Resumo da notícia
- A seca prolongada reduziu pela metade a chuva anual em Petrolina (PE) entre 2011 e 2019, mas a produção de uvas nos projetos de irrigação Bebedouro e Senador Nilo Coelho avançou mesmo com a estiagem.
- A irrigação funcionou como barreira contra a seca, mantendo a disponibilidade de água para as videiras, mas depende de energia, bombeamento, manutenção, infraestrutura e recursos financeiros para garantir a produção.
- Entre 2002 e 2022, a área de vinhedos no Senador Nilo Coelho cresceu 66,2%, e a produção mais que triplicou, mostrando que a viticultura irrigada no semiárido conseguiu intensificar a produção apesar da redução da vazão do rio São Francisco.
Uma seca prolongada reduziu quase pela metade a chuva média anual em uma área de Petrolina (PE), mas não impediu o avanço da produção de uvas nos projetos públicos de irrigação Bebedouro e Senador Nilo Coelho, no Vale do São Francisco. Entre 2011 e 2019, a irrigação funcionou como uma barreira entre a estiagem e a disponibilidade de água para as videiras. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que essa proteção depende de energia, bombeamento, manutenção, infraestrutura e capacidade financeira.
Os resultados fazem parte da tese de doutorado do tecnólogo em viticultura e enologia Luiz Gustavo Lovato, professor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano. O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com orientação de Jurandir Zullo Junior. A pesquisa reuniu dados climáticos, hidrológicos, produtivos e socioeconômicos para avaliar como a agricultura irrigada respondeu à estiagem.
Chuva caiu quase pela metade durante a seca
Na estação meteorológica de Bebedouro, a precipitação média anual ficou em aproximadamente 261 milímetros entre 2011 e 2019. Nos períodos de 2004 a 2010 e de 2020 a 2022, a média chegou a 503 milímetros. Assim, durante a estiagem, o volume médio de chuva caiu praticamente pela metade.
A disponibilidade de água no rio São Francisco também diminuiu. Entre 1979, quando Sobradinho começou a operar, e 2023, a vazão média medida a jusante do reservatório foi de 2.120 metros cúbicos por segundo (m³/s). Durante a seca de 2011 a 2019, caiu para 1.262 m³/s, uma redução de cerca de 40%.
No momento mais crítico, o reservatório de Sobradinho chegou a apenas 1% do volume útil. Mesmo nesse cenário, os vinhedos analisados não apresentaram uma queda correspondente na produção.
Produção de uvas cresceu mesmo durante a estiagem
Os dados do Projeto Público de Irrigação Senador Nilo Coelho mostram a dimensão dessa resposta. A área de vinhedos passou de 1.590 hectares em 2002 para 7.070 hectares em 2022. Na comparação entre as médias de 2002 a 2010 e de 2011 a 2019, a área cultivada cresceu 66,2%.
No mesmo intervalo, a produção média mais que triplicou, de 63,7 mil para 195,2 mil toneladas. A produtividade das uvas também aumentou, passando de 21,6 para 40,4 toneladas por hectare.
Em Bebedouro, o comportamento foi diferente na área cultivada, que caiu 11,1%, de 314 para 279 hectares. Ainda assim, a produção média subiu 70,5%, de 5,4 mil para 9,2 mil toneladas. A produtividade avançou de 17,5 para 32,3 toneladas por hectare.
Os números indicam que a estiagem não interrompeu a intensificação produtiva nos dois perímetros estudados. Nesse cenário, a irrigação no semiárido reduziu o efeito direto da falta de chuva sobre as plantas.
Por que a uva consegue produzir no semiárido
O Vale do Submédio São Francisco reúne duas condições favoráveis à viticultura irrigada: temperaturas elevadas e acesso à água do rio. Segundo a pesquisadora Patrícia Leão, da Embrapa Semiárido, a baixa precipitação e a menor umidade relativa do ar reduzem a pressão de doenças fúngicas sobre as videiras. Além disso, a alta radiação solar favorece a concentração de açúcares nas bagas.
“Se não tivéssemos água disponível para irrigação, não seria possível produzir uvas”, afirma Leão.
O manejo também diferencia a produção do Vale daquela encontrada em regiões de clima temperado. Em Petrolina e Juazeiro, as temperaturas permanecem elevadas e a variação na duração dos dias é pequena. Por isso, os produtores controlam os ciclos por meio de poda, interrupção temporária da irrigação e uso de reguladores de crescimento.
