Números variam entre fontes, mas todos apontam para uma escala de esforço quase incompreensível
abelhas voam quilometros pra produzir mel
Foto: arquivo Agro em Campo

Para produzir uma única libra de mel, as abelhas de uma colmeia visitam cerca de dois milhões de flores e voam mais de 80 mil quilômetros. Essa é uma distância equivalente a mais de duas voltas ao redor do planeta. A conta transforma um item comum de supermercado em um verdadeiro recibo de trabalho coletivo.

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Foto: Cistina Gallo/Epagri SC

Organizações de apicultura repetem amplamente esse número, mas ele funciona como aproximação, não como medida exata. O Canadian Honey Council calcula um valor mais próximo de 2,6 milhões de flores, a partir de estudos de campo mais antigos, e destaca que os valores usados nesse cálculo representam médias. A ordem de grandeza, porém, permanece a mesma.

Cada abelha coletora visita entre 50 e 100 flores por viagem antes de retornar à colmeia para descarregar o néctar. Nesse ritmo, as operárias somam entre 20 mil e 40 mil viagens de coleta para completar os dois milhões de visitas.

A escala individual revela a dimensão do esforço: ao longo de toda a vida, uma abelha operária produz apenas um doze avos de colher de chá de mel.

Uma vida curta dedicada ao trabalho coletivo

As abelhas nem dedicam toda a vida à coleta de néctar. Uma operária de primavera ou verão vive, em geral, entre seis e oito semanas. Ela passa as primeiras três semanas realizando tarefas dentro da colmeia e só começa a forragear mais tarde, embora esse tempo varie conforme as necessidades da colônia.

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Os dois milhões de flores, portanto, não resultam do esforço de uma única abelha incansável. Eles representam o trabalho de uma força coletiva, rotativa e de vida curta.

As distâncias dividem opiniões entre pesquisadores

A distância percorrida gera mais controvérsia entre as fontes. Um número frequentemente citado aponta que as abelhas de uma colmeia voam mais de 88 mil quilômetros para produzir uma libra de mel. Ou seja, o equivalente a pouco mais de duas voltas completas ao redor da Terra, cuja circunferência soma cerca de 40 mil quilômetros no equador.

Foto: divulgação – Secretaria de Agricultura de SP

Outras fontes citam números ainda maiores, próximos de 145 mil quilômetros. Essa diferença resulta de estimativas distintas, não de métodos de medição diferentes. Diversas publicações apresentam o valor maior como a distância que uma única abelha precisaria voar, mas nenhuma abelha produz uma grama de mel sozinha. Trata-se de outra estimativa do voo total agregado da colônia, baseada em médias arredondadas diferentes.

Fatores como a quantidade de néctar transportada por viagem, o teor de açúcar do néctar, a distância das flores em relação à colmeia e a quantidade de água que precisa evaporar durante a produção do mel alteram o resultado em dezenas de milhares de quilômetros.

A dança que reduz o esforço das abelhas

Uma colônia perderia muito mais energia de voo se cada abelha precisasse descobrir boas flores sozinha. Para evitar esse desperdício, as abelhas compartilham informações por meio da chamada dança do requebrado (waggle dance), um movimento em formato de oito decifrado pelo cientista Karl von Frisch, descoberta que lhe rendeu parte do Prêmio Nobel em 1973.

A dança transmite informações sobre direção e distância. Experimentos modernos confirmam que a duração da parte vibratória do movimento varia conforme a distância até o alvo, enquanto o ângulo indica a direção do alimento em relação ao sol.

Foto: Fernando Vivas / GOVBA

Esse sistema de comunicação evita que os números fiquem ainda maiores. Quando pesquisadores impediram colônias de acessar as informações úteis da dança, as abelhas passaram a forragear mais longe das colmeias. A dança recruta operárias para áreas de coleta mais próximas e concentra o esforço coletivo.

Assim, independentemente do número exato adotado, o panorama geral não muda. Um pote de mel na prateleira da cozinha carrega uma libra de voo concentrado: cerca de dois milhões de visitas a flores e quilômetros suficientes para dar ao menos duas voltas no planeta, produzidos fração por fração de colher de chá por gerações de operárias de vida curta.