Resumo da notícia
- A separação dos negócios de sementes e proteção de cultivos da Corteva visa acelerar a inovação e aproximar a empresa dos produtores, focando em tecnologias para enfrentar desafios do campo.
- O produtor brasileiro enfrenta impactos diretos da geopolítica, como variações no câmbio, preços internacionais e custos elevados de insumos, que influenciam a formação dos preços agrícolas.
- A indústria destaca a importância de entender as necessidades do agricultor, oferecendo atendimento personalizado e ampliando o acesso a tecnologias, especialmente para produtores de menor porte.
A separação dos negócios de sementes e proteção de cultivos da Corteva abriu uma discussão sobre o futuro da agricultura durante o GAFFFF 2026. O painel realizado em 1º de outubro reuniu executivos da companhia e um representante do setor produtivo. Juntos, eles discutiram os desafios enfrentados pelo agricultor e as respostas da indústria para um cenário marcado por instabilidade geopolítica, custos elevados, restrição de crédito, novas tecnologias e maior complexidade no manejo.
A conversa foi mediada por Vivian Bialski, diretora de comunicação da Corteva, e contou com André Guillaumon, presidente e CEO da BrasilAgro; Brook Cunningham, vice-presidente sênior da Corteva e presidente da companhia para a região da Ásia-Pacífico; Felipe Daltro, presidente da Corteva para a América Latina e Tiago Gontijo, líder de Operações para Brasil e Paraguai na Corteva.
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O debate ocorreu no mesmo dia em que a empresa passou oficialmente a operar com os negócios de sementes e proteção de cultivos separados. A partir dessa mudança, a estratégia apresentada para a área de proteção de cultivos envolve ampliar o foco em inovação, acelerar a chegada de tecnologias ao mercado e aprofundar a relação com os produtores.
Produtor sente efeitos da geopolítica
Ao abordar os desafios do campo, André Guillaumon destacou que a agricultura brasileira está cada vez mais conectada ao cenário internacional. Para ele, o produtor precisa acompanhar fatores que ultrapassam os limites da propriedade, como guerras, juros, câmbio, preços internacionais e custos de insumos.
Guillaumon citou como exemplo a formação do preço da soja, influenciada por câmbio, Bolsa de Chicago e prêmio. Os três componentes podem sofrer impactos de acontecimentos externos e, por isso, afetam diretamente a atividade no campo.
Além disso, a pressão aparece nos custos de produção. Fertilizantes, nitrogenados, produtos químicos e fretes marítimos entraram na lista de itens que podem sofrer alterações diante de crises internacionais.
Nesse ambiente, ele defendeu que o produtor precisa compreender não apenas a atividade agrícola, mas também o funcionamento do negócio.
“Entender para atender.”
A frase resume uma das ideias centrais apresentadas durante o painel. Na avaliação de Guillaumon, produtos competitivos são importantes. Ainda assim, as empresas também podem se diferenciar pela capacidade de compreender o momento vivido pelo agricultor e oferecer atendimento adequado.
Além disso, ele destacou as diferenças de acesso entre produtores de grande, médio e pequeno porte. Enquanto grandes operações conseguem buscar determinadas ferramentas com maior rapidez, produtores menores podem depender de empresas, cooperativas e estruturas locais para acessar tecnologia, conhecimento e serviços.
Corteva quer acelerar novas tecnologias
Brook Cunningham afirmou que a separação dos negócios deve permitir maior foco tanto em sementes quanto em proteção de cultivos. No caso da Corteva, a proposta envolve acelerar a inovação e, ao mesmo tempo, ampliar os serviços oferecidos aos agricultores.
Segundo ela, entregar uma tecnologia não basta. O produtor também precisa de conhecimento para utilizá-la e, em determinadas situações, de ferramentas financeiras que permitam o acesso à solução.
Hoje, o campo reúne um conjunto cada vez mais complexo de tecnologias. Além de sementes e tratamentos de sementes, o produtor trabalha com defensivos químicos, produtos biológicos e diferentes ferramentas de manejo.
Por isso, a estratégia apresentada no painel combina inovação, capacitação, serviços e alternativas financeiras. O objetivo é transformar a tecnologia em uma solução para problemas específicos da propriedade.
A Corteva informou durante o painel que seu pipeline de inovação está avaliado em cerca de US$ 11 bilhões. A empresa prevê levar ao mercado 12 novos ingredientes ativos nos próximos dez anos. Desse total, sete terão mecanismos de ação inéditos, além de cinco novos produtos biológicos.
Entre as tecnologias citadas está o Keviza, fungicida desenvolvido para a ferrugem-asiática da soja e outras doenças de final de ciclo. Segundo Cunningham, trata-se do primeiro novo mecanismo de ação levado ao Brasil em mais de 14 anos.
