Resumo da notícia
- A UFLA desenvolve arroz resistente à seca para cultivo sem irrigação contínua, com foco em produtividade, ciclo precoce e adaptação às condições de Minas Gerais.
- O arroz de terras altas amplia opções agrícolas, permitindo rotação com soja, milho, feijão e trigo, e auxilia no manejo de plantas daninhas resistentes.
- Pesquisadores usam edição gênica, como CRISPR-Cas9, para identificar genes que aumentem a tolerância do arroz ao déficit hídrico, fortalecendo a produção nacional.
A Universidade Federal de Lavras (UFLA) pesquisa arroz resistente à seca para ampliar as possibilidades de cultivo sem irrigação contínua. O trabalho busca desenvolver materiais genéticos mais produtivos, precoces e capazes de suportar períodos de menor disponibilidade de água.
A pesquisa faz parte do programa Melhor Arroz, criado em 2013. Desde então, a equipe trabalha no desenvolvimento de arroz de terras altas, também chamado de arroz de sequeiro, com adaptação às condições de cultivo de Minas Gerais.
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O objetivo é reunir características que podem reduzir os riscos enfrentados pelo produtor. Entre elas estão produtividade, qualidade de grãos, ciclo mais curto e tolerância à seca.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve produzir cerca de 11,1 milhões de toneladas de arroz na safra 2025/26. Para a temporada 2026/27, a companhia projeta aproximadamente 10,65 milhões de toneladas.
Arroz sem irrigação amplia opções no campo
O arroz de terras altas pode entrar em sistemas agrícolas que também utilizam soja, milho, feijão e trigo. Assim, o produtor pode incluí-lo em estratégias de rotação ou sucessão de culturas, conforme as condições de cada propriedade.
Além disso, a diversificação pode contribuir para o manejo de plantas daninhas. Em áreas onde soja e milho aparecem repetidamente no sistema, a entrada de uma cultura com características diferentes amplia as possibilidades de manejo e pode ajudar no controle de populações resistentes a determinados herbicidas.
A pesquisadora Flávia Barbosa Silva Botelho, coordenadora do programa Melhor Arroz, explica que a equipe procura desenvolver materiais que combinem produtividade e adaptação às condições de menor disponibilidade hídrica.
“O principal objetivo hoje é desenvolver genótipos produtivos, com qualidade de grão, precoces e tolerantes à seca. Isso reduz o risco para o produtor e fortalece a produção nacional de arroz”, afirma.
Dessa forma, a proposta não consiste em substituir as culturas que já ocupam essas áreas. A intenção é oferecer mais uma alternativa para o planejamento da propriedade.
Pesquisa busca aumentar tolerância à falta de água
A equipe também investiga mecanismos genéticos relacionados à resposta do arroz ao déficit hídrico. Para isso, os pesquisadores mantêm parceria com a Universidade de Arkansas e utilizam técnicas de edição gênica, incluindo o sistema CRISPR-Cas9.
A ferramenta permite modificar regiões específicas do material genético e estudar como essas alterações podem interferir em características de interesse. No caso do arroz, a pesquisa procura identificar mecanismos que possam aumentar a capacidade das plantas de enfrentar períodos de falta de água.
Entre os estudos desenvolvidos pela UFLA estão pesquisas com genes relacionados à resposta das plantas ao estresse hídrico, como o DREB1C.
No entanto, é importante diferenciar a pesquisa experimental da disponibilidade comercial. O trabalho com edição gênica ainda integra a etapa científica e não significa que exista, neste momento, uma cultivar comercial de arroz editada geneticamente pronta para o produtor.
Linhagem de arroz avança para registro
O programa Melhor Arroz já possui materiais em diferentes etapas de avaliação. Uma das linhagens desenvolvidas pela equipe, a CMG1590, está em fase final de registro no Ministério da Agricultura.
Além dela, dezenas de genótipos de elite continuam em avaliação. Esses materiais passam por diferentes etapas antes que uma cultivar possa chegar ao mercado, o que inclui análises de características agronômicas e de adaptação.
A pesquisa com arroz na UFLA começou a ganhar força antes mesmo da criação do programa. Flávia Botelho relata que seu interesse pela cultura surgiu em 2010, durante um trabalho realizado na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT).
Depois, ao chegar à UFLA, a pesquisadora passou a liderar a reestruturação dos estudos com arroz na instituição. Em 2013, a universidade criou o programa Melhor Arroz em parceria com a Embrapa Arroz e Feijão e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).
Desde então, o programa reúne pesquisas de melhoramento genético e formação de novos pesquisadores. Segundo a UFLA, os trabalhos realizados desde sua criação já resultaram em mais de 60 artigos científicos, além de 28 dissertações de mestrado e 17 teses de doutorado.