Baixa umidade e temperaturas elevadas já foram registradas na região, enquanto cientistas avaliam os riscos para peixes e anfíbios
seca amazonia
Foto: Divulgação - Agência Brasil - Rafa Neddermeyer

O El Niño está se fortalecendo e aumenta a preocupação com os efeitos de uma possível nova temporada de seca e calor extremos na Amazônia. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de chance de o fenômeno alcançar intensidade muito forte nos próximos meses. Enquanto isso, a região já registra sinais de calor e baixa umidade.

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Em Manaus, os termômetros chegaram a 37,3°C em 31 de agosto, a maior temperatura registrada na cidade em 2026 até aquele momento, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Além disso, em 10 de agosto, a umidade relativa do ar caiu para 41%, o menor valor do ano registrado até então.

O cenário chama atenção porque a seca amazônica de 2023 provocou impactos expressivos sobre a fauna aquática. Estudos posteriores relacionaram a mortalidade de peixes às temperaturas elevadas da água e à redução do oxigênio em ambientes mais rasos.

Por que o calor preocupa os peixes

Durante uma estiagem severa, a redução do volume dos rios e lagos concentra os animais em áreas menores. Ao mesmo tempo, a água mais quente consegue reter menos oxigênio dissolvido, o que aumenta o estresse sobre os peixes.

Pesquisadores registraram esse problema durante a seca de 2023. Em alguns ambientes amazônicos, a temperatura da água ultrapassou 38°C, enquanto a concentração de oxigênio caiu para níveis muito baixos.

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Portanto, a combinação de calor e hipóxia pode aumentar a mortalidade de espécies que já vivem próximas de seus limites térmicos. Além disso, a seca reduz a profundidade dos ambientes aquáticos e pode alterar a qualidade da água.

Assim, o risco para os peixes não depende apenas da temperatura do ar. É preciso considerar também as mudanças que ocorrem dentro dos rios e lagos.

O ar seco acrescenta outro desafio

Para os anfíbios, o problema pode começar fora da água.

Sapos, rãs e pererecas possuem uma pele fina e permeável que participa da respiração e da regulação de água e sais do organismo. Uma camada de muco ajuda a manter essa superfície hidratada.

Quando a umidade relativa do ar diminui, aumenta a diferença entre a umidade junto ao corpo do animal e a do ambiente. Como resultado, a perda de água por evaporação pode se intensificar.

Por isso, os anfíbios costumam buscar locais mais úmidos e frescos. Eles também conseguem absorver água pela pele, principalmente pela região ventral, quando entram em contato com superfícies úmidas.

Entretanto, quando o próprio solo perde umidade, essa estratégia se torna mais difícil. Nesse caso, o ambiente deixa de funcionar como fonte de água e pode dificultar a recuperação da hidratação.

Peixes que saem da água também podem sofrer

Algumas espécies de peixes possuem adaptações que permitem sobreviver temporariamente fora da água. Entre elas estão espécies da família Rivulidae, grupo que inclui peixes capazes de permanecer durante algum tempo sobre superfícies úmidas.

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Nessas situações, a pele pode participar das trocas gasosas. Dessa forma, essa adaptação ajuda os animais a enfrentar poças rasas, ambientes com pouco oxigênio ou locais que secam periodicamente.

Porém, um ambiente terrestre muito quente e seco pode reduzir o tempo de sobrevivência fora da água. Assim, uma estratégia que normalmente ajuda o peixe a escapar de uma poça quente ou pobre em oxigênio pode perder eficiência quando o ambiente ao redor também perde umidade.

Seca e calor somam efeitos

A redução das chuvas e o aumento da evaporação diminuem o volume dos ambientes aquáticos. Ao mesmo tempo, a água pode ficar mais quente e perder oxigênio.

Esse conjunto de fatores já apareceu durante a seca extrema de 2023. Um estudo publicado em 2025 registrou mortes de peixes e 209 botos em um único lago de Tefé, no Amazonas, além de outros impactos ecológicos associados ao evento.

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Por isso, o monitoramento não pode considerar apenas a temperatura do ar. É necessário acompanhar também o nível dos rios, a temperatura da água, o oxigênio dissolvido, a umidade e as respostas dos animais.

O que pode acontecer em 2026

A NOAA informou em setembro que o El Niño está se fortalecendo e indicou mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte no outono e inverno de 2026-27 no Hemisfério Norte. A agência também aponta que o fenômeno deve continuar ganhando força até o fim do ano.

Isso, por si só, não significa que a Amazônia repetirá a seca de 2023 ou que ocorrerão novas mortalidades de peixes e anfíbios. Os efeitos regionais dependem da combinação entre circulação atmosférica, chuva, temperatura, condições dos rios e outros fatores ambientais.

Por isso, os sinais de baixa umidade e calor registrados em Manaus merecem acompanhamento dentro de um quadro climático mais amplo. A ciência ainda precisa avançar na compreensão de como calor, estiagem e ar seco atuam conjuntamente sobre espécies adaptadas a ambientes muito úmidos.

Nesse contexto, monitorar a atmosfera, os ambientes aquáticos e as respostas fisiológicas dos animais ajuda a identificar os efeitos de eventos climáticos extremos sobre a fauna amazônica.