Introduzidos nos canaviais no século XIX, os predadores não controlaram os ratos como esperado e passaram a ameaçar a fauna e a saúde pública
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Foto: Flowcomm/Flickr

No século XIX, produtores de cana-de-açúcar do Caribe levaram mangustos para as plantações na tentativa de controlar os ratos que atacavam as lavouras. Em Porto Rico, os animais chegaram entre 1877 e 1879. Cerca de 150 anos depois, a espécie continua espalhada pela ilha e se tornou o principal reservatório de raiva entre os mamíferos terrestres locais.

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A história mostra como uma estratégia criada para resolver um problema agrícola pode produzir consequências inesperadas quando um predador é levado para um ambiente onde não existia originalmente.

O mangusto chegou aos canaviais para combater ratos

Durante o século XIX, produtores de açúcar buscavam maneiras de reduzir os prejuízos provocados pelos ratos. Por isso, autoridades e proprietários de plantações passaram a utilizar o mangusto indiano como agente de controle biológico em diferentes ilhas do Caribe.

A ideia parecia simples: introduzir um predador para diminuir a quantidade de roedores nas lavouras.

Na prática, porém, a estratégia não funcionou como esperado. Os mangustos costumam procurar alimento durante o dia, enquanto os ratos que atacavam os canaviais apresentavam atividade principalmente à noite. Assim, predador e presa nem sempre se encontravam.

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Estudos posteriores indicaram que a introdução dos animais não conseguiu controlar adequadamente as populações de ratos.

O predador encontrou outras fontes de alimento

Quando os ratos não estavam disponíveis, os mangustos procuraram outras presas. A espécie tem hábitos oportunistas e consegue explorar diferentes fontes de alimento.

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Foto: Flowcomm/Flickr

Em Porto Rico, pesquisadores registraram impactos sobre animais nativos. O USDA aponta o mangusto como predador de aves que fazem ninhos no solo e de lagartos, entre outros animais.

Com o tempo, portanto, o animal que chegou aos canaviais para combater uma praga passou a ser considerado uma espécie invasora.

A raiva mudou o problema de escala

A questão ganhou outra dimensão décadas depois. Em 1950, pesquisadores registraram a presença de raiva em mangustos em Porto Rico. Desde então, o vírus passou a circular entre esses animais.

O CDC considera o mangusto o principal reservatório da doença na ilha. Em um relatório sobre um caso humano registrado em 2015, a agência informou que os mangustos respondiam por quase 75% dos casos de raiva animal registrados em Porto Rico.

O órgão também alerta que mais de 80% dos mangustos envolvidos em exposições de pessoas ou animais de estimação apresentam raiva. Esse percentual, entretanto, não representa a população inteira: ele se refere especificamente aos animais envolvidos nesses episódios.

Quatro em cada dez apresentaram sinais de exposição

Um estudo analisou 112 mangustos capturados em El Yunque National Forest e no Cabo Rojo National Wildlife Refuge. Os pesquisadores encontraram anticorpos neutralizantes contra o vírus da raiva em 44 animais, o equivalente a 39,3% da amostra.

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Foto: Flowcomm/Flickr

Esse resultado precisa de uma ressalva. Os anticorpos mostram que os animais tiveram contato com o vírus, mas não comprovam que eles estavam com raiva ativa no momento da coleta.

Além disso, os pesquisadores não encontraram RNA do vírus nas amostras orais analisadas. Por isso, o percentual indica exposição ao agente infeccioso, e não a proporção de animais atualmente doentes.

Uma mordida revelou o risco para humanos

Em outubro de 2015, um homem de 54 anos do sudeste de Porto Rico foi mordido por um mangusto enquanto cuidava de um galinheiro. Ele não procurou atendimento médico depois do contato.

Semanas depois, o homem apresentou febre, dificuldade para engolir e outros sintomas. O quadro piorou e ele morreu após uma parada cardíaca.

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Foto: Flowcomm/Flickr

Exames realizados depois da morte confirmaram a infecção por raiva e identificaram uma variante do vírus associada aos mangustos do Caribe. Segundo o CDC, esse foi o primeiro caso de raiva humana associado a uma mordida de mangusto registrado nos Estados Unidos ou em seus territórios.

A pesquisa tenta controlar o problema

Hoje, o objetivo mudou completamente. Pesquisadores procuram maneiras de reduzir a circulação do vírus entre os mangustos sem depender apenas da captura dos animais.

Uma das possibilidades é a vacinação oral. O CDC aponta que iscas contendo vacina podem ajudar no controle da raiva em populações de mangustos, caso estejam disponíveis para essa finalidade.

A pesquisa tenta, assim, administrar uma consequência que começou com uma decisão agrícola do século XIX. O mangusto chegou a Porto Rico para combater uma praga nos canaviais, mas não controlou os ratos como esperado. Em vez disso, encontrou condições para permanecer na ilha e passou a participar do ciclo de uma doença que ainda exige monitoramento.