Resumo da notícia
- A restrição de crédito no agronegócio tem impulsionado o crescimento das operações de barter, em que produtores pagam insumos com parte da produção futura, oferecendo liquidez e previsibilidade em cenário de juros altos.
- Em 2025, a Corteva movimentou mais de US$ 1 bilhão em barter, um aumento de 80% em relação ao ano anterior, destacando a expansão do modelo como alternativa para driblar a dificuldade de acesso a financiamentos.
- O barter permite ao produtor fixar custos e reduzir riscos cambiais, enquanto a indústria melhora a gestão de pagamento e riscos; a Corteva atua estruturando operações e protegendo preços, com baixa inadimplência registrada.
A restrição de crédito no agronegócio tem ampliado o espaço para operações de barter, modelo em que o produtor utiliza parte da produção futura para pagar pelos insumos usados na lavoura. A estratégia foi apresentada pela Corteva durante o GAFFFF 2026 como uma alternativa para dar liquidez e previsibilidade ao produtor em um cenário de juros elevados e maior dificuldade de acesso a financiamento.
Segundo Fernando Borba, diretor de barter da Corteva, a empresa movimentou mais de US$ 1 bilhão em operações desse tipo em 2025. O executivo afirmou que o volume representou crescimento de cerca de 80% em relação ao ano anterior.
Como funciona o barter
Na prática, o produtor adquire insumos e estabelece que o pagamento será feito, total ou parcialmente, com uma quantidade definida de uma commodity após a colheita. A operação pode envolver indústria, revenda, produtor e uma trading responsável pela compra da produção.
A Corteva não compra diretamente as commodities. De acordo com Borba, a empresa mantém parcerias com grandes tradings que fazem a aquisição dos grãos. A companhia participa da estruturação da operação e oferece mecanismos relacionados à proteção de preços.
O executivo destacou que o principal ponto para o produtor não é apenas acompanhar a cotação da commodity. A chamada relação de troca indica quanto da produção será necessário entregar para quitar os insumos.
“Às vezes, a gente tem um cenário de commodity menor e a relação de troca é desfavorável”, afirmou Borba. Segundo ele, o produtor deve avaliar justamente essa relação, que pode continuar interessante mesmo em momentos de preços menores.

Crédito mais restrito aumenta procura
A expansão do barter ocorre em um momento de pressão sobre a liquidez do setor. Na avaliação apresentada pela Corteva, os juros elevados aumentam a necessidade de capital do produtor e das empresas do agro. Ao mesmo tempo, bancos e fintechs podem restringir a oferta de crédito justamente quando a demanda aumenta.
Nesse cenário, o barter funciona como uma forma de organizar antecipadamente parte dos custos e da receita da produção. Borba afirmou que a operação permite ao agricultor estabelecer seu custo de produção, reduzir o descasamento cambial e ter maior previsibilidade sobre a renda daquela negociação.
Para a indústria, a estrutura também muda a gestão do risco. Em vez de esperar pelo pagamento dos insumos depois da safra, a empresa tem uma operação vinculada à entrega futura da produção negociada.
A Corteva afirma ainda que a inadimplência nas operações de barter é baixa. Em uma análise dos últimos três anos apresentada durante a coletiva, a empresa informou que 65% dos produtores que fizeram barter repetiram a operação posteriormente.
Operação avança para novas regiões
Embora o barter já seja tradicional em algumas áreas produtoras, a Corteva afirma que o modelo passou a ganhar espaço em regiões onde anteriormente tinha participação menor.
Um dos exemplos citados por Borba foi o Rio Grande do Sul. Segundo ele, atualmente cerca de 50% das vendas da Corteva no Estado são realizadas por meio de operações de barter.
A companhia também pretende ampliar sua atuação em soluções financeiras. A estratégia inclui não apenas produtores, mas também revendas, que, segundo Borba, enfrentam pressão sobre as margens e representam uma parte mais vulnerável da cadeia.
A Corteva informou que trabalha com três instituições na discussão de uma ferramenta financeira voltada exclusivamente às revendas, com previsão de lançamento em 2027. A empresa também pretende oferecer assessoria financeira inicialmente às revendas consideradas estratégicas, com foco em estruturação de balanços, políticas de crédito e acesso a financiamento.

Barter não elimina risco da produção
A operação não significa que o produtor esteja protegido de todos os riscos da atividade. Eventos climáticos, por exemplo, podem comprometer a produção utilizada para quitar o acordo.
Borba afirmou que, em caso de uma situação extrema em que o agricultor não consiga colher e pagar a operação, a Corteva poderia renegociar a dívida para a safra seguinte e abrir novo crédito para permitir o plantio. Ele ressaltou, porém, que esse cenário ainda não havia ocorrido com as operações citadas durante a apresentação.
A empresa avalia que o modelo deve continuar avançando mesmo com eventual melhora das condições de crédito. Para Borba, o produtor está aprendendo a utilizar o barter também como instrumento para reduzir a exposição à volatilidade dos preços e alinhar a compra dos insumos com parte da produção futura.