País tem apenas 28,5 milhões de vacas de corte e liberou a entrada adicional de 300 mil toneladas de carne bovina estrangeira
Foto: Divulgação/Epagri

Os Estados Unidos enfrentam uma situação incomum: a carne bovina está cara justamente quando o país tem poucas matrizes para ampliar rapidamente a produção. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os pecuaristas americanos mantinham 28,5 milhões de vacas de corte em 1º de julho de 2026, uma queda de 1% em relação ao ano anterior.

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No total, os produtores mantinham 94,2 milhões de bovinos e bezerros. Além disso, o USDA estima uma produção de 32,5 milhões de bezerros em 2026, 2% abaixo do resultado de 2025. Portanto, a oferta futura continua sob pressão.

Carne bovina fica mais cara

A menor disponibilidade de animais já afeta o consumidor. Em julho, o preço médio da carne moída magra e extramagra chegou a cerca de US$ 8,41 por libra, segundo dados oficiais citados pela Reuters. O valor ficou mais de 38% acima do registrado cinco anos antes.

Ao mesmo tempo, os frigoríficos enfrentam custos maiores. Como encontram menos animais disponíveis, precisam disputar o gado e pagar mais pela matéria-prima. Nesse cenário, a Tyson Foods reduziu novamente sua projeção de lucro para 2026 e apontou a escassez de bovinos e a volatilidade dos preços como fatores de pressão.

Seca reduz rebanho e aumenta custos

A seca contribuiu para a redução do rebanho em várias regiões dos Estados Unidos. Com menos pastagem disponível, os produtores precisam gastar mais com alimentação. Consequentemente, alguns reduzem o número de matrizes para controlar os custos.

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Além disso, os pecuaristas enfrentam despesas maiores com terras, combustível, alimentação e outros insumos. Por isso, mesmo com os preços do gado em níveis elevados, reconstruir o rebanho exige tempo e capital.

O principal desafio está justamente nas matrizes. Para aumentar o rebanho, o produtor precisa reter novilhas que poderiam seguir para a engorda ou o abate. Depois, essas fêmeas precisam entrar em reprodução e gerar novos bezerros. Assim, uma decisão tomada hoje não aumenta a oferta de carne imediatamente e pode até reduzir, no curto prazo, o número de animais enviados ao mercado.

Por essa razão, a pecuária americana não consegue responder rapidamente à alta dos preços. O ciclo biológico limita a velocidade de recuperação da oferta.

Pecuaristas enfrentam pressão

A situação também aparece nas propriedades. Uma reportagem da CBS News publicada em 7 de setembro mostrou produtores do Wyoming enfrentando seca, custos elevados, escassez de terras e incertezas sobre o mercado.

Segundo a reportagem, alguns pecuaristas precisaram vender animais que pretendiam manter. Além disso, o produtor Mark Eisele, que cria cerca de 1.500 bovinos perto de Cheyenne, demonstrou preocupação com as medidas do governo para aumentar as importações.

Os relatos mostram como as decisões tomadas em Washington chegam diretamente às fazendas e podem alterar as estratégias dos produtores.

EUA ampliam importações

Diante da alta dos preços, o governo Donald Trump decidiu aumentar temporariamente a oferta de carne no mercado americano. Washington autorizou a entrada adicional de 300 mil toneladas métricas de determinados produtos de carne bovina magra, dentro da cota tarifária.

A quantidade foi dividida em três lotes de 100 mil toneladas. Com isso, o governo espera ampliar a oferta disponível ao consumidor enquanto os pecuaristas ainda enfrentam dificuldades para recuperar o rebanho.

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Por outro lado, a medida preocupa parte dos produtores. Se a maior oferta importada pressionar os preços do gado, alguns pecuaristas podem reduzir o interesse em reter novilhas. Esse possível efeito, porém, ainda representa uma questão de mercado e não um resultado comprovado da política.

Governo anuncia novas medidas

Além das importações, o governo americano anunciou outras medidas para o setor. Em 4 de setembro, Trump assinou novas ordens executivas relacionadas à pecuária, ao processamento de carne e à concorrência.

Uma das medidas busca apoiar os pecuaristas. Outra prevê ações para ampliar a concorrência e facilitar o acesso de pequenos e médios processadores a recursos de financiamento. Dessa forma, o governo tenta atuar em diferentes pontos da cadeia enquanto a oferta doméstica continua limitada.

O impacto para o Brasil

A situação americana também interessa aos produtores brasileiros. Com a produção doméstica limitada, os Estados Unidos precisam recorrer ao mercado internacional para complementar a oferta. A carne bovina magra importada tem papel importante na produção de carne moída e hambúrgueres. Por isso, uma necessidade maior de importação pode aumentar a disputa por determinados tipos de carne no mercado internacional.

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O Brasil ocupa posição de destaque nesse comércio e possui capacidade para exportar grandes volumes. Ainda assim, tarifas, cotas, regras sanitárias e preços definem a competitividade de cada fornecedor. Portanto, o aumento das compras americanas não significa que toda a demanda adicional irá para o Brasil. Mesmo assim, o movimento merece atenção dos exportadores brasileiros.

Oferta deve continuar apertada

Agora, o mercado deve acompanhar principalmente a evolução do número de matrizes. Enquanto os pecuaristas americanos mantiverem poucas vacas de corte, a produção terá dificuldade para crescer rapidamente.

Mesmo que os produtores aumentem a retenção de novilhas, os efeitos aparecerão apenas depois de várias etapas do ciclo pecuário. Por isso, a oferta deve continuar limitada no curto prazo.

Nesse cenário, rebanho reduzido, carne cara e maior necessidade de importação formam uma combinação que pode continuar pressionando a pecuária americana. Para o Brasil, o ponto de atenção está no comércio internacional, já que qualquer mudança na necessidade americana de carne importada pode influenciar a demanda e os preços da proteína no mercado global.