Produtos afetam fungos simbiontes responsáveis pela nutrição das larvas. Resultados indicam risco para colônias e reforçam necessidade de revisão nos testes
Foto: Cristiano Menezes / Embrapa

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente (SP) revelou que fungicidas amplamente utilizados na agricultura podem comprometer microrganismos fundamentais para o desenvolvimento de abelhas sem ferrão. O estudo avaliou os efeitos de um fungicida químico e outro biológico sobre o complexo fúngico presente no alimento larval da espécie Scaptotrigona depilis.

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Os cientistas identificaram que ambos os produtos interferem nos fungos simbiontes responsáveis pela digestão e pelo fornecimento de nutrientes às larvas. Esses microrganismos mantêm uma relação mutualística com as abelhas, sendo indispensáveis para a saúde e o crescimento das colônias.

Embora o impacto de inseticidas sobre polinizadores já seja amplamente conhecido, os resultados chamam atenção para os efeitos dos fungicidas, frequentemente considerados menos nocivos. O estudo demonstra que esses produtos também podem afetar organismos essenciais à sobrevivência das abelhas.

A pesquisadora Simone Prado explica que a equipe testou diferentes concentrações dos fungicidas e monitorou o desenvolvimento dos fungos por meio da contagem de esporos e análises moleculares. Os testes focaram na presença de dois simbiontes-chave: Monascus ruber e Zygosaccharomyces sp.

Resultados

Os resultados indicaram respostas distintas entre os produtos. No caso do fungicida biológico, concentrações intermediárias estimularam o crescimento fúngico. Doses de 0,2 g/L e 0,66 g/L aumentaram a esporulação em relação ao grupo de controle, sugerindo que o produto pode favorecer o desenvolvimento dos simbiontes em determinadas condições.

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Por outro lado, concentrações mais altas do fungicida biológico reduziram o crescimento dos fungos, o que evidencia que até insumos considerados mais sustentáveis podem gerar impactos negativos quando usados em excesso.

Já o fungicida químico apresentou efeitos mais severos. A partir de 2 g/L, o produto inibiu completamente a esporulação dos fungos no alimento larval. As análises moleculares confirmaram a ausência dos simbiontes nas maiores doses, indicando a eliminação total do complexo fúngico.

Segundo a pesquisadora Jenifer Ramos, as doses utilizadas seguiram as recomendações de campo para garantir relevância agronômica e ecológica. Ela ressalta que as concentrações dos dois produtos não são diretamente comparáveis, devido às diferenças nas formulações e nos níveis de ingrediente ativo.

Os pesquisadores alertam que o uso indiscriminado de fungicidas químicos pode comprometer relações simbióticas essenciais. Portanto, mesmo sem causar mortalidade imediata, esses produtos afetam processos críticos, como o desenvolvimento larval e a manutenção das colônias.

Fungicida biológico

Em contrapartida, o fungicida biológico demonstrou menor impacto geral, mantendo os microrganismos mesmo em concentrações elevadas. O resultado sugere que alternativas biológicas podem contribuir para a conservação de polinizadores e práticas agrícolas mais sustentáveis.

Cristiano Menezes, também da Embrapa Meio Ambiente, destaca a importância de aprimorar os ensaios ecotoxicológicos. Ele defende a inclusão de abelhas nativas nos testes, que atualmente utilizam apenas espécies exóticas. Além disso, propõe a exigência de avaliações específicas para fungicidas e produtos biológicos, hoje restritas a inseticidas químicos.

Além disso, segundo o pesquisador, proteger os microrganismos associados às abelhas é essencial para garantir sua nutrição, saúde e, consequentemente, a manutenção dos serviços de polinização,fundamentais para a agricultura e o equilíbrio dos ecossistemas.