Pesquisa desenvolvida pela Embrapa atualiza recomendações após 25 anos e traz alívio ao bolso dos agricultores cearenses
Foto: Luiz Augusto Serrano /Embrapa

Depois de um quarto de século usando as mesmas recomendações, os produtores de caju do Ceará finalmente tem uma alternativa que promete revolucionar seus pomares. A Embrapa Agroindústria Tropical desenvolveu uma nova forma de adubar o cajueiro-anão que reduz em 70% os custos com fertilizantes no plantio. Eo melhor: sem comprometer o desenvolvimento das plantas.

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A mudança representa uma economia direta de R$ 382 por hectare. Enquanto a antiga recomendação custava cerca de R$ 520 por hectare, a nova metodologia baixa esse valor pra R$ 138. Para quem planta em escala, os números fazem diferença no fim das contas.

“Levantamentos realizados junto aos produtores de caju confirmaram a necessidade de adequar essas orientações”, explica o pesquisador Carlos Taniguchi, que coordena os estudos. Ele conta que a recomendação anterior se baseava em pesquisas com o cajueiro-comum e outras frutíferas, mas não refletia as necessidades específicas da variedade anã.

O que muda na prática

A diferença começa na quantidade de adubo por cova. Antes, os produtores aplicavam quase um quilo de superfosfato simples em cada buraco de plantio, dependendo das condições do solo. Agora, esse volume cai para no máximo 200 gramas.

O calcário, que antes ia tanto na cova quanto na área total do pomar, agora fica restrito apenas à aplicação geral. Os micronutrientes também tiveram redução significativa. O FTE-BR12, aquele produto que tem zinco, boro, cobre, ferro, manganês e molibdênio, era aplicado sempre na mesma quantidade: 100 gramas por cova. Não importava se o solo era fértil ou não.

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Com a nova recomendação, essa dose varia conforme os resultados da análise de solo. Parece óbvio, mas na agricultura nem sempre o óbvio é praticado.

Validação já mostra resultados promissores

A tecnologia está sendo testada desde março de 2025 em cinco municípios cearenses: Fortim, Alto Santo, Ocara, Santana do Acaraú e Cascavel. As plantas são avaliadas a cada seis meses, e os resultados iniciais animam.

Cajueiro-anão sob nova adubação com 1 ano de idade. Foto: Carlos Taniguchi

“Observamos melhor desenvolvimento do cajueiro quando comparado ao obtido na antiga adubação”, conta Taniguchi. As plantas crescem bem, mas com menos insumos e menor investimento. A validação deve seguir até o final de 2026 pra consolidar os dados.

Aplicativo vai facilitar diagnóstico nutricional

Junto com a nova recomendação de adubação, a Embrapa desenvolve uma ferramenta digital batizada de CND Caju. O aplicativo interpreta os resultados da análise foliar e determina o estado nutricional do cajueiro em poucos cliques.

O engenheiro agrônomo Wiliam Natale, bolsista do CNPq que participa dos estudos, explica que a ferramenta considera as interações entre os nutrientes em plantas de alta performance. “O estado nutricional ideal não é a abundância de nutrientes, mas o equilíbrio entre esses elementos”, ressalta.

Os gastos com adubação representam aproximadamente 30% dos custos de produção na cajucultura. Por isso, ter cálculos precisos faz toda diferença. “Uma análise de solo ou foliar bem feita pode aumentar consideravelmente a produção e gerar mais lucro”, enfatiza Natale.

Benefícios vão além do bolso

A redução no uso de fertilizantes químicos também traz ganhos pro meio ambiente. Menos produtos no solo significam menor risco de contaminação dos cursos d’água e dos alimentos. A estrutura física do solo também agradece, já que alguns fertilizantes podem acumular sais e degradar a matéria orgânica.

O cajueiro, que já é cultivado em solos de baixa fertilidade, agora consegue se desenvolver bem com doses quatro vezes menores de adubos. A longo prazo, essa redução pode melhorar a vida biológica do solo e até a qualidade dos frutos, especialmente quando combinada com práticas orgânicas.

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Cuidados necessários pra adotar a tecnologia

Taniguchi faz um alerta importante: pra que a nova recomendação funcione direito, os produtores precisam fazer a análise de solo seguindo as orientações da pesquisa. Os resultados dessa análise é que vão indicar a real necessidade de adubação.

“É fundamental que os agricultores realizem a coleta das amostras de forma adequada”, reforça o pesquisador. Ele também sugere buscar apoio de profissional técnico pra interpretar os resultados. A Empresa de Assistência Técnica Rural do Ceará (Ematerce) já apoia a disseminação da tecnologia.

Quando plantar o cajueiro

O momento certo faz toda diferença. Estudos recomendam que o plantio aconteça no início da estação chuvosa pra garantir umidade e facilitar o enraizamento das mudas. No Nordeste, geralmente esse período vai de outubro a janeiro.

Mas pra não errar, vale seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático para a cajucultura (Zarc Caju). A ferramenta indica as épocas e locais mais adequados considerando clima, tipo de solo e ciclo de desenvolvimento dos clones.

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Quem adota as recomendações do Zarc ainda pode ser beneficiado por programas do governo federal, como o Proagro e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. A ferramenta também facilita o acesso ao crédito rural.

Pesquisa continua

O acompanhamento dos cajueiros plantados com a nova adubação segue por pelo menos dois anos. “Pesquisas com culturas perenes são processos de longa duração”, lembra Taniguchi. Mesmo após o término do projeto, os estudos continuam pra verificar como as plantas se comportam em termos de produtividade.

As pesquisas começaram em 2021 através de dois projetos: “Aperfeiçoamento tecnológico do manejo de pomares de cajueiros para obtenção de alta produtividade (Fase II)” e “Inovações tecnológicas para o sistema de produção do cajueiro-anão”, financiado pelo CNPq e pela Funcap.

Os resultados completos estão disponíveis na publicação “Recomendações de calagem e adubação para o plantio do cajueiro”, que pode ser consultada por produtores e técnicos interessados.