Resumo da notícia
- A Unesp, em parceria com cientistas chineses, mapeou o genoma completo da pirapitinga, potencializando o melhoramento genético e a produtividade dessa espécie na aquicultura, especialmente na China.
- O estudo obteve alta confiabilidade, com índice BUSCO de 99,8%, e foi publicado na revista Scientific Data em julho de 2026, destacando-se pela completude dos dados genômicos.
- A pirapitinga, peixe brasileiro introduzido na China na década de 1980, ganhou relevância na aquicultura chinesa, enquanto no Brasil ainda tem espaço reduzido, apesar de seu potencial produtivo.
Um peixe brasileiro que conquistou espaço na aquicultura chinesa acaba de ter seu código genético desvendado em detalhes. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) mapearam, pela primeira vez, o genoma completo da pirapitinga (Piaractus brachypomus) em nível cromossômico.
O avanço, realizado em parceria com cientistas da China, pode abrir caminho para novas estratégias de melhoramento genético, aumento da produtividade e maior eficiência na criação do peixe.
Os resultados da pesquisa foram publicados em julho de 2026, na revista científica Scientific Data. O estudo alcançou 99,8% de completude no índice BUSCO (Benchmarking Universal Single-Copy Orthologs), o que indica a alta qualidade e confiabilidade dos dados.

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Peixe amazônico faz sucesso com os chineses
A China lidera a produção mundial de organismos aquáticos destinados ao consumo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o país produziu, em 2023, mais de 55 milhões de toneladas por meio da aquicultura. O volume inclui peixes, camarões, moluscos e algas.
No mesmo ano, o Brasil produziu 792 mil toneladas, o equivalente a apenas 1,44% do volume registrado pela China. Apesar da enorme produção, o mercado chinês ainda depende de espécies introduzidas: cerca de 8% dos peixes consumidos no país não são nativos. Entre eles estão salmão, truta, tilápia e a própria pirapitinga.

Nativa da Amazônia, a pirapitinga chegou ao território chinês a partir de Hong Kong, em 1985. A origem exata da introdução, porém, ainda não foi esclarecida. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que os primeiros exemplares tenham sido levados ao país com finalidade ornamental, já que o peixe apresenta características físicas semelhantes às das piranhas.
No entanto, no Brasil, o cenário é praticamente o oposto. Espécies não nativas respondem por cerca de 65% da produção aquícola, com a tilápia, originária da África, na liderança do mercado nacional. O cultivo se concentra principalmente em estados como Paraná e São Paulo, que estão entre os maiores produtores do país.
Como surgiu a pesquisa
A pesquisadora Ivana Felipe da Rosa, do Instituto de Biociências (IB) da Unesp, em Botucatu, realizou o mapeamento genômico durante o doutorado em Biologia Geral e Aplicada, sob orientação do professor Rafael H. Nóbrega. O estudo, porém, nasceu de uma investigação com outro foco: compreender o desenvolvimento reprodutivo do pacu (Piaractus mesopotamicus), peixe de água doce nativo do Brasil.
O rumo da pesquisa mudou após Rosa conquistar uma bolsa de estudos na Academia Chinesa de Ciências da Pesca, em Shandong. Para aprofundar o trabalho, ela precisava de um genoma de referência, recurso que ainda é escasso entre espécies brasileiras.
Foi justamente essa lacuna que levou a pesquisadora até a pirapitinga (Piaractus brachypomus). Parente próxima do pacu, a espécie estava disponível na China e tinha importância direta para a aquicultura do país.
“O genoma serve como base para outros estudos. Ele abre portas para você compreender mais a fundo a localização dos genes, quais são as suas funções e como esses genes podem atuar em determinados tecidos”, explica Rosa.
O que o mapeamento genético pode mudar?
O mapeamento completo do genoma permite aos pesquisadores investigar genes associados a características de interesse para a aquicultura, como crescimento acelerado, tolerância a diferentes temperaturas e resistência a doenças. Com essas informações, será possível desenvolver programas de melhoramento genético mais precisos, selecionando indivíduos com características desejáveis e, consequentemente, aumentando o potencial produtivo da pirapitinga em cativeiro.
Além disso, o avanço também pode trazer benefícios para o meio ambiente. Ao ampliar o conhecimento e o potencial de produção de espécies nativas, a pesquisa contribui para reduzir a dependência de peixes exóticos na aquicultura. Essa dependência representa um desafio ambiental, já que fugas de espécies não nativas podem favorecer a formação de populações invasoras e ameaçar os ecossistemas locais.

Parceria Brasil e China
Para Rosa, o Brasil tem uma biodiversidade aquática muito ampla, especialmente por causa da Bacia Amazônica, mas ainda investe menos em tecnologia para a aquicultura do que a China. A pesquisadora destaca que muitas espécies brasileiras ainda são pouco estudadas e poderiam ganhar espaço na produção.
“O investimento da China nessa parte da aquicultura é brutal. Por mais que sejam consumidores de carne, a alimentação base deles é composta de peixes e algas. No Brasil, acredito que exista um direcionamento maior para a produção de gado. Mas nós temos biodiversidade, temos invertebrados e vertebrados que poderiam ser mais explorados”, afirma.
Diogo Teruo Hashimoto, especialista em genética aplicada à aquicultura do Centro de Aquicultura da Unesp (CAUNESP), em Jaboticabal, também enxerga potencial de troca tecnológica nos dois sentidos. Segundo ele, métodos desenvolvidos no Brasil podem beneficiar a produção chinesa, assim como tecnologias orientais podem chegar ao mercado brasileiro.
“Eu tenho trabalhado em uma área de fronteira do conhecimento chamada fenômica, que é o uso de inteligência artificial nos programas de melhoramento genético. E tenho um parceiro da China que também está desenvolvendo IA para alcançar uma genética de precisão. Com essa colaboração, acredito que iremos conseguir chegar mais longe”, conclui Hashimoto.