Pesquisa da Unesp usou DNA para identificar espécies encontradas em cargas apreendidas pelo Ibama
Foto: Fabio Porto-Foresti

Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo utilizou análise genética para confirmar a origem dos animais e revelou indícios do comércio internacional ilegal desses organismos marinhos.

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Os exemplares pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, encontradas naturalmente ao longo do litoral brasileiro e importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.

As análises foram realizadas em três apreensões feitas pelo Ibama em 2023. Duas cargas estavam em malas de passageiros com destino à China, enquanto a terceira seguiria para a Itália.

Difícil identificação

Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível.

A solução encontrada pelos pesquisadores foi o uso do DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular capaz de identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.

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Segundo a pesquisadora Auany Camila Fantinelli, a equipe precisou criar uma referência genética inédita para confirmar a identidade dos animais apreendidos.

“Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência.”

DNA desvenda origem de pepinos-do-mar apreendidos em esquema de comércio ilegal — Foto: flatwaterchris/iNaturalist – Isostichopus badionotus
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Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama — Foto: Fabio Porto-Foresti

Como a genética ajudou a identificar os animais

O DNA barcoding permite identificar espécies mesmo quando os organismos estão processados ou descaracterizados.

Embora a técnica não consiga apontar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados, ela oferece uma ferramenta importante para investigações ambientais e operações de fiscalização.

Os pesquisadores consideram altamente provável que os exemplares tenham sido capturados no litoral brasileiro, já que as duas espécies ocorrem naturalmente no país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.

Outro dado que chamou atenção foi o volume das cargas.

As três apreensões continham aproximadamente:

  • 1.500 pepinos-do-mar;
  • cerca de 500 indivíduos por mala ou caixa;
  • material destinado ao mercado internacional.

“Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido.”

Conheça o pepino-do-mar

Apesar de pouco conhecidos pelo público, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais para a saúde dos ambientes marinhos.

Esses animais reciclam os nutrientes, oxigenam os sedimentos e ajudam na decomposição de matéria orgânica.

Ao ingerirem o sedimento, processam a matéria orgânica e devolvem nutrientes ao ambiente, favorecendo a sobrevivência de microrganismos, crustáceos, vermes e diversas espécies que vivem no fundo do mar.

Segundo os pesquisadores, a retirada intensiva desses organismos pode comprometer a qualidade ambiental dos habitats costeiros.

“Não está em jogo apenas a sobrevivência das espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem desse serviço ecológico.”

Mercado internacional impulsiona a captura ilegal

A demanda por pepinos-do-mar é especialmente forte em países asiáticos.

O produto seco é comercializado como iguaria gastronômica e também utilizado na medicina tradicional chinesa, o que eleva significativamente seu valor no mercado internacional.

De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a atratividade econômica da captura ilegal e estimula a exploração de populações naturais.

As cargas analisadas tinham como destino principal a China, mas já existem registros de envios para outros países.

Espécies ainda sofrem com falta de monitoramento

As espécies identificadas são classificadas atualmente como Menos Preocupantes pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Ainda assim, os cientistas alertam que a classificação não significa ausência de risco.

A avaliação da espécie Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010.

Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN possuem classificação de dados insuficientes, evidenciando a escassez de informações científicas disponíveis.

No Brasil, não existe monitoramento contínuo das populações desses animais.