Resumo da notícia
- A Eugenia dysenterica, conhecida como cagaita, é uma fruta nativa do Cerrado com alta concentração de vitamina C, potássio e compostos antioxidantes, amadurecendo entre outubro e dezembro.
- O fruto tem sabor ácido com notas de goiaba e limão, sendo usado em sucos, sorvetes e geleias artesanais, especialmente em regiões como Goiás e Minas Gerais.
- Apesar dos benefícios, o consumo excessivo da cagaita pode causar efeito laxativo, recomendando moderação, enquanto suas folhas são usadas tradicionalmente como antidiarreicas.
A cagaita nasce da cagaiteira (Eugenia dysenterica DC.), árvore de porte médio nativa do Cerrado brasileiro, bioma que ocupa a segunda maior área de vegetação do país, atrás apenas da Amazônia. A planta pertence à família Myrtaceae, a mesma da goiaba, da jabuticaba e do araçá, e se desenvolve em campos secos, sobretudo em Goiás, Minas Gerais, Tocantins e no Distrito Federal.

A árvore alcança entre 4 e 11 metros de altura, com tronco tortuoso e casca espessa e fendida. Suas folhas mudam de cor conforme o estágio: começam avermelhadas e se tornam verde-escuras na fase adulta. Cada planta produz entre 500 e 2 mil frutos por safra, concentrada nos meses de outubro a dezembro.
As características do fruto
O fruto da cagaita é globoso, achatado e de casca amarelo-esverdeada, com formato que lembra uma pequena pera. Pesa entre 14 e 20 gramas e mede de 3 a 5 centímetros de diâmetro. A polpa suculenta e ácida abriga até quatro sementes internas.
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O sabor combina notas de goiaba madura com um toque cítrico próximo ao do limão, característica que explica a popularidade da fruta em sorvetes artesanais, sucos, geleias e licores caseiros produzidos em sítios e chácaras do interior de Goiás e Minas Gerais, especialmente no fim de ano.
Valor nutricional e compostos bioativos
Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras mostram que 100 gramas de cagaita cobrem, em média, 71% da necessidade diária de vitamina C. Além de contribuir com vitamina A e folatos. A fruta também se destaca pelo alto teor de potássio, tanto madura quanto verde, e pela presença de boro, mineral mais concentrado nos frutos ainda verdes.

Estudos publicados em periódicos científicos identificaram na cagaita ácidos fenólicos como gálico, cafeico, vanílico, p-cumárico, siríngico e ferúlico. Além de compostos como epicatequina, quercetina e rutina. Frutos verdes concentram mais ácido cafeico, p-cumárico e rutina, enquanto os maduros apresentam maiores teores de ácido gálico, ácido vanílico e quercetina, substâncias associadas à atividade antioxidante.
Por que a fruta exige moderação no consumo
A tradição popular batizou a espécie com um nome que remete diretamente ao seu efeito mais conhecido. Afinal, consumida em excesso ou muito madura, a cagaita apresenta propriedades laxativas. Publicações técnicas confirmam esse uso popular e recomendam moderação, especialmente com frutos fermentados. As folhas da cagaiteira, por outro lado, são tradicionalmente usadas como antidiarreicas, um contraste que reforça o potencial medicinal da espécie como um todo.
Por ser extrativista e sazonal, a cagaita enfrenta perdas pós-colheita significativas, o que motiva pesquisas voltadas à sua conservação e ao aproveitamento tecnológico. Estudos de universidades como a Universidade Estadual de Maringá avaliaram métodos sustentáveis de extração de antioxidantes da fruta, testando variações de temperatura, tempo e solvente. O processo mais eficiente utilizou água como solvente e dispensou o uso de ultrassom, reduzindo o gasto energético e o custo da técnica.
A Embrapa também já publicou orientações sobre boas práticas de manejo para o extrativismo sustentável da espécie. Portanto, reforçando o interesse do setor produtivo em transformar a cagaita em opção de renda para comunidades do Cerrado, especialmente em regiões com maior vulnerabilidade alimentar.
Apesar do valor como fruta nativa, a cagaiteira também é classificada como planta daninha em áreas de pastagem, onde compete por nutrientes e espaço com o capim e reduz a produtividade forrageira. Esse duplo papel, fonte de renda extrativista de um lado, invasora de pastagens do outro, ilustra o desafio de conciliar conservação da biodiversidade do Cerrado com a produção pecuária nas mesmas áreas.