Resumo da notícia
- Pesquisa da Unesp identificou geneticamente duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas ilegais apreendidas no Aeroporto de Guarulhos, revelando comércio internacional ilegal desses animais marinhos.
- Os exemplares, das espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, foram encontrados em malas com destino à China e Itália, importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros brasileiros.
- O DNA barcoding permitiu identificar os pepinos-do-mar mesmo processados, criando uma referência genética inédita; apreensões totalizaram cerca de 1.500 indivíduos, indicando possível volume maior de tráfico.
Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo utilizou análise genética para confirmar a origem dos animais e revelou indícios do comércio internacional ilegal desses organismos marinhos.
Os exemplares pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, encontradas naturalmente ao longo do litoral brasileiro e importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.
As análises foram realizadas em três apreensões feitas pelo Ibama em 2023. Duas cargas estavam em malas de passageiros com destino à China, enquanto a terceira seguiria para a Itália.
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Difícil identificação
Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível.
A solução encontrada pelos pesquisadores foi o uso do DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular capaz de identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.
Segundo a pesquisadora Auany Camila Fantinelli, a equipe precisou criar uma referência genética inédita para confirmar a identidade dos animais apreendidos.
“Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência.”

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Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama — Foto: Fabio Porto-Foresti
Como a genética ajudou a identificar os animais
O DNA barcoding permite identificar espécies mesmo quando os organismos estão processados ou descaracterizados.
Embora a técnica não consiga apontar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados, ela oferece uma ferramenta importante para investigações ambientais e operações de fiscalização.
Os pesquisadores consideram altamente provável que os exemplares tenham sido capturados no litoral brasileiro, já que as duas espécies ocorrem naturalmente no país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.
Outro dado que chamou atenção foi o volume das cargas.
As três apreensões continham aproximadamente:
- 1.500 pepinos-do-mar;
- cerca de 500 indivíduos por mala ou caixa;
- material destinado ao mercado internacional.
“Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido.”
Conheça o pepino-do-mar
Apesar de pouco conhecidos pelo público, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais para a saúde dos ambientes marinhos.
Esses animais reciclam os nutrientes, oxigenam os sedimentos e ajudam na decomposição de matéria orgânica.
Ao ingerirem o sedimento, processam a matéria orgânica e devolvem nutrientes ao ambiente, favorecendo a sobrevivência de microrganismos, crustáceos, vermes e diversas espécies que vivem no fundo do mar.
Segundo os pesquisadores, a retirada intensiva desses organismos pode comprometer a qualidade ambiental dos habitats costeiros.
“Não está em jogo apenas a sobrevivência das espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem desse serviço ecológico.”
Mercado internacional impulsiona a captura ilegal
A demanda por pepinos-do-mar é especialmente forte em países asiáticos.
O produto seco é comercializado como iguaria gastronômica e também utilizado na medicina tradicional chinesa, o que eleva significativamente seu valor no mercado internacional.
De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a atratividade econômica da captura ilegal e estimula a exploração de populações naturais.
As cargas analisadas tinham como destino principal a China, mas já existem registros de envios para outros países.
Espécies ainda sofrem com falta de monitoramento
As espécies identificadas são classificadas atualmente como Menos Preocupantes pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Ainda assim, os cientistas alertam que a classificação não significa ausência de risco.
A avaliação da espécie Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010.
Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN possuem classificação de dados insuficientes, evidenciando a escassez de informações científicas disponíveis.
No Brasil, não existe monitoramento contínuo das populações desses animais.









