Resumo da notícia
- Um estudo mapeou 121 mil hectares de cacau no Pará e Rondônia, mostrando que a expansão da cultura ocorre em áreas já alteradas, sem desmatamento de floresta nativa, usando sensoriamento remoto e auditoria em campo.
- O Pará lidera a produção nacional de cacau com 46% do total, enquanto Rondônia, apesar de menor área plantada, destaca-se pela alta produtividade, com média superior a 1.250 kg por hectare.
- Os resultados completos serão apresentados na ExpoCacau 2026, evento que reúne produtores, técnicos e especialistas para discutir sustentabilidade, restauração ambiental e rastreabilidade da cacauicultura na Amazônia.
Um novo estudo técnico mapeou 121 mil hectares de cacau plantados nos estados do Pará e Rondônia. E traçou pela primeira vez um retrato detalhado da produção cacaueira na Amazônia brasileira. O levantamento multitemporal combina sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria em campo para qualificar a expansão da cultura sob a ótica da sustentabilidade, da restauração ambiental e da rastreabilidade exigida pelos mercados internacionais.

A equipe responsável atualizou os dados do Pará para 2024, já que o último levantamento datava de 2022. Em Rondônia, o estudo estabeleceu a primeira linha de base territorial da cacauicultura estadual. Pesquisadores cruzaram as informações geográficas do cacau com as bases do TerraClass e do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E concluíram que o avanço do cacaueiro não derruba floresta nativa: ele ocupa principalmente pastagens e vegetação secundária já alteradas no passado.
Pesquisadores apresentam resultados na ExpoCacau 2026
A equipe apresentará os resultados completos em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA). O evento reúne mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores entre produtores, técnicos, especialistas, empresas e organizações da cadeia do cacau.
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Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e autor principal do trabalho, defende que a cacauicultura ocupa papel estratégico na Amazônia contemporânea. Segundo ele, a cultura gera renda para milhares de famílias rurais e recupera solos alterados, devolvendo produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas.
Norte concentra metade da produção nacional de cacau
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte responde por 50% de toda a safra nacional de cacau, com produção regional de aproximadamente 148 mil toneladas em um total de 297 mil toneladas colhidas no país. O Pará lidera a produção nacional com cerca de 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume que representa 46% do cacau brasileiro e 92% do total produzido na região Norte.
Rondônia ocupa a segunda posição na região Norte e a quarta no país, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Embora cultive uma área menor que o Pará, o estado se destaca pela eficiência técnica. Sua produtividade média supera 1.250 kg por hectare, uma das maiores do Brasil.
Metodologia combina satélites, radar e validação em campo
Mapear cacaueiros em meio à densa vegetação amazônica representa um desafio para a ciência geoespacial, já que as copas das plantas, especialmente em sistemas sombreados, apresentam semelhança espectral com florestas nativas ou vegetações secundárias.
Para superar essa barreira, a equipe técnica estruturou uma metodologia híbrida de alta precisão, combinando imagens e dados de múltiplos satélites. Imagens com resolução de 50 centímetros permitiram identificar detalhes de meio metro no terreno, diferenciando o cacau cultivado a pleno sol daquele integrado em Sistemas Agroflorestais (SAFs).
Para confirmar as informações extraídas das imagens, os pesquisadores realizaram expedições de campo em dez municípios das regiões da Transamazônica e Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia. Venturieri explica que a integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução e validação em solo gerou informações georreferenciadas de elevada acurácia.
Pará registra salto de 33% na área plantada
O mapeamento de 2024 identificou 116.436 hectares cultivados com cacau no Pará, distribuídos em 61 municípios. Em comparação com a linha de base de 2022, que somava 87.309 hectares, a área cultivada cresceu 33,26%, um incremento líquido de 29.128 hectares em apenas dois anos.
O estudo, no entanto, alerta para a composição tecnológica desse crescimento. Do total expandido entre 2022 e 2024, os produtores implantaram 63% (18.350 hectares) em sistemas de monocultivo a pleno sol. E apenas 37% (10.777 hectares) em Sistemas Agroflorestais, que consorciam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.
Venturieri pondera que ambos os sistemas fortalecem a economia rural, mas a maior expansão do cultivo a pleno sol indica que os produtores têm respondido a estímulos econômicos de curto prazo. Para o pesquisador, esse cenário reforça a necessidade de ampliar incentivos públicos para os Sistemas Agroflorestais, que garantem maior diversificação e serviços ecossistêmicos.
A agricultura familiar sustenta a cacauicultura paraense. O mapeamento identificou 31.843 áreas produtivas, das quais 84,65% têm até 5 hectares e 74,55% não ultrapassam 50 hectares. Medicilândia lidera a produção municipal com 35.203 hectares, seguida por Uruará (17.024 hectares), Brasil Novo (10.162 hectares) e Altamira (7.301 hectares), todos no eixo da Transamazônica e Oeste do Pará. Tomé-Açu, com 6.981 hectares, se consolida como polo de referência em Sistemas Agroflorestais no nordeste paraense.
Rondônia surge com vocação natural para agrofloresta
Rondônia passa a contar, pela primeira vez, com um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura. O estudo estabeleceu a linha de base estadual em 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.
Diferentemente do Pará, Rondônia concentra sua produção em Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas mapeadas com cacau no estado, que somam 5.339,83 hectares, os produtores cultivam 62% (3.310 hectares) em SAFs e 38% (2.029 hectares) a pleno sol.

