Resumo da notícia
- Leilão da Fazenda Pouso Alegre, de 2.727 hectares em MS, visa quitar dívidas de R$ 161 milhões da empresa Engenho Tio Bepy, produtora do arroz Tio Bepy, em recuperação judicial.
- O valor inicial do leilão pode cair até 20%, chegando a cerca de R$ 128,8 milhões, e o processo recebe propostas até outubro de 2026, após falha na primeira tentativa.
- A fazenda possui estrutura completa para arroz irrigado, valorizando o imóvel, e a execução judicial está ligada à pessoa física de um sócio, não diretamente à empresa.
A onda de recuperação judicial que atinge empresas do agronegócio chega a mais um ativo milionário no Mato Grosso do Sul. A Justiça colocou em leilão a Fazenda Pouso Alegre, propriedade de 2.727 hectares em Miranda ligada à produção do arroz Tio Bepy, pelo valor de R$ 161 milhões. O montante deve ajudar a quitar dívidas com credores como Petrobras, Banco do Brasil e Bradesco.

Segundo reportagem do jornal Correio do Estado, a fazenda pertence à empresa que produz e revende o arroz Tio Bepy e ocupa posição central entre os ativos do grupo. As dívidas que motivam a venda foram contraídas pela empresa Engenho Tio Bepy, sediada em Dourados e responsável pela industrialização e comercialização do arroz.
- R$ 567 mil em uma vaca? Conheça a história de Jasmine
- Fabricante de fertilizantes recorre à Justiça para ganhar prazo e negociar dívidas
A propriedade reúne sistema de captação de água, canais de irrigação, estruturas de apoio à produção, sede e pista de pouso, características típicas de operações de arroz irrigado em grande escala. A fazenda fica a quatro quilômetros da área urbana de Miranda, às margens da rodovia MS-339, que liga o município a Bodoquena, próxima ao Rio Miranda.
Leilão recebe lances até outubro e pode ter desconto de 20%
O leilão começou a receber propostas em 31 de agosto e segue até 13 de outubro de 2026. Caso a fazenda não encontre comprador na primeira etapa, a Justiça poderá reduzir o valor em até 20%. O que levaria o preço de referência a aproximadamente R$ 128,8 milhões.
Esta é a segunda tentativa de leiloar a propriedade: o processo já havia sido aberto antes, mas nenhuma empresa apresentou proposta na primeira rodada. A fazenda também já havia ido a leilão em julho de 2024, quando o valor mínimo estabelecido girava em torno de R$ 147 milhões.
Estrutura ampliada eleva o valor da propriedade
A Fazenda Pouso Alegre reúne nove matrículas contíguas e, pela avaliação atual de R$ 161 milhões, equivale a R$ 59 mil por hectare. A Justiça calcula esse valor considerando o conjunto do patrimônio (terras e benfeitorias), não apenas a área agrícola isoladamente.
A infraestrutura voltada à operação irrigada, incluindo canais e sistema de captação de água, eleva o valor do ativo em relação a uma área de terra sem esse tipo de estrutura instalada.
Execução judicial atinge pessoa física de sócio do grupo
Embora a fazenda esteja ligada à produção industrial do arroz, a execução judicial que levou o imóvel a leilão está relacionada à pessoa física de um dos proprietários, e não diretamente à empresa Engenho Tio Bepy. Débitos tributários vinculados às matrículas do imóvel também constam do processo. Mas não devem ser transferidos ao comprador, conforme as condições estabelecidas para a venda judicial.
O leilão inclui ainda outro imóvel da mesma família. Uma casa de 124 metros quadrados construída em terreno de 300 metros quadrados em Miranda, com valor mínimo de R$ 200 mil.
Recuperação judicial no agronegócio cresce 150% em dois anos em MS
O leilão da Fazenda Pouso Alegre ocorre em um cenário de aumento acentuado das dificuldades financeiras entre empresas do agronegócio sul-mato-grossense. Mato Grosso do Sul registrou 70 empresas em recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, contra 44 no mesmo período de 2025, uma alta de 59,1% em um ano. Em 2024, o estado contabilizava 28 empresas na mesma situação, o que representa um salto de 150% em dois anos.
O movimento reflete um cenário nacional. A Serasa Experian registrou 474 pedidos de recuperação judicial no setor agropecuário no primeiro trimestre de 2026. Ou seja, uma alta de 21,9% ante os 389 casos do mesmo período de 2025. O ano de 2025 já havia fechado como o pior da série histórica da consultoria, com 1.990 solicitações, crescimento de 56,4% sobre as 1.272 registradas em 2024.
Produção recorde não garante saúde financeira, dizem especialistas
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a pressão financeira atual decorre mais da estrutura de capital das empresas do que da capacidade produtiva. Segundo ele, produtores mantêm produtividade elevada, mas enfrentam receita menor diante do crescimento nos custos de insumos, financiamento e operação.
O crédito mais caro e mais seletivo agrava esse quadro. Barroso avalia que muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos com expectativas de cenário diferente do que se consolidou. E hoje enfrentam dificuldade para manter capital de giro e financiar novas safras. O efeito se estende a fornecedores, cooperativas, tradings e transportadoras ligados à cadeia produtiva.
Benito Pedro Vieira Santos, CEO do Grupo Avante Assessoria e especialista em governança corporativa, reforça que a gestão financeira precisa acompanhar a eficiência já alcançada na produção. Para ele, bancos e credores passaram a avaliar não apenas patrimônio e garantias. Mas também geração de caixa, qualidade das informações e governança das empresas rurais.
Especialistas defendem ação antecipada para evitar recuperação judicial
Os dois especialistas concordam que a recuperação judicial funciona como instrumento de reorganização, mas não deve ser tratada como primeira estratégia. Barroso aponta que a identificação antecipada de problemas amplia as chances de renegociação estruturada, revisão da operação e venda de ativos não estratégicos antes que a crise se torne insolúvel.
Portanto, Vieira Santos reforça que o acompanhamento de indicadores financeiros, a projeção de fluxo de caixa e a negociação antecipada com credores ajudam empresas a atravessar períodos de maior pressão com mais eficiência. Para os especialistas, o próximo ciclo do agronegócio brasileiro exigirá equilíbrio maior entre produtividade, disciplina financeira e governança.


