Pesquisa da Embrapa com 100 tourinhos Nelore encontrou microrganismos capazes de indicar ainda na recria quais animais podem ser mais eficientes
Touro Nelore criado a pasto em estudo sobre conversão de alimento em carne
Foto: Embrapa - Breno Lobato

Uma amostra de fezes pode ajudar a revelar quais bois conseguem transformar o alimento em carne com maior eficiência. É o que mostra uma pesquisa da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), que acompanhou 100 tourinhos da raça Nelore.

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O trabalho identificou uma relação entre os microrganismos presentes no sistema digestivo dos animais e a eficiência alimentar. Na prática, essa característica pode ajudar a identificar bovinos que aproveitam melhor os recursos disponíveis para ganhar peso.

O resultado interessa diretamente ao produtor. Afinal, animais mais eficientes podem exigir menos alimento para determinado nível de produção. Além disso, melhorar a conversão alimentar pode contribuir para reduzir custos dentro da propriedade.

Mas existe outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores: alguns desses sinais aparecem quando o animal ainda está na recria a pasto.

Fezes funcionam como uma pista

Tourinho Nelore em área de pastagem durante pesquisa sobre eficiência alimentar de bovinos
Foto: Embrapa – Gisele Rosso

O estudo começou em 2021, em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Os pesquisadores acompanharam os 100 tourinhos em diferentes fases de produção.

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Primeiro, os animais passaram pela recria a pasto durante 12 meses. Depois, seguiram para o confinamento. Ao longo desse período, a equipe coletou amostras de fezes em três momentos: no fim da seca, depois do período das águas e, por último, na conclusão do confinamento.

Em seguida, os cientistas analisaram o DNA presente nas amostras para identificar mudanças na composição dos microrganismos intestinais.

Foi justamente nessa etapa que surgiu uma das descobertas mais interessantes.

Ao todo, a pesquisa encontrou 62 microrganismos relacionados ao Consumo Alimentar Residual (CAR), indicador utilizado para avaliar a eficiência alimentar dos bovinos.

Além disso, boa parte dos microrganismos associados ao CAR apareceu nos animais ainda durante a primeira fase da recria a pasto.

Assim, bactérias encontradas em bovinos recém-desmamados podem fornecer pistas sobre o desempenho que esses mesmos animais apresentarão mais tarde.

Seca mudou as bactérias dos animais

A pesquisa também encontrou diferenças conforme a época do ano.

Durante a seca, os cientistas observaram uma diversidade de bactérias maior do que nos períodos das águas e do confinamento. Somente no final da estação seca, 30 microrganismos apareceram associados à eficiência alimentar.

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Essa diferença tem relação com a própria alimentação.

Na seca, o gado encontra pastagens mais fibrosas e com características diferentes das observadas no período das águas. Nesse cenário, determinados microrganismos ganham importância porque participam da quebra das fibras e da produção de compostos que servem como fonte de energia para os bovinos.

Portanto, a microbiota do animal não permanece igual durante todo o sistema de produção. Ela responde, entre outros fatores, à dieta e às condições encontradas em cada fase.

Pesquisa vai além do ganho de peso

Os cientistas também encontraram associações com outras características importantes para a pecuária.

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A análise identificou microrganismos relacionados ao ganho de peso, à espessura de gordura, à área de olho de lombo e à maciez da carne. Até a reatividade do bovino apresentou associações com determinados grupos de microrganismos.

Outro ponto amplia o potencial da descoberta. Parte da composição dessa microbiota sofre influência da própria genética do animal.

Por isso, no futuro, essas informações poderão contribuir para programas de melhoramento que combinem características genéticas dos bovinos com indicadores relacionados aos microrganismos encontrados no sistema digestivo.

Pesquisa abre caminho para selecionar bois mais eficientes

Isso não significa, porém, que o pecuarista já possa coletar fezes do rebanho e descobrir imediatamente quais animais apresentam maior eficiência.

A pesquisa mostra um potencial de predição, mas transformar essa descoberta em uma ferramenta comercial para uso nas propriedades ainda exige novas etapas de validação. Os pesquisadores também pretendem avançar na medição da eficiência diretamente no pasto.

Esse ponto ganha importância no Brasil porque grande parte da pecuária de corte nacional depende das pastagens. Portanto, conseguir identificar animais mais eficientes ainda durante a recria poderia ampliar as possibilidades de seleção dentro das fazendas.

Além disso, os resultados abrem outra frente de pesquisa. As informações sobre a microbiota poderão contribuir, por exemplo, para estudos envolvendo pré e probióticos voltados à eficiência no aproveitamento dos alimentos.

Para o produtor, a lógica é simples. Quanto melhor o bovino utiliza aquilo que consome, maior pode ser a eficiência do sistema produtivo.

Agora, a ciência começa a mostrar que uma parte dessa resposta pode estar justamente onde poucos procurariam: nas fezes do próprio boi.