Resumo da notícia
- A abelha-rainha transfere pesticidas acumulados no organismo para os ovos, protegendo-se da contaminação, mas expondo a próxima geração da colônia a substâncias tóxicas.
- Operárias funcionam como filtro inicial, retendo até 95% dos pesticidas no alimento, mas essa proteção diminui com a exposição contínua, permitindo que a rainha seja contaminada.
- Com o tempo, a capacidade das operárias de filtrar pesticidas cai, levando ao acúmulo de toxinas na rainha e à transferência dessas substâncias para os ovos, revelando um mecanismo de defesa materna.
A abelha-rainha ocupa o centro da sobrevivência de uma colmeia. Quando pesticidas começam a se acumular em seu organismo, porém, ela pode recorrer a uma estratégia surpreendente: transferir parte dessas substâncias para os próprios ovos.
O mecanismo foi identificado por pesquisadores liderados pela Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos. O trabalho foi publicado na revista científica Current Biology e contou também com pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do Lawrence Livermore National Laboratory.
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Os cientistas chamam esse processo de “maternal offloading”, algo como transferência materna da carga química.
Na prática, a estratégia pode diminuir a quantidade de contaminantes acumulada pela rainha. Por outro lado, parte dessa carga acaba chegando justamente aos ovos que darão origem à próxima geração da colônia.

“Para se proteger, a abelha-rainha transfere esses produtos químicos para os ovos como uma forma de eliminá-los”, afirmou Sascha Nicklisch, autor sênior do estudo e professor associado do Departamento de Toxicologia Ambiental da UC Davis.
Segundo ele, esse comportamento ainda não havia sido demonstrado em abelhas.
Operárias funcionam como primeiro filtro
Antes de a contaminação chegar à rainha, existe uma espécie de barreira dentro da própria colmeia.
As operárias alimentam e cuidam da rainha e das larvas. Além disso, conseguem reter parte dos contaminantes presentes no alimento.

Para entender até onde essa proteção funciona, os pesquisadores montaram pequenas colônias experimentais chamadas de nanocolônias. Cada uma tinha uma rainha e 60 operárias.
As abelhas receberam pólen, água e alimento contendo metil paration marcado com um traçador radioativo em baixa concentração. Dessa maneira, os cientistas conseguiram acompanhar o caminho da substância pela colônia.
No primeiro dia, as operárias conseguiram filtrar 95% do pesticida presente na dieta e depositar parte dele nos favos.
Com a exposição contínua, entretanto, essa proteção começou a perder eficiência. No décimo dia, a capacidade de filtragem havia caído para 86%.
Contaminação começa a chegar à rainha

Enquanto as operárias conseguiam conter boa parte do pesticida, a rainha mantinha níveis de contaminação consideravelmente menores.
O cenário mudou com o passar dos dias.
A substância começou a se acumular no organismo da rainha e chegou aos ovários. A partir daí, os pesquisadores detectaram a transferência do contaminante para os ovos.
“Em nosso estudo, os pesticidas começaram a se acumular nas rainhas ao longo do tempo, sugerindo que a capacidade de filtragem das operárias pode ser sobrecarregada”, explicou Angela Encerrado-Manriquez, primeira autora do trabalho e pesquisadora formada pela UC Davis.
Quando isso acontece, segundo ela, a rainha passa a utilizar sua própria defesa e transfere a carga tóxica para os ovos.
O problema pode aparecer na próxima geração

Para os pesquisadores, a descoberta levanta uma preocupação que vai além da sobrevivência imediata da rainha.
Uma única rainha pode colocar entre 1.500 e 2.000 ovos por dia. Portanto, qualquer alteração que comprometa o desenvolvimento dos ovos pode ter consequências para a renovação das operárias e, consequentemente, para toda a colônia.
Nicklisch afirma que pode existir um ponto crítico quando a concentração se torna suficientemente alta.
Segundo o pesquisador, se os ovos acumularem uma carga elevada de pesticidas, eles podem deixar de se desenvolver normalmente. Nesse cenário, a contaminação química teria um efeito gradual, capaz de contribuir para problemas posteriores na colônia.
Isso não significa, entretanto, que o estudo tenha demonstrado que o mecanismo provoque sozinho o colapso de colmeias.
Os próprios pesquisadores destacam que ainda é necessário descobrir por quanto tempo a rainha consegue transferir contaminantes, quais são os efeitos de longo prazo sobre a colônia e se o comportamento muda conforme o pesticida.
Descoberta interessa ao campo
O resultado também chama atenção pela importância econômica das abelhas.
Colônias de abelhas participam da polinização de aproximadamente um terço das culturas alimentares do mundo, segundo os pesquisadores. Por isso, problemas que afetam sua reprodução podem ter reflexos na produtividade agrícola.
Além disso, boa parte dos estudos toxicológicos envolvendo abelhas tradicionalmente se concentra nas operárias. Desta vez, os cientistas acompanharam o caminho do pesticida pelas operárias, cera, rainha, ovários e ovos.
O experimento mostrou que a colmeia funciona como uma rede coletiva de proteção contra contaminantes. Inicialmente, as operárias conseguem absorver boa parte do impacto. Quando essa defesa chega ao limite, a rainha passa a acumular a contaminação.
Ou seja, é justamente nesse momento que surge o comportamento inesperado.
Para diminuir a própria carga química, a rainha pode transferir parte do problema para a geração que ainda está dentro dos ovos.
