Levantamento inédito aponta ameaças aos rios e mostra como a perda de biodiversidade pode afetar pesca, alimentação e comunidades amazônicas
Peixes nadando em uma foto submarina
Foto: Jonas Techy Potrich/Wikimédia

A Bacia Amazônica reúne mais de 2.700 espécies de peixes de água doce, segundo o relatório Amazon Forgotten Fishes, publicado pela The Nature Conservancy (TNC) e parceiros. O estudo amplia o conhecimento sobre a biodiversidade dos rios amazônicos e, ao mesmo tempo, chama atenção para as pressões que atingem esses ambientes.

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O número representa cerca de 15% das espécies de peixes de água doce conhecidas no mundo. Além disso, aproximadamente 65% das espécies registradas na Amazônia são endêmicas, ou seja, não vivem naturalmente em outras regiões.

O levantamento reúne informações de toda a bacia e contou com a participação de mais de 50 colaboradores de 30 organizações. Segundo a TNC, o trabalho também combina dados científicos com conhecimentos ecológicos de povos indígenas e comunidades locais.

Peixes têm papel na alimentação e na economia

A importância dos peixes amazônicos vai além da biodiversidade. Muitas espécies fazem parte da pesca amazônica, da alimentação e da economia de comunidades que vivem próximas aos rios.

O relatório mostra ainda uma concentração importante na atividade pesqueira. Cerca de 30 espécies respondem por aproximadamente 90% dos desembarques registrados na bacia.

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Ao mesmo tempo, mais de 100 espécies realizam migrações de longa distância. Um dos exemplos é o bagre dourado (Brachyplatystoma rousseauxii), que pode percorrer cerca de 11.600 quilômetros entre áreas próximas aos Andes e o Oceano Atlântico.

Por isso, mudanças no curso e no fluxo dos rios podem afetar tanto os peixes quanto as populações que dependem deles. Barragens, desmatamento e poluição aparecem entre as principais pressões apontadas pelo relatório, junto com a sobrepesca e as mudanças climáticas.

Pressão sobre os rios preocupa pesquisadores

A situação também aparece nos registros de espécies ameaçadas. Segundo a TNC, 144 espécies de peixes amazônicos estão na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Desse total, 82 aparecem nas categorias de criticamente ameaçadas, ameaçadas ou vulneráveis. O próprio relatório, porém, ressalta uma limitação: muitas espécies ainda não passaram por uma avaliação da IUCN. Portanto, o número de espécies em risco pode ser maior.

A conectividade dos rios também merece atenção. Os ciclos de cheia e vazante determinam áreas de alimentação, reprodução e deslocamento de diversas espécies. Quando barragens ou outras intervenções alteram esse funcionamento, os impactos podem alcançar diferentes trechos da bacia.

Fernanda Silva, autora principal do relatório e cientista de conservação da pesca de água doce na Amazônia da TNC, destaca que a região ainda apresenta uma oportunidade diferente de outros ecossistemas que já sofreram perdas significativas.

“Em todo o mundo, os esforços de conservação estão cada vez mais voltados à restauração dos ecossistemas depois que os danos já ocorreram. Ao contrário da narrativa predominante na mídia, nosso estudo confirma que a Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”, afirmou Fernanda.

Segundo ela, iniciativas de gestão indígena, áreas protegidas e colaboração em toda a bacia já apresentam resultados e podem formar uma base para ampliar a conservação dos sistemas de água doce.

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Conhecimento indígena ganha espaço

Nesse cenário, o conhecimento acumulado por povos indígenas e comunidades tradicionais ganha importância. O relatório combina evidências científicas com conhecimentos ecológicos tradicionais e destaca o papel dessas populações na proteção dos rios e de sua biodiversidade.

Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da COICA e autora do relatório, ressalta que os peixes possuem um significado que vai além da atividade pesqueira.

“Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos”, afirmou Fany.

A pesquisadora defende que as estratégias de conservação considerem os direitos territoriais indígenas, o conhecimento ancestral e a liderança dos povos indígenas na proteção das águas que conectam a bacia amazônica.

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A dimensão econômica e social também aparece na avaliação de Paula Caballero, diretora-geral regional da TNC para a América Latina.

“O relatório deixa claro que proteger os sistemas de água doce da Amazônia não é apenas uma necessidade ambiental, mas também econômica e social”, afirmou Paula. Segundo ela, o estudo apresenta um caminho que reúne governos, investidores, cientistas e povos indígenas em torno da manutenção de uma bacia resiliente e conectada, capaz de sustentar a biodiversidade, os meios de subsistência e a prosperidade regional.

El Niño acrescenta preocupação

O cenário climático também aumenta a atenção sobre os ecossistemas amazônicos. Em setembro, a NOAA informou que o El Niño estava se fortalecendo e apontou alta probabilidade de um episódio muito forte no outono e inverno de 2026-27 no Hemisfério Norte.

Isso, por si só, não significa que toda a Amazônia sofrerá os mesmos impactos. A resposta regional depende da evolução do fenômeno e da combinação com outros fatores climáticos.

Ainda assim, mudanças no regime de chuvas e no nível dos rios podem acrescentar pressão a ambientes que já enfrentam alterações provocadas pela atividade humana. A própria TNC inclui as mudanças climáticas entre os fatores que podem alterar os padrões naturais dos rios e afetar a biodiversidade amazônica.

Por esse motivo, o relatório defende ações que considerem a bacia como um sistema conectado. Entre as medidas destacadas estão a proteção de rios de fluxo livre, a recuperação dos habitats, a melhoria da qualidade da água e o fortalecimento da gestão das pescarias com participação das comunidades locais.

A proposta é preservar a conectividade dos rios e, ao mesmo tempo, manter os serviços ambientais, a segurança alimentar e os meios de subsistência associados aos peixes amazônicos.