Resumo da notícia
- O endividamento dos produtores rurais e a demora na renegociação das dívidas limitam os negócios com máquinas agrícolas na 49ª Expointer, segundo Claudio Bier, presidente do Simers.
- Juros altos, inadimplência e maior seletividade bancária restringem o crédito, pressionando toda a cadeia do agronegócio e dificultando uma recuperação rápida do mercado de máquinas.
- Apesar das dificuldades, a aposta está na tecnologia para aumentar a produtividade, mas a retomada dos investimentos será gradual, condicionada à melhora da capacidade financeira dos produtores.
O endividamento dos produtores rurais deve limitar os negócios com máquinas agrícolas durante a 49ª Expointer. A avaliação é de Claudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), que participou de entrevista coletiva na feira, em Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre (RS).
Segundo Bier, a proximidade entre as medidas de renegociação das dívidas e a Expointer dificultou a reação dos agricultores. Além disso, muitos produtores ainda não conseguiram concluir a renegociação de seus débitos.
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“O agricultor ainda não absorveu e muitos não conseguiram ainda renegociar as suas dívidas e isso, certamente, vai atrapalhar um pouco os negócios”, afirmou.
O cenário também envolve juros elevados, inadimplência e maior seletividade dos bancos na concessão de crédito. Por isso, o presidente do Simers considera que o momento exige cautela antes de projetar uma recuperação mais rápida do mercado de máquinas.
Crédito restrito afeta investimentos
Bier avalia que o setor enfrenta uma combinação de fatores que pressiona toda a cadeia do agronegócio. Entre eles estão os juros altos, o aumento da inadimplência e os pedidos de recuperação judicial de grandes grupos.
Na avaliação do dirigente, os efeitos chegam ao produtor porque diferentes elos da cadeia estão conectados. Empresas de segmentos como arroz e soja, por exemplo, também negociam com grupos que enfrentam dificuldades financeiras.
“É o que eu sempre digo, nós temos uma tempestade perfeita”, afirmou Bier.
Além disso, o produtor gaúcho enfrenta uma situação considerada mais difícil do que a de outros Estados. Os agricultores plantaram parte das safras em um período de dólar elevado e custos maiores. Depois, ainda enfrentaram a queda nos preços das commodities.
O cenário se agravou após quatro safras consecutivas de pressão. Mesmo assim, Bier destaca a capacidade de reação dos produtores.
“Nosso agricultor é resiliente, ele não se entrega, ele continua plantando.”
Tecnologia ainda é aposta para elevar produtividade
Apesar das dificuldades financeiras, o presidente do Simers vê espaço para uma recuperação dos investimentos em tecnologia. No entanto, ele não espera uma retomada imediata.
A indústria de máquinas agrícolas vem incorporando novas tecnologias aos equipamentos. Com isso, o produtor pode aumentar a produção na mesma área, além de acelerar etapas como plantio e colheita.

A expectativa, portanto, é ampliar a eficiência das propriedades. Em algumas situações, a tecnologia pode permitir que o agricultor faça três safras onde antes realizava duas. Em outras, pode viabilizar duas safras onde antes havia apenas uma.
“Vai haver uma recuperação, mas não vai ser imediata como nós gostaríamos”, disse Bier.
O dirigente ressalta, porém, que o produtor precisa primeiro recuperar sua capacidade financeira. Atualmente, o crédito está mais restrito e os bancos adotam critérios mais seletivos para liberar recursos.
Por isso, Bier acredita que uma recuperação mais consistente dependerá de uma sequência de boas safras.
“É evidente que uma, duas, três safras boas nós vamos recuperar isso sim.”
Soja armazenada pode ajudar produtor
Apesar da pressão financeira, Bier aponta um movimento que pode trazer algum alívio aos agricultores. Em conversas com dirigentes de cooperativas, ele afirma ter recebido relatos de produtores que ainda mantêm estoques de soja.
Segundo o presidente do Simers, muitos agricultores optaram por não vender o grão quando os preços estavam mais baixos. Agora, com uma melhora nas cotações, esses estoques podem representar uma fonte adicional de recursos.
Além disso, Bier cita mudanças no mercado internacional. Na avaliação dele, a frustração da safra dos Estados Unidos pode contribuir para melhorar as condições para os produtores brasileiros.
“Isso aí, pelo menos, será um alento para os nossos agricultores.”
Novos mercados ganham espaço
O cenário internacional também aparece como uma frente de reação para o agronegócio brasileiro. Bier avalia que crises comerciais podem obrigar o setor a buscar novos compradores.
O dirigente cita como exemplo a Índia, mercado que, segundo ele, ganhou espaço para os produtos brasileiros depois das barreiras impostas pelos Estados Unidos.
“Para toda crise é preciso uma solução, a crise nos traz oportunidades.”
Bier afirma ainda que, caso o mercado europeu reduza ou interrompa as importações brasileiras, o país terá de procurar novos destinos para sua produção.
“Claro que se o mercado comum europeu fechar as importações, nós vamos atrás de outros mercados.”
Além das exportações, o presidente do Simers destaca o crescimento do consumo de soja e milho pelas usinas de biodiesel. Para ele, a transformação desses produtos em itens de maior valor agregado beneficia tanto a indústria quanto os agricultores.
Nesse cenário, a recuperação do mercado de máquinas agrícolas dependerá da capacidade de o produtor reorganizar suas finanças. Ao mesmo tempo, a adoção de novas tecnologias continuará como uma das alternativas para elevar a produtividade e melhorar o resultado das propriedades.