Conforme a variedade, o intervalo entre a poda e a colheita pode durar de 90 a 130 dias. Com esse manejo, a região consegue produzir até duas safras e meia por ano e direcionar parte da produção para períodos de menor oferta internacional.
“Aqui a gente simula tudo”, resume o produtor Frederico Teixeira, que chegou ao Vale em 1993.
Irrigação ficou mais eficiente, mas área também cresceu
Os sistemas localizados, como gotejamento e microaspersão, aplicam água próximo às raízes e podem reduzir perdas em comparação com métodos convencionais. No Nilo Coelho, a parcela da área equipada com sistemas localizados passou de 74% em 2012 para 92% em 2023.
Em Bebedouro, 88,5% da área destinada à uva utilizava gotejamento em 2023 e 9,6% empregava microaspersão.
Entretanto, tornar cada hectare mais eficiente não significa necessariamente reduzir o consumo total de água. Se a eficiência diminui custos ou riscos e estimula a expansão da área irrigada, a demanda total pode continuar crescendo. A pesquisa relaciona esse comportamento ao chamado efeito rebote.
Os volumes captados ajudam a dimensionar essa operação. No Nilo Coelho, a retirada de água do São Francisco permaneceu acima da média da série durante a seca e chegou a aproximadamente 348 milhões de metros cúbicos em 2017. Em Bebedouro, o maior valor do período foi de cerca de 25 milhões de metros cúbicos, em 2012. Os dados incluem todas as culturas e parte do abastecimento doméstico dos perímetros.
Energia também sustenta a produção
A água não chega aos vinhedos apenas por causa do sistema instalado dentro da propriedade. Os projetos dependem de estações de bombeamento, canais, drenos, estradas, manutenção e energia elétrica. Os distritos de irrigação administram parte dessa estrutura com recursos arrecadados dos usuários.
Bebedouro começou a operar em 1968 e é o projeto público de irrigação mais antigo ainda em funcionamento na região. Em 2020, tinha 1.106 hectares irrigados, sendo 301 hectares ocupados por uvas.
Segundo Décio Freire da Costa, gerente-executivo do Distrito de Irrigação Bebedouro, a captação foi projetada para funcionar mesmo quando a vazão do São Francisco se aproxima de níveis entre 600 e 700 m³/s.
Essa capacidade ajudou a manter o fornecimento durante a crise hídrica. Por outro lado, operar em condições mais difíceis pode elevar os custos.
“Nas situações de menor vazão, há aumento dos custos de geração de energia elétrica e, via de regra, também da conta de luz”, afirma Costa.
Segundo ele, despesas maiores podem aumentar a inadimplência dos produtores e comprometer a manutenção de estruturas instaladas há décadas.
O distrito busca reduzir os gastos com energia por meio de tarifas diferenciadas e sistemas fotovoltaicos. Ainda assim, a adaptação não depende somente da tecnologia utilizada dentro da propriedade. Ela também exige financiamento de longo prazo, capacidade de arrecadação e manutenção da infraestrutura compartilhada.
Pequenos produtores enfrentam maior vulnerabilidade
A pesquisa mostra que manter a produção durante uma seca severa não significa eliminar a vulnerabilidade dos agricultores. A água continuou chegando às videiras, mas isso exigiu uma estrutura que envolve energia, conhecimento técnico, manutenção e recursos financeiros.
Essas condições não estão distribuídas igualmente entre os produtores. Lovato aponta que os efeitos dos eventos extremos tendem a atingir pequenos e grandes agricultores de maneira diferente.
“Eventos extremos vão afetar de forma desigual pequenos e grandes agricultores”, afirma Lovato. “Sozinho e tendo que barganhar preços todos os dias, o produtor familiar vê sua capacidade adaptativa reduzida, o que o torna muito mais vulnerável.”
O estudo mostra, portanto, um limite importante da irrigação como estratégia de adaptação. A tecnologia conseguiu preservar a produção de uvas durante uma seca prolongada, mas sua eficácia depende de uma rede de infraestrutura e recursos que precisa continuar funcionando.
A tese A viticultura em Projetos Públicos de Irrigação: vulnerabilidades e dinâmicas socioclimáticas na região de Petrolina, desenvolvida na Unicamp, analisou as vulnerabilidades climáticas, produtivas e sociais associadas à viticultura irrigada na região.
Fonte: FAPESP