Caso confirmado em bezerro de verme da bicheira no condado de Zavala reacende temores sobre uma praga ausente do país desde os anos 1960
Bois no pasto
Foto: Epagri

Autoridades americanas confirmaram o primeiro caso do verme da bicheira do Novo Mundo (screwworm) em solo americano em seis décadas. O diagnóstico positivo veio de uma amostra colhida em um bezerro de três semanas de idade em La Pryor, no condado de Zavala, próximo à fronteira com o México. A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, anunciou o caso durante coletiva de imprensa em 3 de junho.

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A mosca, que deposita seus ovos em ferimentos abertos de animais vivos, representa uma ameaça direta à indústria pecuária do Texas, avaliada em cerca de US$ 15 bilhões por ano. Até o momento, as autoridades não registraram novos casos, mas o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já mobilizou equipes em campo e trabalha em conjunto com parceiros locais para conter um possível avanço da praga.

O órgão reforçou que a bicheira não contamina carne, frutas ou vegetais e não deve afetar diretamente a cadeia de abastecimento de alimentos. Ainda assim, estimativas do próprio USDA apontam que um surto pode gerar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão apenas no Texas, pressionando ainda mais os preços da carne bovina, que já operam em patamares recordes.

O que é o verme da bicheira?

O verme da bicheira do Novo Mundo pertence a uma espécie de mosca varejeira que se diferencia das demais por depositar ovos em tecido vivo, e não em matéria em decomposição. Pequenos ferimentos, como picadas de carrapato, já atraem as fêmeas, que podem depositar entre 200 e 300 ovos por vez. E até 3 mil ao longo de uma vida que dura entre 10 e 30 dias.

As bicheiras do Novo Mundo são a forma larval carnívora de Cochliomyia hominivorax, uma espécie de mosca varejeira — Foto: Michael Miller/Texas A&M

Após a eclosão, as larvas penetram na ferida e se alimentam da carne viva do hospedeiro. No estágio final de desenvolvimento, elas formam estruturas semelhantes a ganchos e se aprofundam ainda mais no tecido, o que originou o nome “screwworm” (verme parafuso, em tradução livre). Depois de cerca de sete dias se alimentando, as larvas caem no solo, se enterram e emergem como moscas adultas, reiniciando o ciclo.

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Infestações múltiplas costumam ocorrer na mesma ferida, com larvas em diferentes estágios de desenvolvimento, o que acelera a destruição dos tecidos.

Historicamente, a praga concentrava sua presença na América do Sul e em partes do Caribe. Desde 2023, porém, ela vem avançando para o norte, atravessando a América Central até chegar ao México, movimento que levou as autoridades a intensificar o monitoramento a partir do ano seguinte.

A praga pode infectar humanos e animais domésticos?

A maior parte dos casos atinge mamíferos como bovinos, animais domésticos e fauna silvestre, mas humanos também podem ser infectados.

Cães e gatos apresentam vulnerabilidade especial, já que pequenos ferimentos já são suficientes para atrair as moscas. O Texas Farm Bureau recomenda que tutores inspecionem os animais diariamente, com atenção redobrada a áreas com picadas antigas, mau cheiro, lesões visíveis ou sinais de larvas. A entidade também orienta que os tutores avaliem o ambiente onde os pets circulam, evitando objetos que possam causar ferimentos, como cercas de arame ou vegetação cortante. Sem tratamento, a infestação pode matar o animal rapidamente.

Em humanos, os casos permanecem raros e costumam estar associados a viagens para regiões onde a praga é comum, como América do Sul, Cuba, Haiti e República Dominicana. Pequenos ferimentos, picadas de insetos e até incisões cirúrgicas podem servir de porta de entrada, e a infestação também pode atingir nariz, boca e olhos. Entre os sinais estão feridas que não cicatrizam, dor, sangramento e, em alguns casos, a sensação de movimento causada pela presença das larvas. A prevenção passa por manter feridas limpas e cobertas e usar roupas que protejam a pele.

Por que a bicheira preocupa tanto o setor pecuário?

A presença do verme em um animal provoca danos severos, já que o ciclo contínuo de deposição de ovos amplia progressivamente a ferida e pode levar o animal à morte. Mesmo quando o animal sobrevive, a infestação costuma deixar prejuízos significativos à saúde e ao couro.

vaca leiteira

Os bovinos enfrentam risco particularmente alto, pois não conseguem proteger feridas abertas e seu porte físico permite o surgimento de múltiplos focos de infestação simultâneos.

Embora os Estados Unidos tenham erradicado a praga na década de 1960, um ressurgimento entre 1972 e 1976 afetou dezenas de milhares de animais em seis estados e gerou custos milionários ao setor. Produtores americanos não enfrentam essa praga há mais de 40 anos, fator que aumenta a vulnerabilidade atual do setor. O Texas, maior produtor de bovinos do país, movimenta cerca de US$ 15 bilhões por ano com a atividade.

Como a praga chegou até o Texas?

A disseminação pela América Central ocorreu de forma rápida, avançando centenas de quilômetros em poucas semanas. Especialistas acreditam que esse deslocamento não se deu apenas por vias naturais, mas também por meio do transporte de animais já infestados. Uma hipótese reforçada pelo fato de a praga não tolerar bem climas muito secos, quentes ou frios por longos períodos.

Após a confirmação de casos no México em novembro de 2024, os Estados Unidos chegaram a fechar a importação de gado vivo pela fronteira sul, medida que também impactou a oferta no Texas. As restrições passaram por ajustes ao longo de 2025. Até o momento, as autoridades ainda não determinaram exatamente como a infestação chegou ao sul do estado.

Quais medidas as autoridades estão adotando?

O governo federal já investiu US$ 100 milhões em pesquisas, armadilhas e reforço da vigilância na fronteira. A principal estratégia de combate continua sendo a técnica do inseto estéril: machos esterilizados são liberados no ambiente para cruzar com fêmeas, gerando ovos inviáveis e reduzindo gradualmente a população da praga. O método já provou eficácia ao longo de décadas, com base operacional no Panamá.

Novas instalações estão em implementação no México e no Texas, incluindo centros de dispersão de moscas estéreis. As autoridades também estabeleceram uma zona de quarentena e intensificaram a vigilância, com monitoramento que inclui a fauna silvestre. Produtos veterinários emergenciais já foram autorizados para tratamento em diversas espécies.

Quais sinais os produtores devem observar?

Especialistas recomendam monitoramento constante dos animais. Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Feridas com mau cheiro e presença de larvas
  • Animais lambendo ou mordendo ferimentos com insistência
  • Lesões visíveis e comportamento anormal, como agitação ou apatia

As larvas podem ser identificadas por pequenos espinhos ao redor do corpo. O tratamento envolve a remoção manual das larvas, limpeza da ferida e uso de produtos prescritos por veterinários. Atualmente há 12 produtos aprovados nos EUA para esse fim, embora ainda não exista ração medicamentosa disponível no mercado.

Produtores devem comunicar casos suspeitos a veterinários ou autoridades sanitárias imediatamente. Segundo o USDA, o controle da praga é possível com cooperação do setor e cumprimento rigoroso das medidas sanitárias, evitando que a bicheira volte a se estabelecer no país.