Resumo da notícia
- O inverno reduz a temperatura da água, desacelerando o metabolismo dos peixes e tornando-os menos ativos, o que dificulta a alimentação e a pesca durante a estação.
- Peixes se concentram em áreas mais profundas, próximas à termoclina, exigindo o uso de sonar e técnicas de pesca de precisão com iscas de fundo e movimentos lentos.
- Algumas espécies, como traíra, dourado e pacu, permanecem mais ativas no frio, enquanto o manuseio cuidadoso é essencial para evitar exaustão metabólica nos peixes capturados.
O inverno já completou um mês no Brasil. A estação derruba as temperaturas e transforma o comportamento dos peixes, exigindo dos pescadores mais atenção e novas estratégias.
O Instituto de Pesca (IP-APTA), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, alerta que os meses frios provocam alterações no metabolismo dos peixes. A queda na temperatura da água reduz a atividade e a movimentação das espécies, o que impacta diretamente sua alimentação e distribuição nos ambientes aquáticos.
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Por que os peixes ficam mais lentos no frio
O pesquisador do IP, Eduardo Onaka, explica o fenômeno: “com a redução do metabolismo, os peixes passam a gastar menos energia e diminuem a frequência de alimentação. Como consequência, tendem a ignorar o oferecimento de iscas e permanecem por mais tempo em áreas onde encontram melhores condições de temperatura, tornando a pescaria mais desafiadora durante o inverno”.
A água do ambiente determina a temperatura corporal dos peixes, já que eles não contam com mecanismos internos de regulação térmica. Por isso, a temperatura da água funciona como fator limitante direto da taxa metabólica do animal. No verão, o calor acelera o metabolismo: o peixe digere rápido e precisa comer com frequência. No inverno, o frio inverte esse quadro. O organismo desacelera, a digestão demora mais e o intervalo entre as refeições aumenta.

Durante o inverno, o peixe entra em regime de conservação energética. Ele seleciona as presas com base no custo-benefício: ataca somente quando o gasto para capturar a isca compensa, ou seja, quando ela está próxima e se desloca devagar. A recuperação pós-exercício também se prolonga significativamente, o que exige manuseio mais cuidadoso na prática do pesque-e-solte. O cuidado extra evita a morte do peixe por exaustão metabólica.
Estratégias de pesca para o inverno
A pesca de barranco praticamente perde a eficácia no inverno, já que os peixes se afastam da zona rasa. Na pesca embarcada, o sonar se torna ferramenta indispensável: ele localiza estruturas submersas e revela a profundidade em que os cardumes se concentram. O pescador deve apresentar a isca no fundo ou logo acima da termoclina, a camada onde a temperatura muda bruscamente em um curto espaço de profundidade, pois ali se concentra a maior parte dos peixes.
Onaka recomenda a chamada pesca de precisão: identificar os pontos propícios e insistir neles, apresentando a isca repetidamente no mesmo local. Iscas de superfície, que geram alto impacto sensorial, perdem eficácia no frio. Já iscas de fundo, trabalhadas em velocidade reduzida e com pausas longas, rendem melhores resultados.
Espécies mais ativas no frio
Apesar da queda geral na atividade, algumas espécies toleram melhor as baixas temperaturas e continuam ativas durante o inverno. Entre os peixes de água doce resistentes ao frio estão a traíra, o dourado, o pacu, a corvina, as carpas (todas as variedades) e os bagres em geral, como jundiá, pintado, cachara, barbado e mandi.
O horário da pescaria também interfere nos resultados. Entre o fim da manhã e o meio da tarde, a água recebe mais sol e os peixes ficam mais ativos. Por isso, esse período costuma render mais capturas. Além do horário certo, a escolha de técnicas e iscas adequadas à estação aumenta as chances de uma pescaria produtiva.

Enquanto rios e lagos de água doce enfrentam peixes mais escassos e lentos, o litoral da região Sudeste vive o oposto: o inverno marca a fartura. Dois fenômenos explicam esse fluxo: a ressurgência, quando ventos de frentes frias trazem à superfície uma corrente de água profunda, gelada e rica em nutrientes; e a migração pelo frio, quando espécies do Sul do país se deslocam rumo ao Sudeste. Tainha, anchova, sororoca, bonito-listrado e pargo figuram entre os peixes mais aguardados da temporada.
Como adaptar a técnica de pesca ao frio
“No inverno, as águas ficam mais transparentes e os peixes se comportam de forma mais lenta e discreta. Para garantir o sucesso da pescaria nesta época, os pescadores precisam adaptar suas técnicas”, afirma Onaka. O pesquisador reuniu quatro orientações práticas para essa fase do ano:
- Aposte em linhas invisíveis: como a água fica mais transparente, escolha um líder de fluorcarbono mais fino e comprido (pelo menos 1,5 metro) para a extremidade da linha, evitando que o peixe perceba a armadilha.
- Leve a isca até o fundo: os peixes se concentram perto do fundo no inverno. Utilize iscas de metal ou chumbadas mais pesadas para garantir que a isca alcance a profundidade certa.
- Recolha a linha devagar: ao usar iscas artificiais, faça o recolhimento bem lento. No frio, a fisgada do peixe não vem como uma batida explosiva — a linha simplesmente fica “pesada” durante as pausas.
- Explore o olfato dos peixes: mesmo no frio, o olfato continua funcionando bem. Use iscas naturais com cheiro forte ou aplique atrativos em gel nas iscas artificiais para atrair os peixes de longe.