A cacauicultura rondoniense também se apoia fortemente na agricultura familiar: o levantamento identificou 38.108 áreas produtivas, e 75% delas ocupam até 5 hectares. Jaru lidera a produção estadual com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho (352,87 hectares), Theobroma (305,43 hectares), Ouro Preto do Oeste (297,41 hectares) e Mirante da Serra (260,28 hectares). Juntos, 11 municípios respondem por 62,6% da área cultivada no estado.
Para Venturieri, Rondônia trilha uma trajetória singular e promissora. O mapeamento mostra que sistemas agroflorestais sob gestão da agricultura familiar sustentam mais de 60% da cacauicultura estadual. O pesquisador considera esse cenário um ativo estratégico para estruturar uma cadeia produtiva orientada por padrões socioambientais desde sua origem.
Dados reforçam conformidade com regras ambientais internacionais
Bases de monitoramento ambiental mostram que 96% das áreas cultivadas no Pará e 98% em Rondônia ocupam locais desflorestados antes de 2020. Venturieri destaca que essa informação ganha relevância diante da legislação da União Europeia, já que o cacau é uma commodity sujeita a controles rígidos de origem.
O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) proíbe a importação de commodities provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O mapeamento identificou que produtores implantaram apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia em áreas desmatadas após 2021, dados que permitem aos exportadores gerenciar riscos e comprovar conformidade socioambiental.
O levantamento ainda identificou 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia de cacau cultivado sob cobertura de florestas nativas, aproveitadas como sombreamento natural.

Venturieri conclui que a expansão do cacau na Amazônia não impulsiona novo desmatamento. Ela representa, segundo ele, uma solução concreta para reabilitar terras alteradas e gerar renda. O pesquisador define o mapeamento como instrumento indispensável de rastreabilidade para atender tanto à legislação brasileira quanto às exigências do mercado internacional. Para a Amazônia, ele defende que o desafio estratégico não está apenas em ampliar a área cultivada. Mas em garantir que essa expansão ocorra com qualidade territorial, sustentabilidade e competitividade.
Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, reforça que entender a dinâmica de expansão da cacauicultura na Amazônia ajuda a antecipar o futuro da cadeia produtiva. Segundo ele, conhecer para onde a cultura avança, em quais sistemas produtivos e sob quais condições permite identificar gargalos, orientar políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde são mais necessários. Stella destaca que o objetivo final é fazer a expansão do cacau acontecer de forma sustentável, com mais produtividade, conservação e geração de renda para o produtor rural.
