Resumo da notícia
- O preço elevado das terras agrícolas nos EUA, que alcança até US$ 20 mil por acre, contrasta com o custo mais baixo no Brasil, atraindo investimentos e ampliando a área cultivável brasileira.
- O Brasil superou os EUA em produção de soja em 2017, respondendo por 40% do mercado mundial, com expansão contínua impulsionada pela disponibilidade de terras e baixos custos.
- Nos EUA, a área agrícola diminui devido à alta dos preços e à ocupação por usinas solares, centros de dados e urbanização, enquanto o Brasil converte pastagens em lavouras, ampliando sua competitividade global.
A diferença no preço das terras agrícolas está redesenhando o mapa global da produção de alimentos. Enquanto o custo por hectare dispara nos Estados Unidos, o Brasil amplia sua área cultivável, atraindo investimentos e consolidando sua liderança na produção de soja.
Nos Estados Unidos, o preço médio das terras agrícolas atingiu US$ 5.830 por acre em 2025, recorde histórico. Em Iowa, um dos estados mais produtivos, o valor ultrapassa US$ 20 mil por acre. Já no Brasil, terras desenvolvidas custam cerca da metade e áreas ainda não usadas valem a partir de US$ 3 mil.
Essa diferença impulsiona uma migração de investimentos para mercados mais baratos e produtivos. “Não dá para falar em valor de terra sem olhar o cenário internacional”, observa Scott Gerlt, economista da Associação Americana de Soja (ASA). Segundo ele, foi justamente o baixo custo de terras brasileiras que transformou o país no principal exportador mundial de soja.
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Expansão brasileira é acelerada e consistente
O fazendeiro Matthew Kruse, de Iowa, investe no Brasil desde o início dos anos 2000, quando o hectare brasileiro custava até 15 vezes menos que em sua região. “Na época, o Brasil produzia cerca de 35 milhões de toneladas de soja. Agora deve alcançar 180 milhões. É um crescimento de 500% em 23 anos”, afirma.
O Brasil superou os EUA na produção de soja em 2017 e hoje responde por 40% do mercado global, segundo a ASA. A expectativa é que o país continue expandindo, enquanto os norte-americanos enfrentam limitações físicas e custo crescente. “Os EUA chegaram ao limite. Se algo muda, é para menos. O Brasil, ao contrário, aumenta sua fatia todos os anos”, explica Kruse.
Pressão tecnológica reduz a área agrícola dos EUA
Além dos preços altos, o avanço tecnológico contribui para a redução de terras agrícolas nos Estados Unidos. A expansão de usinas solares, centros de dados e projetos urbanos ocupa cada vez mais espaço rural. De acordo com a American Farmland Trust, se o ritmo continuar, o país pode perder 18 milhões de acres de área agrícola até 2050.
“Nos últimos 20 anos, a área de cultivo americana caiu 1,5% por causa da competição com projetos de bioenergia e urbanização”, afirma Joana Colussi, economista agrícola da Universidade Purdue. “No Brasil isso não acontece, porque há mais terra disponível.”
O Brasil converte rapidamente pastagens em lavouras. Em seis anos, o país aumentou a produção de soja em 40% e ainda tem potencial para converter mais 100 milhões de acres. Um aumento de 35% sobre a área atual.
Competitividade e impacto global
O custo da terra explica por que o produtor americano trabalha com margens menores. “O preço da soja nos EUA é mais alto porque a terra custa muito mais caro”, destaca Colussi.
Essa dinâmica influencia as decisões de grandes compradores, como a China, responsável por 60% do comércio global de soja, com mais de 100 milhões de toneladas importadas por ano. Segundo Chad Hart, economista da Universidade Estadual de Iowa, o aumento da capacidade brasileira dá aos chineses poder de negociação. “Eles podem escolher quem oferece o melhor preço. Isso é vantagem estratégica.”
Infraestrutura ainda diferencia os EUA
Os Estados Unidos mantêm vantagem em logística e infraestrutura agrícola, atributos que agregam valor à produção. “Não é só produzir, é conseguir transportar”, explica Todd Kuethe, da Purdue.
O sistema americano permite escoar grãos pelos rios e ferrovias até os portos, algo que o Brasil ainda tenta desenvolver. Aqui, o escoamento depende principalmente de caminhões, o que encarece o transporte. A ausência de seguro agrícola e a demora no crédito rural também aumentam o risco. “No Brasil, um empréstimo pode levar seis meses. Nos EUA, leva cinco dias”, compara Kruse.
Mesmo assim, investidores internacionais seguem de olho no potencial brasileiro. O Conselho Empresarial Brasil-China estima que, desde 2007, a China já investiu US$ 77,5 bilhões em logística, energia e agricultura no país. Esses aportes devem acelerar a competitividade brasileira nos próximos anos.
Encruzilhada para a agricultura americana
Enquanto o Brasil amplia sua presença global, os produtores norte-americanos enfrentam um dilema entre expansão e restrição ambiental. “Hoje, dependemos fortemente da demanda chinesa. Isso nos deixa vulneráveis”, diz Hart.
Com a disputa por espaço e o crescimento de rivais como o Brasil, o futuro da agricultura americana pode depender do quanto ela conseguirá inovar dentro de suas próprias limitações territoriais e políticas.