Resumo da notícia
- Mulheres representam 40% dos produtores rurais que tomam decisões no Brasil, com aumento significativo na participação e propriedade dos negócios ao longo dos últimos 10 anos.
- A qualificação das gestoras rurais cresce, com 77% tendo ensino superior e 46% pós-graduação, fortalecendo a gestão e planejamento dos negócios no campo.
- Tecnologias como drones e plataformas digitais são usadas por 71% das produtoras, ampliando autonomia, mas o acesso depende de investimento, conectividade e capacitação.
As mulheres no agronegócio ampliaram sua participação nas decisões estratégicas das propriedades rurais brasileiras. Um levantamento divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em outubro de 2026, aponta que elas representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais que tomam decisões no país.
O estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços analisa as mudanças na atuação feminina ao longo da última década. A iniciativa reúne informações de mercado e entrevistas com profissionais do setor, com participação da Serasa Experian, da Fran6 Pesquisa e do Sistema FAESP/SENAR.
- Da lavoura à pesquisa: Mulheres conquistam espaço no agro
- Mulheres ganham espaço e já são 40% na gestão rural
Os resultados destacam avanços na formação profissional, na participação feminina na propriedade dos negócios e no uso de tecnologias. Ao mesmo tempo, as entrevistadas apontaram obstáculos culturais e dificuldades para conciliar o trabalho com as responsabilidades familiares.
Formação profissional fortalece a gestão rural
A qualificação aparece entre os principais avanços identificados pelo levantamento. Entre as gestoras entrevistadas, 77% concluíram o ensino superior. Além disso, a parcela com pós-graduação passou de 24%, em 2015, para 46%, em 2026.
A pesquisa também identificou uma presença expressiva de mulheres na propriedade dos negócios rurais. Segundo os dados divulgados pela ABAG, 91% das entrevistadas são proprietárias totais ou parciais das atividades. O percentual representa um aumento de dez pontos percentuais em relação ao resultado registrado dez anos antes.
Esses números mostram que muitas mulheres participam tanto da administração quanto das decisões patrimoniais dos negócios. Com maior qualificação, elas também ampliam suas possibilidades de atuação no planejamento, na organização financeira e na condução das atividades produtivas.
É importante ressaltar, porém, que esses indicadores se referem às participantes da pesquisa sobre gestoras rurais. Portanto, não representam necessariamente o perfil de todas as produtoras brasileiras.
Tecnologia amplia a autonomia das produtoras
A modernização das propriedades também aparece no levantamento. Segundo a pesquisa, 71% das gestoras entrevistadas afirmaram utilizar ferramentas como drones, telemetria e plataformas digitais de gestão de forma independente ou parcialmente independente.
Esses recursos ajudam a acompanhar operações, organizar informações e planejar as atividades da propriedade. Além disso, permitem que as produtoras utilizem dados para orientar decisões e identificar oportunidades de melhoria.
Entretanto, a adoção dessas soluções depende de investimento, conectividade e capacitação. Por isso, ampliar o acesso à tecnologia exige condições para que as mulheres incorporem essas ferramentas à rotina e aproveitem seus benefícios na gestão rural.
Crédito e gestão financeira exigem atenção
O levantamento também analisou indicadores de crédito das produtoras rurais. Segundo os dados divulgados pela ABAG com base em análises da Serasa Experian, a inadimplência foi de 6,85% entre grandes proprietárias rurais e de 5,4% entre produtoras da Região Sul.
Os percentuais correspondem a grupos específicos analisados pela pesquisa e não representam uma taxa geral de inadimplência de todas as mulheres que trabalham no campo. Além disso, como os indicadores consideram recortes distintos, não devem ser interpretados como uma comparação direta entre todas as produtoras e todos os produtores brasileiros.
Nesse contexto, o acesso ao crédito continua relevante para financiar equipamentos, modernizar estruturas e ampliar a produção. As condições de financiamento, as garantias exigidas e a capacidade de pagamento influenciam as oportunidades de investimento de cada negócio rural.
O planejamento financeiro e a orientação técnica também podem ajudar as produtoras a avaliar riscos e organizar os recursos necessários para desenvolver suas atividades.
Barreiras culturais ainda limitam oportunidades
Apesar dos avanços, as mulheres ainda enfrentam desafios para ampliar sua participação nos espaços de liderança do setor. A etapa qualitativa do estudo reuniu 25 entrevistas aprofundadas com produtoras, pecuaristas e profissionais da agroindústria de diferentes regiões brasileiras.
As participantes relataram obstáculos relacionados a barreiras culturais, à conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares e à importância das redes de apoio. Esses fatores podem influenciar as oportunidades de qualificação e o acesso a posições de liderança.
Nesse cenário, o cooperativismo, a troca de experiências e a participação em organizações do setor podem fortalecer as redes profissionais e ampliar o acesso à informação.
No âmbito institucional, o Ministério da Agricultura e Pecuária instituiu, em março de 2026, a Câmara Temática de Mulheres Rurais. O fórum consultivo busca promover o diálogo entre representantes do setor público e da iniciativa privada e discutir propostas para fortalecer a inclusão produtiva e econômica das mulheres no meio rural.
A iniciativa cria um espaço formal para discutir políticas e medidas de apoio à atuação feminina. Seus resultados, contudo, dependem das propostas desenvolvidas e de sua implementação.
Mulheres fortalecem a gestão do agronegócio
Os dados divulgados pela ABAG apontam avanços na formação profissional, na propriedade dos negócios e no uso de tecnologias entre as gestoras entrevistadas. Ao mesmo tempo, os desafios identificados mostram que a ampliação da liderança feminina ainda exige condições adequadas de financiamento, capacitação e participação nas decisões.
Para o agronegócio brasileiro, fortalecer a atuação das mulheres significa ampliar o acesso ao conhecimento, à tecnologia e às oportunidades de desenvolvimento dos negócios rurais.
Assim, o avanço da participação feminina não depende apenas da presença das mulheres nas propriedades. Também exige condições para que elas exerçam sua autonomia, ocupem espaços de liderança e contribuam para as decisões que definem os rumos da produção agropecuária.