Estudo mostra por que pequenas cidades do Brasil perdem riqueza mesmo no coração do campo
Foto: divulgação - Embrapa/Geraldo Magela

Baianópolis, município de 14 mil habitantes no oeste da Bahia, fica no Matopiba, uma das regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro. Ainda assim, apenas 20% da cadeia produtiva da soja e do milho cultivados ali funciona localmente. O restante escoa para outros centros, levando junto empregos, renda e oportunidades. Esse paradoxo está no centro de uma pesquisa de doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB) que propõe um novo modelo de planejamento urbano para municípios pequenos. E que, em simulação, multiplica por 2,4 vezes cada real investido.

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A urbanista Carlla Brito Furlan Pourre desenvolveu o estudo, intitulado “Modelo conceitual de instrumento econômico: desenho e análise de aplicação para a viabilidade de projetos urbanos em pequenas cidades”. A tese parte de um diagnóstico econômico detalhado do município para, só então, definir programas, políticas e ações de desenvolvimento urbano alinhadas à realidade local. E não a modelos genéricos pensados para grandes capitais.

O problema: instrumentos urbanos que ignoram cidades pequenas

O Brasil tem 5.569 municípios. Desses, 3.370, quase 70%, têm menos de 20 mil habitantes, segundo o IBGE. Apesar de representar a maioria, essas cidades não contam com instrumentos de planejamento urbano adequados à sua escala.

Os mecanismos hoje disponíveis, como a Operação Urbana Consorciada e os Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepac), nasceram para grandes centros. A Operação Urbana Consorciada une poder público e iniciativa privada para viabilizar intervenções como escolas, praças e unidades de saúde. Os Cepacs permitem que o mercado imobiliário construa acima dos limites urbanísticos estabelecidos em troca de contrapartidas financeiras.

Segundo Carlla Pourre, esses instrumentos costumam chegar ao território sem estudos aprofundados e sem conexão com as necessidades reais da população. “São decisões pontuais, muitas vezes tomadas de forma unilateral pelo grupo político gestor ou até mesmo pela iniciativa privada”, afirma. Para municípios pequenos, onde o mercado imobiliário é restrito, esses mecanismos simplesmente não funcionam. “Há um verdadeiro vácuo de políticas de planejamento urbano voltadas às pequenas cidades”, diz a pesquisadora.

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O modelo: planejamento que começa pela economia

A proposta de Carlla Pourre inverte a lógica tradicional. Em vez de partir do desenho urbano, o modelo começa pelo mapeamento econômico do município, suas vocações, lacunas e potencialidades. A partir desse diagnóstico, o poder público identifica cadeias de negócios estratégicas e estrutura infraestrutura, serviços e políticas públicas para fortalecê-las.

“A tese propõe um modelo de desenvolvimento baseado em cadeias de negócios, no qual o planejamento urbano deixa de ser pensado apenas como desenho urbano e passa a ser articulado à dinâmica econômica local”, explica a urbanista. O objetivo é estimular a circulação de renda, criar atividades estratégicas e garantir a sustentabilidade financeira de projetos, públicos ou privados.

Para municípios pequenos, a pesquisadora defende um modelo híbrido de financiamento, que combine recursos públicos, capital privado, financiamento de desenvolvimento e fundos multilaterais, calibrado às vocações econômicas de cada lugar.

O caso Baianópolis: R$ 20 milhões que podem virar R$ 48 milhões

O modelo chegou a números concretos quando a pesquisadora simulou a instalação de uma indústria esmagadora de soja em Baianópolis. Com investimento estimado em R$ 20 milhões, a projeção aponta impacto total de R$ 48 milhões na economia local, 2,4 vezes o valor aplicado. A simulação também indica a criação de cerca de 285 empregos diretos, indiretos e induzidos, além de R$ 8 milhões em renda anual gerada.

Com a implantação do modelo completo, a cadeia do agronegócio de soja e milho no município avançaria de 20% para 41% de completude, com novos serviços e atividades econômicas integradas. “Assim, Baianópolis aproveitaria novos fluxos de capital, pessoas e serviços, aumentando a qualidade de vida da população local”, destaca Carlla Pourre.

Hoje, a ausência de indústrias de processamento e a baixa oferta de serviços de apoio forçam trabalhadores a migrar para centros maiores e aprofundam informalidade, pobreza e desigualdade. Mesmo em um município inserido em uma das regiões agrícolas mais produtivas do país.

Por que isso importa além da Bahia

A pesquisadora defende que o modelo pode servir de referência para qualquer município que busque atrair investimentos, reduzir desigualdades e construir estratégias de crescimento mais sustentáveis.

Mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carlla Brito Furlan Pourre. Foto: Divulgação

Na prática, significa criar condições para reter população com mais oportunidades de trabalho, ampliar serviços urbanos e dinamizar a economia a partir das vocações do próprio território. E sem depender de receitas prontas feitas para realidades completamente diferentes.