas anuais dos EUA nos próximos três anos.
- Estoques brasileiros devem atingir o maior nível em nove anos, mesmo com maior processamento interno, devido à possível desaceleração das exportações e ao risco de chuvas irregulares no Sul do Brasil e Argentina.
O Brasil se prepara para colher uma safra recorde de soja em 2026, mas agricultores do maior exportador mundial do grão enfrentam um dilema inédito: o mercado global pode não conseguir absorver toda a produção. A Conab projeta 177,1 milhões de toneladas para a safra que começa no início de 2026, volume 3,3% superior ao ano anterior.
“Estamos crescendo em uma escala maior do que a demanda”, alerta Thiago Facco, vice-presidente da Aprosoja Tocantins. O executivo prevê que o Brasil alcançará produção excedente “em um futuro muito próximo”, mesmo que a safra atual atenda bem ao mercado.
O presidente norte-americano Donald Trump pressiona a China a comprar mais soja dos Estados Unidos, o que pode reduzir drasticamente o espaço para as exportações brasileiras. O governo chinês se comprometeu a adquirir pelo menos 25 milhões de toneladas anuais de soja norte-americana pelos próximos três anos.
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Se Pequim cumprir o acordo, os embarques brasileiros perderão mercado justamente quando a colheita nacional acelerar. O Brasil pode repetir a situação dos Estados Unidos, que enfrentaram excesso de oferta antes do acordo comercial entre Trump e Xi Jinping.
Estoques brasileiros devem atingir recorde de nove anos
A Abiove, associação da indústria esmagadora de soja, projeta que os estoques finais de 2026 alcançarão o maior nível em nove anos. O acúmulo ocorrerá mesmo com o aumento do processamento interno para atender ao mandato de mistura de biodiesel em expansão no país.
“Em 2025, o Brasil teve uma supersafra, mas exportou muito bem por causa da guerra comercial”, observa Daniele Siqueira, analista da AgRural. “Para 2026, não há essa garantia. O Brasil pode ter um excesso de oferta que pese sobre os preços.”
Chicago registra volatilidade nas cotações futuras
Os contratos futuros da soja negociados em Chicago subiram cerca de 8% neste ano, mas recentemente devolveram parte dos ganhos. As compras chinesas de soja norte-americana ficaram muito aquém das 12 milhões de toneladas prometidas até o fim da temporada.
Francisco Queiroz, analista do Itaú BBA, avalia que “se o potencial de uma safra recorde na América do Sul se confirmar, poderemos ver algum tipo de correção de preços em Chicago”.
A consultoria Agroconsult estimou recentemente a produção em 178 milhões de toneladas, volume superior às 175 milhões projetadas pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Caso os números mais altos se confirmem, o Brasil poderá compensar uma queda esperada na produção global, mas o crescimento da oferta provavelmente superará o aumento da demanda mundial.
Chuvas irregulares associadas ao La Niña podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras no Sul do Brasil e na Argentina. Porém, se a colheita avançar normalmente até fevereiro, o país deverá enfrentar estoques em expansão.
China preferiu soja brasileira em 2025
As exportações brasileiras de soja dispararam em 2025, quando compradores chineses optaram pelo grão brasileiro durante as tensões comerciais com os EUA. O Brasil embarcou recorde de 104,8 milhões de toneladas até novembro, sendo 79% destinadas à China. As vendas totais dos EUA para a China somaram apenas 3,2 milhões de toneladas desde o acordo preliminar de outubro, segundo o USDA.
A área plantada no Brasil continua a crescer. A Conab estima que os agricultores devem semear 48,9 milhões de hectares nesta safra, expansão de 3,4% em relação à anterior. O aumento ocorre apesar do alto custo dos fertilizantes e das taxas de juros elevadas que deixaram muitos produtores altamente endividados.
Diferente dos EUA, onde agricultores alternam áreas entre soja e milho, o clima brasileiro permite o cultivo sucessivo das duas culturas. A soja também vem substituindo pastagens e áreas de arroz, segundo a Conab.
Margens apertadas preocupam produtores
“As margens estão muito apertadas, às vezes até negativas para a soja”, afirma Lucas Beber, presidente da associação de agricultores do Mato Grosso, principal estado produtor do grão. “A esperança está no milho.”
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Felipe Jordy, gerente de inteligência de mercado da Biond Agro, avalia que os produtores que já planejaram expandir suas áreas não devem desistir, mas as margens fracas provavelmente reduzirão o ritmo de expansão.
“Quem já está abrindo novas áreas não vai parar, mas vai desacelerar e repensar parte disso”, conclui Jordy.