Resumo da notícia
- Pesquisas no Acre mostram que o tempo de ocupação humana influencia mais a abundância de mosquitos-palha do que a cobertura florestal, impactando a dinâmica da leishmaniose na Amazônia.
- Barbeiros infectados pelo Trypanosoma cruzi foram encontrados próximos a residências em áreas com menor cobertura florestal, indicando maior risco de doença de Chagas associado ao desmatamento.
- O estudo evolui para a restauração ambiental com espécies nativas, envolvendo moradores locais para monitorar impactos na saúde e na biodiversidade após a recuperação das áreas degradadas.
Pesquisas realizadas no Acre mostram que o desmatamento pode alterar a dinâmica dos insetos transmissores de leishmaniose e doença de Chagas na Amazônia. Os estudos encontraram mais mosquitos-palha em áreas ocupadas há mais tempo e maior probabilidade de barbeiros infectados em paisagens com menor cobertura florestal, principalmente perto de moradias.
Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram 20 pontos de um assentamento rural de Cruzeiro do Sul. Assim, compararam áreas com diferentes níveis de alteração da paisagem e avaliaram a influência da ocupação humana sobre os vetores.
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No entanto, os resultados não indicam que a redução da floresta provoque diretamente as duas doenças. No caso da leishmaniose, por exemplo, o tempo de ocupação humana teve relação maior com a abundância dos mosquitos-palha do que a quantidade de cobertura florestal.
Mosquitos-palha permanecem em áreas modificadas
Na pesquisa sobre leishmaniose cutânea, os cientistas identificaram Nyssomyia antunesi como a espécie dominante. A abundância dos mosquitos esteve mais relacionada ao tempo de ocupação humana do que à quantidade de floresta preservada.
O resultado surpreendeu os pesquisadores. O biólogo e pesquisador Gabriel Zorello Laporta esperava encontrar mais insetos nas áreas de floresta. “Esse resultado me surpreendeu bastante. Achava que encontraríamos mais risco e abundância de flebotomíneos nas áreas de floresta, onde é mais úmido”, avalia Laporta.
Em Cruzeiro do Sul, a incidência média anual de leishmaniose cutânea chega a três casos por 10 mil habitantes. Ainda assim, o estudo não encontrou associação clara entre as características da paisagem e a infecção por Leishmania.
Barbeiros infectados perto das moradias
Na pesquisa sobre doença de Chagas, os cientistas encontraram barbeiros infectados pelo parasita Trypanosoma cruzi em palmeiras próximas às residências.
Os resultados indicam que a redução da cobertura florestal pode aproximar as pessoas do ciclo silvestre do vetor, mesmo sem a presença dos insetos dentro das casas.
A doença de Chagas é causada pelo Trypanosoma cruzi e pode ser transmitida pelas fezes de barbeiros infectados ou pela ingestão de alimentos e bebidas contaminados. Sem tratamento adequado, pode provocar complicações cardíacas e digestivas.
Pesquisa avança para restauração ambiental
A partir desses resultados, o grupo iniciou uma nova etapa da pesquisa, voltada à restauração de áreas degradadas com espécies nativas da Amazônia. A equipe pretende acompanhar as mudanças ambientais e os indicadores relacionados à saúde ao longo do tempo.
Para isso, os pesquisadores já digitalizaram imagens das áreas e fizeram simulações sobre a evolução de casos de malária após a restauração. Além disso, o projeto prevê a participação dos moradores no plantio das espécies nativas.
“Já sabemos que existe um mecanismo que leva ao acometimento de doenças graves, com tratamento complicado em alguns casos. Não adianta somente desvendar o mecanismo ou a associação entre as coisas. É preciso criar maneiras de agir. Queremos fazer um estudo de intervenção ambiental”, diz o biólogo.
Fonte: Fapesp.