Além disso, a estratégia inclui investimentos em empresas menores, parcerias com outras companhias e aquisições no segmento de biológicos. Com isso, a empresa pretende ampliar o acesso a tecnologias que não necessariamente desenvolveu internamente.

Crédito também entra na equação
O financiamento apareceu como outro ponto importante do painel. Segundo Cunningham, o barter já representa aproximadamente 45% da receita da Corteva no Brasil.
A ferramenta ganhou espaço diante das dificuldades de acesso ao crédito e das condições financeiras enfrentadas pelos produtores. Por isso, a empresa afirmou que pretende continuar buscando alternativas que facilitem o acesso dos agricultores às tecnologias.
Para Tiago Gontijo, que assumiu oficialmente a presidência do maior mercado da Corteva depois dos Estados Unidos, a realidade brasileira exige atenção específica.
Gontijo destacou as características da agricultura tropical, com pressão de doenças, pragas e plantas daninhas. Ao mesmo tempo, o clima permite duas safras e, em algumas regiões, até três.
Essa combinação aumenta a importância de ferramentas capazes de atender às necessidades específicas do produtor. Além disso, a empresa pretende ampliar a proximidade com o agricultor para compreender essa realidade.
O executivo também defendeu a combinação entre diferentes tecnologias, especialmente no caso de produtos químicos e biológicos.
Químicos e biológicos podem trabalhar juntos
Para Gontijo, a discussão não deve colocar produtos químicos e biológicos como alternativas necessariamente excludentes. A proposta apresentada no painel foi combinar as ferramentas para aproveitar características diferentes de cada tecnologia.
O Brasil aparece como um mercado relevante nesse cenário. Além da forte adoção de biológicos, o País apresenta condições agrícolas distintas das encontradas em outras regiões do mundo.
A Corteva citou duas estruturas instaladas no Estado de São Paulo. Em Mogi Mirim, está a maior estação integrada de pesquisa e desenvolvimento da companhia. Já Cosmópolis abriga, segundo a empresa, sua maior planta de biológicos.
A presença dessas estruturas no Brasil reforça a estratégia de desenvolver soluções adequadas às condições da agricultura tropical.
Brasil pode exportar conhecimento
Daltro também apontou o Brasil como uma espécie de laboratório para soluções que podem chegar a outros mercados.
A agricultura brasileira reúne diferentes escalas de produção, culturas e condições climáticas. Dessa forma, esse ambiente permite testar tecnologias e modelos de atendimento que podem ser adaptados para outros países.
O executivo citou mercados como México, Argentina e Paraguai, além de culturas diferentes das predominantes no Brasil.
A estratégia busca aproveitar o conhecimento acumulado na agricultura tropical brasileira para desenvolver soluções adaptáveis a outras realidades.
Além disso, Daltro destacou que uma mesma ferramenta não atende necessariamente da mesma maneira todos os hectares ou perfis de produtores.
A companhia trabalha com diferentes grupos de clientes, incluindo grandes empresas agrícolas, agricultores de venda direta e propriedades familiares. Cada realidade apresenta necessidades distintas, que vão do manejo agrícola a questões de sucessão e organização financeira.

Agricultura caminha para tratar cada planta
O painel também discutiu o avanço da agricultura de precisão e seus efeitos sobre a indústria de proteção de cultivos.
Guillaumon afirmou que a evolução da conectividade, da telemetria e das máquinas agrícolas permite um manejo cada vez mais localizado. Em vez de pensar apenas na aplicação de um produto por hectare, o produtor começa a trabalhar com intervenções direcionadas às plantas que realmente precisam de tratamento.
Essa mudança pode exigir uma transformação também nos produtos utilizados no campo. Com aplicações mais precisas, a indústria poderá desenvolver novas formulações, concentrações e formas de aplicação.
A discussão relacionou essa evolução ao aumento da conectividade no campo. O avanço da internet e das tecnologias embarcadas nas máquinas amplia a quantidade de informações disponíveis para a tomada de decisão.
Para Guillaumon, esse processo pode representar um novo salto tecnológico da agricultura. O setor já passou por diferentes ciclos de transformação, como o uso de fertilizantes, a hibridação e os transgênicos.
Agora, a combinação entre máquinas, conectividade, dados e produtos pode abrir uma nova etapa de precisão no manejo.
Nesse cenário, a separação dos negócios da Corteva aparece como parte da estratégia da companhia para aumentar o foco em proteção de cultivos e acelerar a inovação. O desafio, conforme discutido pelos participantes, é fazer com que essa tecnologia chegue ao produtor acompanhada de conhecimento, serviços e soluções compatíveis com a realidade de cada propriedade.