País asiático lidera produção mundial de pirapitinga, espécie nativa da Amazônia
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A pirapitinga, também chamada de caranha ou pacu-negro, é um grande peixe de água doce nativo da Bacia Amazônica (Foto: Jin Kemoole/Flickr)

Um peixe brasileiro que conquistou espaço na aquicultura chinesa acaba de ter seu código genético desvendado em detalhes. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) mapearam, pela primeira vez, o genoma completo da pirapitinga (Piaractus brachypomus) em nível cromossômico.

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O avanço, realizado em parceria com cientistas da China, pode abrir caminho para novas estratégias de melhoramento genético, aumento da produtividade e maior eficiência na criação do peixe.

Os resultados da pesquisa foram publicados em julho de 2026, na revista científica Scientific Data. O estudo alcançou 99,8% de completude no índice BUSCO (Benchmarking Universal Single-Copy Orthologs), o que indica a alta qualidade e confiabilidade dos dados.

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(Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar)

Peixe amazônico faz sucesso com os chineses

A China lidera a produção mundial de organismos aquáticos destinados ao consumo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o país produziu, em 2023, mais de 55 milhões de toneladas por meio da aquicultura. O volume inclui peixes, camarões, moluscos e algas.

No mesmo ano, o Brasil produziu 792 mil toneladas, o equivalente a apenas 1,44% do volume registrado pela China. Apesar da enorme produção, o mercado chinês ainda depende de espécies introduzidas: cerca de 8% dos peixes consumidos no país não são nativos. Entre eles estão salmão, truta, tilápia e a própria pirapitinga.

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Nativa da Amazônia, a pirapitinga chegou ao território chinês a partir de Hong Kong, em 1985. A origem exata da introdução, porém, ainda não foi esclarecida. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que os primeiros exemplares tenham sido levados ao país com finalidade ornamental, já que o peixe apresenta características físicas semelhantes às das piranhas.

No entanto, no Brasil, o cenário é praticamente o oposto. Espécies não nativas respondem por cerca de 65% da produção aquícola, com a tilápia, originária da África, na liderança do mercado nacional. O cultivo se concentra principalmente em estados como Paraná e São Paulo, que estão entre os maiores produtores do país.

Como surgiu a pesquisa

A pesquisadora Ivana Felipe da Rosa, do Instituto de Biociências (IB) da Unesp, em Botucatu, realizou o mapeamento genômico durante o doutorado em Biologia Geral e Aplicada, sob orientação do professor Rafael H. Nóbrega. O estudo, porém, nasceu de uma investigação com outro foco: compreender o desenvolvimento reprodutivo do pacu (Piaractus mesopotamicus), peixe de água doce nativo do Brasil.

O rumo da pesquisa mudou após Rosa conquistar uma bolsa de estudos na Academia Chinesa de Ciências da Pesca, em Shandong. Para aprofundar o trabalho, ela precisava de um genoma de referência, recurso que ainda é escasso entre espécies brasileiras.

Foi justamente essa lacuna que levou a pesquisadora até a pirapitinga (Piaractus brachypomus). Parente próxima do pacu, a espécie estava disponível na China e tinha importância direta para a aquicultura do país.

“O genoma serve como base para outros estudos. Ele abre portas para você compreender mais a fundo a localização dos genes, quais são as suas funções e como esses genes podem atuar em determinados tecidos”, explica Rosa.

O que o mapeamento genético pode mudar?

O mapeamento completo do genoma permite aos pesquisadores investigar genes associados a características de interesse para a aquicultura, como crescimento acelerado, tolerância a diferentes temperaturas e resistência a doenças. Com essas informações, será possível desenvolver programas de melhoramento genético mais precisos, selecionando indivíduos com características desejáveis e, consequentemente, aumentando o potencial produtivo da pirapitinga em cativeiro.

Além disso, o avanço também pode trazer benefícios para o meio ambiente. Ao ampliar o conhecimento e o potencial de produção de espécies nativas, a pesquisa contribui para reduzir a dependência de peixes exóticos na aquicultura. Essa dependência representa um desafio ambiental, já que fugas de espécies não nativas podem favorecer a formação de populações invasoras e ameaçar os ecossistemas locais.

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FAO mapeia os principais produtores de animais aquáticos mundiais (Foto: Divulgação/Unesp/FAO)

Parceria Brasil e China

Para Rosa, o Brasil tem uma biodiversidade aquática muito ampla, especialmente por causa da Bacia Amazônica, mas ainda investe menos em tecnologia para a aquicultura do que a China. A pesquisadora destaca que muitas espécies brasileiras ainda são pouco estudadas e poderiam ganhar espaço na produção.

“O investimento da China nessa parte da aquicultura é brutal. Por mais que sejam consumidores de carne, a alimentação base deles é composta de peixes e algas. No Brasil, acredito que exista um direcionamento maior para a produção de gado. Mas nós temos biodiversidade, temos invertebrados e vertebrados que poderiam ser mais explorados”, afirma.

Diogo Teruo Hashimoto, especialista em genética aplicada à aquicultura do Centro de Aquicultura da Unesp (CAUNESP), em Jaboticabal, também enxerga potencial de troca tecnológica nos dois sentidos. Segundo ele, métodos desenvolvidos no Brasil podem beneficiar a produção chinesa, assim como tecnologias orientais podem chegar ao mercado brasileiro.

“Eu tenho trabalhado em uma área de fronteira do conhecimento chamada fenômica, que é o uso de inteligência artificial nos programas de melhoramento genético. E tenho um parceiro da China que também está desenvolvendo IA para alcançar uma genética de precisão. Com essa colaboração, acredito que iremos conseguir chegar mais longe”, conclui Hashimoto.