Resumo da notícia
- O carcaju, animal que inspirou o Wolverine da Marvel, está menos presente em áreas montanhosas do oeste canadense com maior concentração de estradas e atividades recreativas, segundo estudo recente.
- A pesquisa indica que a população poderia ser 30% maior em regiões com menos estradas e lazer, e que a presença humana afeta especialmente as fêmeas, prejudicando a reprodução lenta da espécie.
- O estudo é observacional e não prova causalidade direta, mas reforça a associação entre impacto humano e menor densidade de carcajus, auxiliando no planejamento da conservação da espécie.
O carcaju (Gulo gulo), animal que inspirou o personagem Wolverine, da Marvel, está menos presente em regiões montanhosas do oeste do Canadá com maior concentração de estradas e atividades recreativas.
A constatação vem de um estudo publicado em 29 de setembro na revista científica Biological Conservation. Os pesquisadores identificaram menos de 300 carcajus em uma área de aproximadamente 81.800 km², que abrange o oeste de Alberta e o leste da Colúmbia Britânica.
Segundo os pesquisadores, a população poderia ser cerca de 30% maior caso a região apresentasse níveis menores de estradas e atividades recreativas.
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Presença humana aparece associada a menor densidade
Para investigar essa relação, os cientistas cruzaram dados sobre a quantidade de estradas com mapas que mostram o uso das áreas para atividades de lazer.
Entre elas estavam esqui fora de pista, heliski, esqui cross-country e caminhadas. A análise mostrou uma tendência: quanto maior a concentração de estradas e atividades recreativas, menor a densidade de carcajus registrada na região.
“Fiquei um pouco surpresa com o impacto das atividades recreativas, para ser sincera”, afirmou Mirjam Barrueto, pesquisadora de ecologia que conduziu o trabalho durante o doutorado na Universidade de Calgary, no Canadá.
Segundo ela, os animais não estavam apenas evitando pontos específicos. “Havia, de fato, menos indivíduos vivendo nesses locais”, explicou.
Além disso, o estudo amplia pesquisas anteriores que já indicavam que os carcajus evitam áreas com maior movimentação humana. Desta vez, os pesquisadores observaram essa relação em uma área territorial extensa.
Estradas afetam mais as fêmeas
O efeito das estradas apareceu com mais força entre as fêmeas. O resultado chama atenção porque o carcaju apresenta uma reprodução lenta.
As fêmeas geralmente têm de um a três filhotes e podem permanecer vários anos sem produzir uma nova ninhada. Por isso, uma redução na presença de fêmeas pode dificultar a recuperação da população ao longo do tempo.

Conhecido também como wolverine ou glutão, o carcaju pertence à família dos mustelídeos, grupo que inclui doninhas e lontras. Apesar de lembrar um pequeno urso, o animal não faz parte da família dos ursos.
A espécie vive principalmente em regiões frias da América do Norte, Europa e Ásia. No Canadá, utiliza grandes áreas de habitat nas regiões montanhosas, onde encontra condições adequadas para sobreviver e se reproduzir.
Estudo não prova causa direta
Apesar dos resultados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o trabalho é observacional.
Isso significa que o estudo identificou uma associação entre a presença humana e a densidade dos carcajus, mas não permite afirmar, isoladamente, que uma estrada específica ou determinada atividade recreativa tenha causado diretamente a redução populacional.
Ainda assim, os resultados ajudam a identificar áreas onde o planejamento territorial pode contribuir para a conservação da espécie. Além disso, os dados acompanham pesquisas anteriores que apontam mudanças no uso do habitat diante de maior movimentação humana.
Os autores recomendam preservar áreas sem estradas ou com poucas vias, proteger regiões importantes para a espécie que ainda apresentam baixa ocupação humana e limitar atividades recreativas em locais usados para reprodução.
Dessa forma, as medidas de conservação podem concentrar esforços nas áreas mais importantes para a sobrevivência dos carcajus e reduzir a soma dos impactos provocados pela presença humana nesses ambientes.
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade de Calgary, Parks Canada, Nature Conservancy of Canada e Montana State University. O artigo foi publicado na revista Biological Conservation.