Resumo da notícia
- A horta urbana em Xerém, idealizada por Louiz Carlos e apoiada por Zeca Pagodinho, transformou 8 mil m² de pasto em um espaço produtivo com mais de 11 mil mudas de hortaliças e frutas.
- O projeto prevê gerar até 40 toneladas de alimentos por ano, distribuindo parte gratuitamente e vendendo outra para garantir renda a agricultores locais.
- Com suporte técnico da Embrapa e UFRRJ, a iniciativa promove capacitação e integra políticas públicas, fortalecendo a agricultura urbana e a economia solidária na região.
Há pouco mais de um ano, um terreno de 8 mil metros quadrados que servia apenas de pasto em Xerém, distrito de Duque de Caxias, ganhou uma nova função. Foi ali que o cantor Zeca Pagodinho cedeu espaço para a criação da Horta Urbana Xerém I, a primeira horta urbana comunitária do distrito. Desde então, o projeto não parou de crescer.
Como tudo começou
A iniciativa partiu do filho do sambista, Louiz Carlos da Silva, que enxergou no terreno uma oportunidade concreta de gerar renda e alimento para a comunidade local. Além disso, encontrou no pai um aliado para o projeto, já que Zeca sempre teve o hábito de compartilhar o que produzia em seu próprio quintal.
“A vida tem que ser assim, ninguém pode viver sozinho. Tem que ser tudo dividido. É a vida, dividir o que eu ganhei.”

(Foto: Reprodução/Ana Branco)
Onze mil mudas
Atualmente, o espaço reúne mais de 11 mil mudas de hortaliças, entre abóbora, acelga, alface, beterraba, brócolis, rúcula, quiabo e salsa. Além dessas culturas de ciclo curto, também foram plantadas mais de 50 espécies de árvores frutíferas, como acerola, jabuticaba, carambola, manga e laranja Bahia.
Essa diversidade, aliás, não é aleatória: o cultivo variado garante colheita ao longo de praticamente todo o ano.
Enquanto a produção plena ainda não é alcançada, a estimativa é que a horta chegue a gerar até 40 toneladas de alimentos por ano quando estiver totalmente estruturada. Desse total, uma parte será distribuída gratuitamente para famílias cadastradas, creches e escolas públicas da região. Já outra parcela entra no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Prefeitura de Duque de Caxias, o que, consequentemente, garante renda para quem trabalha diretamente na terra.
A base técnica por trás do samba
Para que o projeto funcionasse com consistência, no entanto, foi necessário apoio técnico especializado. Por isso, o Instituto Zeca Pagodinho firmou parceria com a Embrapa Agrobiologia e com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), instituições responsáveis por capacitação e suporte agronômico contínuo.
A unidade, batizada de “Quintal Produtivo”, integra ainda a Política Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).

Uma nova turma, um novo capítulo
Recentemente, a UFRRJ concluiu o curso Agricultura Urbana e Economia Solidária na Baixada (AUP-Baixada), com cerimônia de formatura realizada na própria sede do Instituto Zeca Pagodinho.
Ao todo, 21 novos agricultores urbanos e periurbanos foram formados — e, entre eles, as mulheres representaram 70% do grupo de concluintes. Além disso, por demanda da própria comunidade, o curso teve como foco a produção de plantas medicinais e fitoterápicos, voltados à saúde física e emocional dos participantes.
Já almoçou?
Segundo dados do IBGE, em 2023 cerca de 1,2 milhão de pessoas no Rio de Janeiro viviam em situação de insegurança alimentar. No Brasil como um todo, 9% dos domicílios ainda enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, mesmo depois de o país sair oficialmente do Mapa da Fome da ONU.
“Quando chegamos a Xerém, era tudo barro, poucas famílias, e muita gente passando necessidade. Para todo mundo que entra no sítio, eu pergunto: ‘Já almoçou?’ Pobre, rico, polícia, otário, malandro… todo mundo come”, contou o artista.
Em julho de 2024, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, visitou o Instituto Zeca Pagodinho para firmar o acordo que viabilizou a iniciativa. Na ocasião, ele resumiu bem o que estava em jogo:
“Alimentar é um verbo que o Brasil está precisando utilizar, e a gente conjuga a partir daqui, com o Instituto Zeca Pagodinho.”
Há mais de 20 anos, o cantor já emprestava a voz para o tema em ‘Caviar’, composição do Trio Calafrio que ele gravou e tornou popular, na qual descrevia o contraste entre o luxo da “comida de rico” e a fome que bastava um olhar ao lado para encontrar. Hoje, décadas depois, o sambista trocou o verso pela prática.









