Resumo da notícia
- Tank 300 PHEV Flex: o SUV que roda com etanol, gasolina e energia elétrica já está à venda no Brasil
- Lançado simultaneamente na China e no Brasil, o modelo entrega 394 cv, autonomia elétrica de 74 km e tecnologia criada para as condições reais do mercado nacional
- Modelo abre uma discussão econômica relevante para um dos setores mais estratégicos do agronegócio brasileiro.
A GWM apresentou nesta sexta-feira (25), durante o Salão de Pequim 2026, o Tank 300 PHEV Flex, o primeiro híbrido plug-in flex fuel do mundo. O modelo estreia simultaneamente na China e no Brasil como linha 2027, disponível em todas as concessionárias da marca e no site oficial a partir de R$ 342 mil.

O lançamento é resultado de um desenvolvimento conjunto entre a GWM Brasil e a Bosch do Brasil, com suporte da matriz chinesa. A tecnologia reúne um sistema híbrido plug-in à capacidade de usar etanol hidratado ou gasolina, com calibração específica e algoritmos que identificam automaticamente a proporção de combustível no tanque.
394 cv e consumo de até 18,8 km/l
O coração do Tank 300 PHEV Flex é um conjunto híbrido composto por um motor 2.0 turbo a combustão e um motor elétrico ligado a um câmbio de nove marchas, que produzem 394 cv de potência combinada e 750 Nm de torque. O SUV acelera de 0 a 100 km/h em 6,8 segundos.
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O motor opera no ciclo Miller, arquitetura que prioriza eficiência energética em vez de pico de potência. Por isso os números de desempenho se mantêm iguais independentemente do combustível usado. Com gasolina, o veículo consome até 18,3 km/l na cidade e 18,8 km/l na estrada. Com etanol, os índices caem para 13,1 km/l e 14,1 km/l, respectivamente.
A bateria de 37,1 kWh garante até 74 km de autonomia elétrica pelo padrão Inmetro e até 106 km pelo ciclo WLTP. Em recarga rápida DC (até 50 kW), o modelo vai de 30% a 80% em cerca de 24 minutos. Em corrente alternada, aceita até 6,6 kW.
Off-road sem concessões
A plataforma Hi4-T mantém a vocação off-road da linha Tank. O modelo traz carroceria sobre chassi, tração 4×4 com reduzida, transmissão automática de nove marchas com conversor de torque e bloqueios eletrônicos de diferencial dianteiro, traseiro e central. O sistema Todo-Terreno oferece nove modos de condução, e o veículo atravessa até 700 mm de lâmina d’água. A capacidade de reboque é elevada, e as dimensões generosas (4.760 mm de comprimento, entre-eixos de 2.750 mm e porta-malas de até 1.520 litros) garantem praticidade no dia a dia.
“O lançamento do Tank 300 Flex é mais uma demonstração da incrível capacidade da GWM de se adaptar às demandas dos consumidores brasileiros”, afirmou Diego Fernandes, COO da GWM Brasil. “É um orgulho para a marca saber que essa tecnologia brasileira se tornou uma inovação global.”
O que esse lançamento significa para o mercado de etanol no Brasil?
O Tank 300 PHEV Flex não é apenas uma novidade de produto; ele abre uma discussão econômica relevante para um dos setores mais estratégicos do agronegócio brasileiro.

Até agora, praticamente todos os PHEVs vendidos no país operam exclusivamente com gasolina no motor a combustão. Isso cria uma contradição. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol e possui a maior frota flex do planeta. Mas seus carros eletrificados ignoram completamente esse combustível. O resultado é que o crescimento da eletrificação no Brasil tem avançado à margem da cadeia do etanol. E potencialmente em detrimento dela.
Por que a adoção do etanol em PHEVs pode mudar o jogo
Se outros fabricantes seguirem o caminho aberto pela GWM, o impacto para o setor sucroenergético seria direto e significativo. Hoje, a preocupação central da indústria de etanol é que a massificação dos veículos elétricos puros (BEVs) reduza drasticamente a demanda por combustíveis líquidos nas próximas décadas. Um veículo PHEV flex, no entanto, mantém a demanda por etanol enquanto também reduz emissões — o que representa um cenário muito mais favorável para os produtores.
O etanol de cana-de-açúcar brasileiro tem uma das menores pegadas de carbono entre os combustíveis disponíveis no mundo. Quando combinado com um powertrain híbrido, ele potencializa ainda mais a redução de emissões por quilômetro rodado. O que fortalece o argumento do Brasil em fóruns internacionais de descarbonização do transporte.
Um novo mercado para a cadeia produtiva
A tecnologia flex em PHEVs pode estimular investimentos em duas frentes: expansão da capacidade de produção de etanol de segunda geração (a partir do bagaço de cana) e modernização dos sistemas de distribuição e abastecimento. Se a demanda por etanol em veículos eletrificados crescer, usinas que hoje operam próximas ao limite de capacidade podem encontrar justificativa econômica para ampliar a produção.
Há também um efeito de imagem importante. O Brasil luta há anos para que o etanol seja reconhecido internacionalmente como combustível de transição legítimo — e não apenas como uma solução regional. Um PHEV flex produzido por uma montadora global e apresentado no maior salão do automóvel do mundo, em Pequim, oferece exatamente esse argumento de credibilidade.
Os limites do otimismo
É preciso cautela, porém. O Tank 300 PHEV Flex custa R$ 342 mil, um preço que o coloca fora do alcance da maior parte dos compradores de veículos flex no Brasil, que historicamente se concentram em segmentos de entrada e intermediários. Para que o impacto no mercado de etanol seja de fato relevante, a tecnologia precisaria migrar para modelos mais acessíveis, como hatchbacks e sedãs compactos.
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Além disso, a eficiência do motor em ciclo Miller, que prioriza eficiência em detrimento de potência, reduz parte do ganho que o etanol normalmente oferece em motores convencionais. Isso significa que a vantagem competitiva do etanol, historicamente associada ao desempenho em motores turbo de alto rendimento, se apresenta de forma diferente nesse contexto.
Independentemente dessas ressalvas, o lançamento do Tank 300 PHEV Flex envia um sinal claro ao mercado: a eletrificação e o etanol não são caminhos opostos. Se a indústria automotiva global passar a tratar o etanol brasileiro como aliado, e não como obstáculo da transição energética, o Brasil sai de uma posição defensiva para uma posição de protagonismo. E o setor sucroenergético, que emprega mais de um milhão de pessoas diretamente, teria motivos concretos para comemorar.