Acordo fechado na feira Sial China prevê fornecimento de 15 mil toneladas ao longo de cinco anos, mas exportação ainda depende de certificação sanitária
açaí na árvore
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

A cooperativa Amazonbai, que reúne produtores agroextrativistas do Bailique e do Beira Amazonas, assinou um contrato de cinco anos para fornecer 15 mil toneladas de açaí a uma das maiores redes de distribuição de alimentos da China.

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O acordo, fechado em maio durante a feira Sial China, em Xangai, garante destino comercial para a produção da cooperativa até 2031.

A precisão sobre o alcance do negócio evita distorções. O acordo assegura o escoamento da produção de uma cooperativa específica. Portanto, não da safra inteira do Amapá, como chegou a circular em algumas publicações. As 15 mil toneladas serão distribuídas ao longo dos cinco anos de vigência do contrato, o que resulta em uma média aproximada de 3 mil toneladas por ano.

Para quem produz, o formato muda o jogo. Um comprador fixo por cinco anos permite planejar colheita, processamento e entrega com antecedência, em vez de negociar preço a cada nova safra. Uma vantagem rara para a produção extrativista, historicamente refém da oscilação de preços no momento da colheita.

Como o negócio foi fechado

O contato decisivo aconteceu na Sial China, considerada a maior feira de alimentos e bebidas da Ásia. A edição de 2026 reuniu mais de 5 mil expositores de dezenas de países e recebeu cerca de 180 mil visitantes profissionais, com participação brasileira recorde: 82 empresas exportadoras do país marcaram presença, ante 54 na edição anterior, segundo a ApexBrasil. A agência de promoção de exportações projetava movimentar cerca de 3,3 bilhões de dólares em negócios imediatos e futuros durante o evento.

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A ida da Amazonbai a Xangai não foi espontânea. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) articulou a participação por meio do programa Rotas de Integração Nacional, e o governo federal destinou cerca de R$ 207 mil para levar cooperativas brasileiras à feira. Um investimento público com resultado comercial rastreável.

Quem é a Amazonbai e por que o modelo importa

A Amazonbai reúne agroextrativistas que coletam o açaí diretamente da floresta em pé, sem substituir a vegetação nativa por outro sistema de cultivo. Esse modelo sustenta o apelo do produto junto a compradores internacionais: a renda gerada pela coleta concorre diretamente com alternativas de uso da terra que exigiriam desmatamento, o que torna a floresta preservada mais valiosa em pé do que derrubada.

Segundo o presidente da cooperativa, Amiraldo Picanço, a parceria pode abrir caminho para que produtos da Amazonbai e de outras organizações brasileiras ganhem espaço no mercado asiático. A leitura da cooperativa aponta para uma porta de entrada mais ampla, não apenas para um contrato pontual.

O que ainda falta para o açaí embarcar

Contrato assinado ainda não significa produto na prateleira chinesa. Para exportar alimentos à China, empresas estrangeiras precisam obter o registro GACC (sigla para a Administração Geral de Alfândegas da China), licença obrigatória que envolve adequação de instalações de beneficiamento, rastreabilidade da origem e controle sanitário em cada etapa da cadeia.

Açaí
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Para um produto extrativista, coletado em áreas de várzea e transportado por via fluvial, essa adequação tende a ser mais desafiadora do que para uma cadeia industrial convencional. O ritmo de obtenção da certificação deve determinar quando os primeiros embarques efetivamente começam.

Por que a China aposta no açaí amazônico

O interesse chinês reflete o perfil do mercado consumidor local. A China é um dos maiores compradores de alimentos do mundo. E tem ampliado a demanda por produtos com valor nutricional, origem controlada e apelo de sustentabilidade. O açaí se encaixa nesse perfil e tem múltiplas aplicações industriais, de bebidas e sobremesas a polpas congeladas e itens industrializados. O que multiplica os canais de venda dentro do mesmo mercado.

Mais do que o fruto em si, o que se negocia é a história de origem. A associação com floresta preservada e comunidades extrativistas funciona como diferencial competitivo em mercados que valorizam procedência e rastreabilidade.

A estrutura por trás do contrato

O acordo não nasceu isolado. A Amazonbai integra a Rota do Açaí, iniciativa que oferece assistência técnica, apoio à certificação, logística e beneficiamento a cooperativas locai. Ou seja, exatamente as áreas em que pequenos produtores costumam enfrentar mais dificuldade ao tentar acessar compradores internacionais. No Amapá, ações ligadas ao Selo Amapá reforçam esse movimento, buscando valorizar no mercado externo produtos regionais associados a práticas sustentáveis.

Cumprir um contrato de cinco anos exige regularidade de volume, padrão constante de qualidade e capacidade logística para entregar dentro do prazo, safra após safra, em uma cadeia que depende de coleta em áreas de difícil acesso. Também fica em aberto a forma como o resultado financeiro será repartido entre os cooperados. Fator que, mais do que o tamanho do contrato, vai definir se o acordo cumpre a promessa de gerar renda para quem efetivamente coleta o fruto.